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Tuesday, August 11, 2015

Know thy place


Tenho um antigo fascínio por geishas, um tema que hei-de explorar melhor por aqui um dia destes. (A certa altura, coleccionei bastante material sobre elas...até tenho duas figuras de seda antigas a decorar o meu quarto.) Eram tão misteriosas que ainda hoje é difícil explicar o conceito: é que não há uma figura equivalente noutras culturas.

Uma geisha, como saberão, não é uma cortesã de classe alta semelhante às antigas "cocottes" ou demi- mondaines europeias ( cuja correspondente japonesa seria a tayu ou oiran). A geisha tinha um papel mais sério e gozava de outra  segurança: era essencialmente uma artista de refinada cultura que vivia dos seus ganhos como cantora e bailarina- um pouco o equivalente às "presenças" de celebridades em festas actualmente. E as geishas de maior sucesso eram verdadeiras celebridades! 

O-Yuki Morgan, geisha que ficou famosa
por casar com um magnata americano.
Isso era complementado pelo apoio de um, eventualmente dois, danna [patrono] influente ao longo da sua vida. Se o danna quisesse casar com ela, a geisha tinha de abandonar a profissão. Claro, haveria mulheres desta arte com os seus pecadilhos e esquemas, como há em toda a parte e em todas as épocas; mas muita da má fama das geishas no Ocidente foi motivada pelos soldados americanos após a II Guerra Mundial, que conviveram com meretrizes disfarçadas...

O que sempre me intrigou nestas mulheres, além da relativa independência de que gozavam, de serem sex symbols sem mostrarem nada além do pescoço e de um pouco de décolletage e de viverem numa sociedade (os "distritos") praticamente matriarcal, foi a sua subtileza, a rigorosa disciplina e os anos de treino que dedicavam a tornar-se mulheres "perfeitas" de acordo com os padrões do seu meio. 

A geisha era uma criatura de sonho: a voz, os gestos, o andar de uma geisha não eram os de uma mulher comum. A sua maquilhagem, os decotes, o próprio penteado, destinavam-se à ilusão. Acima de tudo, elas dominavam a arte feminina de saber ouvir, da conversação, do silêncio, do poder sobre as suas próprias emoções e sobre as dos outros, do auto domínio  e de dominar o interlocutor. Eram uns Richelieus de kimono, que usavam a sua beleza para triunfar mas mantinham os acontecimentos sobre o seu controlo.


 Lembrei-me disto porque hoje me ocorreu uma passagem do famoso romance Memórias de uma Geisha, em que uma delas, Mameha, vai num riquexó com a sua discípula e decide apear-se no meio de uma ponte. O condutor protesta, os ciclistas vaiam-na furiosos, mas ela conta o dinheiro calmamente, paga, e mais calmamente vai à sua vida, como se não fosse nada com ela...

É que Mameha era uma pessoa "tão certa do seu lugar no mundo que não podia imaginar que alguém ficasse aborrecido por uma coisinha como ela estar a bloquear o trânsito".
É claro que nenhuma mulher normal será tão fora da realidade como esta personagem, que tinha levado uma vida dura, mas protegida e fora do comum.  Porém, houve uma ideia que sempre me ficou deste trecho; é que é muito importante não esquecer outra arte feminina: a de ter exactamente consciência de quem se é, do lugar que se ocupa na vida e de para onde se vai. Não se deixar perturbar minimamente pelas circunstâncias exteriores nem aceitar menos, ou outra coisa como uma possibilidade. Nem que isso provoque alguma confusão na ponte...

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