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Wednesday, August 26, 2015

Medo do confronto?


O medo do confronto é comum a toda a gente: quem não preferia viver tranquilo, que a barca fosse sempre num mar de rosas? 

No entanto, pela própria lei da natureza, sabemos que isso é impossível. Os ventos mudam; à tempestade segue-se a bonança e vice-versa;  há constantemente novas variáveis e para cúmulo, temos de lidar com o ser humano, que nunca é matéria totalmente maleável e previsível, por mais manuais que se escrevam a dizer o contrário. Maquiavel destacou-se entre os mais sábios dos sábios (Sun Tzu, Marco Aurélio, Séneca, Cícero, Mazarin, Richelieu, etc) ao enunciar a simples fórmula de virtude x fortuna (que é basicamente fazer o que se pode face às circunstâncias que se apresentam e que estão fora do domínio do mais poderoso). Já a Igreja Católica Romana, que tanto moldou a nossa cultura, foi extremamente sensata ao avisar que a felicidade perfeita e sem núvens não pode encontrar-se na Terra: defender o contrário é de um tremendo wishful thinking. O Homem, mesmo o mais feliz, que possua beleza, saúde, poder, riqueza, amor e estatuto, está sempre sujeito a um erro, a um revés, a um excesso de confiança que estrague tudo, a uma intriga que o perca, às partidas da economia, a uma maleita ou a uma catástrofe. Fragilidade das fragilidades! Vaidade das vaidades!

 Por isso, o ser humano deveria vir preparado para o confronto, seja o confronto pequeno ou grande. A caça e a guerra programaram-nos para isso ao longo de milénios. E para os momentos em que isso não era necessário, de modo a não perder o jeito, inventaram-se os desportos e os jogos.

Se o Homem não tivesse sem si esse instinto, os desafios de futebol, as apostas e o xadrez teriam há muito caído em desuso. O pobre homem (ou mulher) mesmo o mais afortunado e inatingível, vive num permanente estado de alerta, não vá o diabo tecê-las.



 E no entanto,na vida como na guerra, quase se poderia dividir a humanidade entre as pessoas que têm medo do confronto e as que lidam com ele sentindo a estranha alegria da batalha. Há vários graus para isto, obviamente, já que cada um é diferente, mas não deixa de ser óbvio.

 Na guerra toda a gente tem medo. Seria uma estupidez e uma imprudência não ter medo. Mas existem dois tipos de soldado: os que lá estão obrigados, tremendo como varas verdes e achando que tudo está perdido, e os que, já que lá estão, se deixam embriagar pelo entusiasmo da escaramuça, e berram "molon labe! hoje é um bom dia para morrer!". Esses são os soldados profissionais, que têm fibra de guerreiros.


E no dia a dia é exactamente assim. Há as pessoas que têm medo até dos confrontos que elas próprias criaram. Só para não terem de ouvir duas palavras desagradáveis, tomar partidos, escolher lados, fazer opções ou passar uns momentos constrangedores, deixam de resolver as coisas mais importantes ou de alcançar aquilo que procuram. Outras ainda (isto é muito comum em pessoas de bom coração) são dadas à paz, não fazem mal a ninguém, jogam limpo e por isso morrem de medo de quem não é assim. Acham sempre que o mal triunfa e que quem é mau, quem faz batota, quem não tem dignidade, quem é vigarista, falso e cheio de truques, é automaticamente mais esperto e mais forte. Sabem que têm razão mas não têm confiança em si próprias. São o tipo de pessoa que teria deixado Hitler ganhar a guerra só porque era mau, cheio de basófia e tinha umas engenhocas e umas paradas todas impressionantes. Levam tudo demasiado a sério e a cada fanfarronada do inimigo, encolhem-se e desanimam.

 Depois existem os guerreiros profissionais do dia a dia - muito comuns entre os maiores atletas, por exemplo. Não procuram os confrontos (isso não seria ser guerreiro, mas tirano); porém, já que lá estão, há que escolher as batalhas, seguir a estratégia, dar o peito às balas e seja o que Deus quiser, divertindo-se com a escaramuça e apreciando o movimento dos peões. São os que, já que é mesmo inevitável, tratam do assunto e vêem as bravatas da outra parte pelo que são: fanfarronadas, que geralmente denunciam uma tremenda insegurança. Não gostam de perder nem subestimam o outro, mas não ficam todas tristes, magoadas e assustadas com cada provocação do adversário, pois sabem que faz parte e até torna o jogo mais interessante. Encaram as bombas, as ameaças e o barulho com um sorriso de ironia e serena confiança, porque se conhecem a si mesmos e têm uma grande intuição sobre o oponente. 


Há dias viu-se um bom exemplo disso, quando a americana Ronda Rousey (acima, à esquerda), lutadora americana de artes marciais mistas, obteve uma vitória retumbante no Brasil contra Bethe Correia, que jogava em casa. Bethe vestiu a pele de vilã e usou todas as provocações possíveis para desconcertar a oponente - o que é normal nestes desportos- mas pisou o risco quando a insultou tocando num tema muito pessoal e sensível. Ronda calou-se bem caladinha. Depois resolveu tudo no ringue de forma rápida e espectacular, fazendo a brasileira engolir (literalmente) a sua fanfarronada. E o Brasil aplaudiu!

Ora, nem todos somos atletas ou guerreiros. Mas todos podemos tirar alguma coisa do exemplo. Os fracos começam a encrenca e fazem chinfrim; os fortes resolvem-na.




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