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Thursday, August 13, 2015

Não há estrelas no céu.


A primeira vez que ouvi falar em Perseidas foi verdadeiramente inesquecível. Eu teria uns 11 anos e - ouro sobre azul- calhou que tínhamos convidado a minha prima e melhor amiga para umas férias na praia. Inseparáveis e cheias de imaginação, na altura estávamos interessadíssimas em mitologia grega e começámos logo a conjecturar que sinal divino seria aquele. Andávamos sempre com ar de grande secretismo a inventar teorias e a escrever histórias.

Adicione-se a isto a sensação de liberdade que toda a gente nessas idades sente quando está com os amigos de férias, e a multidão que se juntou no areal para assistir àquele chuveiro de estrelas cadentes. Foi realmente mágico! As estrelas espalhavam pó prateado pelos céus, que parecia bater nas ondas. E toda a gente às escuras, com mantas pelos ombros a olhar para o sete estrelo e "ah!" e "oh" e "depressa, pede mais um desejo!". Muitos desejos pedimos nós! E não sei se alguns não se vieram a realizar ao longo dos anos, através de coincidências muito curiosas. No entanto, esqueci a maior parte. Mas o que me ficou foi a sensação de que aquela noite era mesmo importante e que predestinava grandes feitos.

 Todos os Verões se fala em chuvas de meteoros por volta desta altura, mas só voltei a assistir a algo vagamente semelhante uns cinco anos depois. De novo, estava de férias com o meu irmão e as amigas mais chegadas. Decidimos passar a noite ao ar livre, a "caçar OVNIS" no meio do nada...e ainda hoje falamos das peripécias desse serão, que só acabou quando a avó de uma delas se aventurou a vir caçar-nos ao meio do milheiral em trajes de noite, pregando-nos um susto de morte.


 Logo, quando anunciam que vai haver chuva de meteoros, aquela sensação de "uma noite diferente das outras" assalta-me involuntariamente. Mas é um pouco como acreditar no Pai Natal por hábito, porque já não me lembro de estar "programada" uma chuva de estrelas sem que se juntem no céu quantas nuvens há, a estragar tudo. Nem uma estrelita parada se vê, quanto mais estrelas cadentes! Ora Perseidas! É uma publicidade enganosa. Alguém (um desmancha prazeres cósmico) havia de ser responsabilizado por dar cabo do espectáculo e por arruinar a magia da minha infância e adolescência.

Se calhar chega-se a uma altura em que a magia se esbate um pouco, em que o firmamento fica toldado no firme propósito de nos chamar à realidade. É daquelas coisas parvas da vida em modo "o desapontamento molda o carácter", "é sofrendo que se aprende" e "a vida não é como nos filmes" (tretas, muitas vezes é mais extraordinária, eu já vi) etc, etc.

Em todo o caso, há maneiras mais construtivas de aprender: nomeadamente, aproveitando as vezes em que as estrelas se deixam ver no dramático acto de se despencarem do céu abaixo. Se não agarrarmos a oportunidade, pode haver anos a fio a olhar para o sete estrelo sem que haja sete estrelo à vista. Ou pode até acontecer que nunca mais haja outra chance de céu límpido, que isto estrelas cadentes e oportunidades são coisas muito ariscas...




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