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Tuesday, August 11, 2015

Pais que dizem "deve de ser" e não se portam como deve ser.


O texto é de 1982, mas quase podia ter sido escrito hoje. Talvez agora os casos de miséria sejam, felizmente (apesar da triste crise que por aí vai) mais atenuados. 

Talvez o "deve de ser" não seja, infelizmente, apontado entre aspas como era há 30 e poucos anos; se nessa altura usar o "deve de ser" classificava socialmente mal quem o dizia, hoje vê-se essa desagradável forma de falar (e escrever) até nos jornais.

Pior ainda,  o comportamento descrito no artigo como próprio de um rapazinho com carências de vária ordem... é hoje o prato do dia, muitas vezes entre pequenos cujos pais supostamente evoluíram em comparação com os seus antepassados - pelo menos economicamente. Perde-se a conta aos pequenos malcriados que dão pontapés nos bancos (até na Igreja) que incomodam porque sim, que têm a mania de cantar melopeias irritantes em crescendo, só pelo prazer de dar nas vistas e arreliar quem está, sem que os pais os disciplinem discretamente, ou agarrem neles em silêncio para os distrair por um bocado. Qual! Parecem antes deliciar-se com o seu papel de "educadores" e com a estridência da própria voz...

Provavelmente os pais mais rústicos  fazem-no de forma absolutamente genuína -  recorrem à asneira, gritaria e tapona em público para tentar mostrar que "dão educação", não sonhando que a educação é uma coisa invisível, que se dá entre quatro paredes precisamente para evitar a necessidade de correctivos públicos e humilhantes para eles, para a criança e para quem assiste...nunca percebi se reproduzem em público os mesmos teatros que fazem em casa ou se no seio do lar deixam os miúdos agir como selvagens e só quando há pessoas a ver é que lhes chegam os brios.

Depois há outros, que tentam por tudo disfarçar um background igualmente pouco educado (logo abstêm-se dos palavrões e das lamparinas, além de ralharem mais baixo) mas ainda conseguem ser piores. Puseram aos filhos um nome da moda, a imitar o antigo para encadernar a coisa (provavelmente com um segundo nome lá mais ao seu gosto); exigem ser tratados por doutores e se calhar olham de cima para os primos lá da terrinha, mas o procedimento é mais irritante se possível, porque também não sonham que a educação é uma coisa discreta que acontece em casa e não é palavra que precise de ser usada - ou provada - junto a estranhos.

 Perante a cantilena repetitiva que se vê mesmo que é para chamar a atenção, os guinchos exagerados que furam os tímpanos a quem está, os piparotes no banco do vizinho, são incapazes de levantar o dito cujo da cadeira, acalmar a criança e afastá-la por um bocado; também não se ficam, como pais discretos e embaraçados por uma birra inesperada, por um simples "shhh, caladinho...já vamos embora, etc". Qual! Elevam a voz a fazer um sotaque "culto" muito postiço, e vai de "Martim Daniel, estou-te a avisar; vais ficar de castigo!". Dali a bocado: "Constança Patrícia, vais ver o que te acontece!". Quando não é: " Caetana Susana, páre quieta...coma a sua natinha...já avisei..." e dali a minutos "Caetana Suzana, se não páras quieta e não te portas como «deve de» ser, levas uma carga de po***, m***" (juro que já vi isto). E tal pantomina quinze, vinte, trinta minutos, ou o tempo que uma pessoa aguentar sem zarpar dali para fora com uma enxaqueca...

 Realmente as crianças aprendem pela tríade da referência, do hábito e do exemplo: se os pais se portam como não «deve de ser», esperam que os filhos saibam estar como deve ser?





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