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Thursday, August 27, 2015

O complexo Jane Seymour - ou a arte do pudor postiço.





Aqui no Imperatrix fala-se bastante em elegância, dignidade feminina e modéstia ou discrição: três das mais belas qualidades da mulher. Todas estão associadas a boa educação, prudência e temperança e sem elas, até a rapariga (ou senhora) mais bonita e inteligente acaba por se tornar vulgar e perder metade do seu encanto.

Uma mulher discreta cativa pela sua beleza como um todo, física e interior;  pela forma como se atavia, que funciona como uma moldura para os seus dotes naturais (ou seja, o seu apelo não depende de uma mini saia ou de um decote monumental) e pelo seu espírito, pela forma ponderada como se expressa, pela força interior e delicadeza para com os outros. Deixa-se conquistar, em vez de procurar ganhar simpatias ou forçar relacionamentos.

Porém, convém que esses dons sejam verdadeiros. Simultaneamente espontâneos - nascidos da alma e cultivados em casa desde a infância - e mantidos pela auto vigilância e força do hábito. Ou se é reservada ou não se é (e há várias maneiras de se ser reservada, que não excluem necessariamente um feitio mais extrovertido e brincalhão). Não é possível ficar assim de um dia para o outro.



Atenção, por isso, ao que diz o povo: as sonsas são as piores. E às vezes é mesmo verdade. O pudor fingido é uma arma antiga, usada com sucesso até pelas mais afamadas "mulheres de vida alegre". Qualquer homem aprecia a ilusão de fazer uma rapariga corar pela primeira vez. Ou como se assim fosse...

 Há dias repetia-se algo que já dissemos bastante: "uma doidivanas até poderá vestir-se como uma mulher discreta, mas nenhuma mulher discreta se veste como uma doidivanas". 

Por vezes, há realmente doidivanas fantasiadas de mulheres discretas: ou porque lhes convém, ou porque enfim, fazem o tipo desmazelado e nunca tiveram dotes físicos que lhes permitissem, como gostariam, fazer jus ao feio mote " o que é bonito é para se ver" -pois se tivessem, não faltariam as mini saias e as leggings.

 Que lhes resta, então? Fazerem-se de sonsas. Usarem a sua pretensa inocência como trunfo enquanto fazem pior do que a pior das serigaitas. Parece que não partem um prato. São capazes de insinuar que nunca namoraram com ninguém (o mais certo é que ninguém lhes tivesse pedido namoro, o que não quer dizer que não tivessem feito trinta por uma linha de forma não oficial) e posar como umas perfeitas pupilas do Senhor Reitor. E no entanto, há algo que não bate certo: são de um descaramento atroz. Tornam-se umas lapas. Oferecem-se descaradamente, o que não condiz com a atitude ponderada de quem toda a vida se soube manter "nas suas tamanquinhas", que não tem experiência em usar manhas e que foi habituada a deixar-se cortejar em vez de correr atrás dos rapazes.




 São as "mulheres Jane Seymour". Se estão recordados, o Rei Henrique XVIII teve seis mulheres, todas elas com qualidades e defeitos: Catarina de Aragão era forte, virtuosa e filha de reis; Anne Boleyn era apaixonada, sofisticada e inteligente; Anna de Cleves não o atraiu como mulher, mas mostrou ser sensata e uma boa amiga; Catherine Howard, pobrezita, só possuía beleza e sedução; e Catherine Parr era uma mulher bonita e cumpridora.

 No entanto, aquela que nunca o desiludiu  (porque teve o bom senso de morrer de parto antes que o Rei mudasse de ideias) foi Jane Seymour.



Ora, Jane Seymour é capaz de ter sido a mais desengraçadota das mulheres do monarca. Os contemporâneos afirmaram que  Anna de Cleves, que passou à história como sendo a feia do grupo, era na realidade bem bonitinha (o casamento correu mal por falta de química e porque Anna não falava inglês nem gostava de cantar e dançar, como ele). Porém, segundo as fontes da época, Jane era mesmo uma plain Jane, termo inglês para uma rapariga do mais insignificante que há - e os retratos que nos chegaram não a classificariam decerto como bonita à luz do nosso tempo. As suas qualidades físicas resumiam-se à pele extremamente clara, do "puro branco" em voga na época, e ao cabelo claro também. Era rechonchudinha, caladinha, um ratinho e vestia como um trambolho.



 Não era culta, como Anne Boleyn, mas era esperta. E possuía - façamos-lhe justiça - um acentuado sentido diplomático. Ou simplesmente, sabia o que era bom para ela. Sendo dama de companhia de Anne (que cometeu o erro de escolher mal as aias e trajá-las com as modas sexy à francesa) observava tudo e aprendia como tirar partido de qualquer brecha.

Os parentes, sabendo que o Rei estava cansado do carácter estimulante e da sensualidade com que Anne o tinha cativado, vendo que as coisas tinham azedado irremediavelmente entre a Rainha e o Rei, não perderam tempo: trataram de lhe pôr a sonsa da Jane à frente sempre que podiam, chamando a atenção para as suas qualidades: não era dada a leituras...só se interessava por bordados e pelo governo da casa...não punha o nariz fora da porta...não olhava de frente para homem nenhum...dizia que sim a tudo...era um anjo de inocência! Um anjo de inocência que não tinha escrúpulos em correr atrás de um homem casado, note-se...

 Henrique, que sentia (tarde demais) a falta das virtudes domésticas da sua primeira esposa (essa sim, dócil e boa) deixou-se convencer como um pato gordo e tonto. E ainda a pobre Anne não tinha expiado no cadafalso as culpas de se envolver com um adúltero, já Jane estava muito repimpada nos braços do Rei.

Se havia inocência, não era inocência difícil de vencer, pelo menos quando estava em jogo um trono e uns quantos privilégios...

 Aliás, tão espertalhona era que, mal se viu casada, tratou de proibir às suas damas de companhia as tais "modas à francesa" com a desculpa da decência. Acabaram-se os decotes e os cabelos soltos voltaram os vestidos pesados e os toucados estilo caixote, não fosse alguma mais bonita cair no agrado de Sua Majestade e repetir-se o filme...que ingenuidade, hein?



  







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