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Saturday, August 29, 2015

Ninguém gosta do Cupido. Nem os Antigos gostavam.


Uma pessoa das minhas relações dizia que o Cupido é um filho da...outra senhora. 

Não será boa ideia ofender a mãe de Cupido, que supostamente era Vénus, deusa do amor e da beleza; fazer zangar uma divindade, ainda que simbólica e adúltera, é um luxo a que poucos mortais se podem dar. 

  Mas em boa verdade, Cupido era de tal maneira traquinas que muita gente acreditava não ser filho de coisa nenhuma, e sim uma espécie de força avassaladora que para aí andava a perder as almas e a armar confusão desde a noite dos tempos.

Evelyn De Morgan, Venus And Cupid

Algumas fontes mais antigas referiam-se a ele (ou mais concretamente à sua versão grega, Eros, "desejo") como um dos deuses primordiais, o primeiro nascido desde o início do universo, contemporâneo do caos ou gerado por ele e responsável pela paixão entre Urano (o céu) e Gaia (a terra). No entanto, a versão que ficou mais conhecida, que se oficializou, por assim dizer, foi a de filho de Afrodite/Vénus, muito provavelmente tendo como pai Ares/Marte, o seu amante preferido. Outros ainda diziam que Eros podia chamar papá a Hermes/Mercúrio, o mais astuto dos deuses (talvez por causa das sandálias aladas e das manhas comuns a ambos).

 Inicialmente, Eros aparecia nas histórias como "o mais belo dos deuses imortais", como afirmava Hesíodo; um jovem lindo e grave, muito generoso para com os homens e mulheres. Platão dizia dele:

" O amor- Eros - aloja-se nos corações humanos, embora não em todos, pois é adverso à dureza. A sua maior glória consiste em não fazer mal nem em permitir que o façam; nunca é acompanhado pela força, pois todos os homens o servem de livre vontade. E aquele que o Amor envolve não caminha na escuridão".

O filósofo pintava a imagem lisonjeira do verdadeiro amor,que tudo suporta; mas fontes posteriores focavam-se nos sofrimentos pungentes que a paixão provoca e nas loucuras que causa. Descreviam-no como "um jovem travesso, irrequieto ou pior ainda".

Esta dualidade é descrita por Apuleio na história de Cupido e Psique, em que o Deus do Amor "vai caçar e sai caçado".

 Em boa verdade, porém, nem gregos nem romanos tinham grande consideração pelo deus alado que atirava flechas dolorosas a tudo o que mexia, assim na Terra como no Olimpo. 


Zeus ralhando a Eros (Rafael)
Zeus (Júpiter) tremia de medo dele, pois achava-se constantemente em trabalhos com a mulher por sua causa; Eros fazia-o apaixonar-se a torto e a direito pelas mais bonitas ninfas e mortais, e a esposa ciumenta não perdoava; fazia-lhe cenas de tremer o céu...de resto, nem a própria mãe escapava às suas partidas. Cupido era uma peste que não respeitava ninguém.

Não admira então, que basicamente, o que diziam deste "anjinho" pudesse traduzir-se como "Cupido só faz porcaria!" embora posto em termos mais elegantes...

"Coração mau, mas boca doce como o mel; nada nele é verdade, nesse vadio. Cruéis são as suas brincadeiras (...) as suas setas voam longe como a morte. Não toques nas suas dádivas traiçoeiras, estão impregnadas de fogo..."

 Não gostavam dele, mas não podiam passar sem ele nem escapar-lhe; só os corações insensíveis estavam mais ou menos imunes, mas por vezes Eros divertia-se a castigar os que lhe resistiam com o dobro da força, pois não gostava de ser desafiado.

Era um malandreco, e assim continua para aflição e alegria da humanidade...




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