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Wednesday, August 19, 2015

O complexo "Senhor, faz-me bom, mas não já"



Esta conhecida frase de Santo Agostinho - que na sua juventude se debatia entre os apelos da estroinice e o desejo de se emendar - é das mais eloquentes a resumir o comportamento humano, mas sobretudo um certo tipo de atitude masculina. O desabafo do Santo continua tão actual que Robbie Williams se baseou nele para escrever uma canção, Make me pure.

Agostinho ansiava por atingir o seu máximo potencial, por ser bem comportado, por viver uma vida regrada, por deixar de dar desgostos à mãe, Santa Mónica. Sentia a atracção da Fé e sabia as obrigações que vinham com o caminho que o apaixonava e que queria abraçar. 


Nada disso o contrariava, ninguém o obrigava a mudar de comportamento, não havia pressão alguma para tal mudança a não ser a sua própria vontade. 

E no entanto, ele resistia a modificar-se com todas as forças. Preso a uma liberdade que ele não sabia bem para que servia e que em boa verdade, não lhe dava satisfação. Amarrado a um reflexo de rebeldia, de imaturidade. Agostinho não tinha coragem de agarrar aquilo que mais desejava, por isso lá ia fugindo à questão, adiando, rezando sempre o mesmo estribilho "Senhor, fazei-me bom, mas não tão cedo; dai-me castidade e continência, mas não já". E andou vários anos a rezá-lo...claro que a oração era eficaz, pois voltava sempre a cair no mesmo.

Talvez as rapaziadas, as farras, as más companhias e a irresponsabilidade já tivessem deixado de ter graça, mas custava-lhe muito abdicar da opção de voltar a elas, se quisesse. Não era pelas bebedeiras, os casos inconsequentes e a má vida em si: fazia-lhe mais confusão o acto de lhes virar as costas para sempre. 


De saber que a sua vida ia mudar por um amor verdadeiro e maior. Arrancar-se desse torpor foi algo que lhe custou imenso. Mas como tinha fé, inteligência e uma mãe extremosa a velar por ele, lá acabou por pensar  "se vives em pecado e Deus não te castiga, mau sinal é" e arrepiar caminho enquanto era tempo, deixando de desperdiçar os seus melhores anos e de magoar quem se preocupava com ele.


 Imensa gente age como o jovem Santo Agostinho. Aliás, todos somos um pouco assim às vezes: há quem queira emagrecer, deixar este ou aquele vício, libertar-se de um mau hábito qualquer, fazer aquilo que está certo, mas vai adiando. Pode até nunca rezar, ser de um ateísmo extremo, porém diz a mesma coisa: quero aperfeiçoar-me... mas mais tarde!". É normal ter medo da mudança e das maçadas que ela acarreta, mesmo quando se muda para melhor.

Porém, é entre os homens que se vê mais este estranho conflito. Muitos querem crescer, deixar para trás os disparates de rapazes para passarem a ser homens: o dever chama-os, encontram o amor, a vida obriga-os a assumir negócios de família e outras responsabilidades, despertam para a noção de que não estão neste mundo para agir como eternos estudantes, eternos meninos. Um dia olham-se ao espelho e percebem que está na hora de construírem um legado, de pensarem no futuro. Acabou-se a brincadeira.  E a ideia sensata de "vestir a toga viril", como diriam os romanos, parece-lhes tão aterradora como desejável. 


Na sua imaginação (como alguém que sonha ganhar o euromilhões, mas fica apavorado ao pensar como ia gerir uma alteração de vida tão repentina) vêem as correntes, os grilhões, o fardo sobre os ombros, a portas fechadas às criancices que em boa verdade, já perderam a vontade de fazer; imaginam que não serão mais senhores de si mesmos.

Quando na realidade, estão perto de finalmente, se tornarem senhores de si. A libertação das fraquezas e brincadeiras menos dignas da juventude é o primeiro sinal de poder.

Tradicionalmente, os estudantes de Coimbra, ao concluirem o curso, fazem o "rasganço". Despedaçam o traje que os acompanhou na vida boémia. Não vão mais precisar dele. Exorcizam o moço ingénuo e influenciável para deixar ficar o homem útil, capaz e responsável. Santo Agostinho não terá tido um "rasganço", mas fê-lo simbolicamente. Creio que imensos cavalheiros precisariam de um ritual parecido...


 

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