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Monday, August 17, 2015

Quando as revistas punham juízo no mulherio #2




Recordam-se de no mês passado termos visto uma carta num "Correio Sentimental" de 1960, em que a revista pôs uma leitora desgostosa e desmiolada no lugar, dando-lhe um chá de bom senso?

 Quanto mais exploro as publicações femininas desse tempo, mais me admiro com o sentido de responsabilidade que procuravam incutir nas mulheres. O "nada é errado se te faz feliz" não estava na moda como hoje e não se punha o "corre atrás dos teus sonhos doa a quem doer" acima de tudo. Apesar dos contos românticos, das fotonovelas, das notícias de celebridades e das dicas de moda, quando se tratava de falar em comportamento as jornalistas de então apelavam ao uma boa dose de realismo e sentido do dever.

Observemos um exemplo de Abril de 1967. Uma anónima dos seus vinte e muitos anos escreveu para a Crónica Feminina nos seguintes termos (e olhem que conheço muitas que pensam exactamente assim):

"Sou casada e tenho uma filha mas não sou feliz. O meu marido é severo comigo e trata-me mal. Outra coisa que me aflige bastante é que gostava de ser artista, de cantar, de fazer cinema e teatro. De noite só sonho com essa vida que tanto desejo; de dia só penso nela e passo muito tempo a ler revistas que falem de artistas. Estou apaixonada por essa vida, mas também gosto muito da minha filha...por favor ajude-me a resolver esse problema".




Eis como lhe responderam: 

"É inconcebível que uma mulher casada, com uma filha de quem diz gostar, centre todos os seus desejos num sonho de sentir-se em evidência e fazer parte do mundo dourado do espectáculo. Respeito extraordinariamente as vocações verdadeiras que levam alguém a dar o melhor de si mesmo à arte que escolheu. Não é no entanto o que se passa consigo. Nem sabe ao certo o que gostaria de ser; a única coisa que a fascina é a notoriedade, o olhar das multidões, o êxito, a fama. Acorde enquanto é tempo, por amor de Deus! Não é já uma garota de quinze anos para sonhar assim, esquecendo a realidade que se esconde atrás do brilho dos projectores! Ser artista não é fácil: quantos ficam pelo caminho ou marcam passo num obscurantismo que nunca conseguirão abandonar! A severidade do seu marido não será principalmente fruto de não encontrar em si a mulher que desejava para companheira mas apenas uma cabeça cheia de ilusões, que não sabe viver cada dia nem ser mulher e mãe no verdadeiro sentido do termo?".

Agora, imaginemos que conselhos dariam hoje os "consultórios" do género, ou as amigas de uma jovem mulher casada e mãe, com responsabilidades mas talvez demasiado tempo livre em mãos, que decidisse de um momento para o outro que queria ser famosa, por vaidade e escapismo (pois assumo pelo conteúdo da carta que a leitora não tivesse um percurso ou estudos nas artes do palco enquanto solteira) deixando as suas obrigações para trás e entretendo-se com folhetins todo o santo dia.

 Estou a ver o filme... seria o "consultório" a recomendar "concorra ao Ídolos! Reconsidere a sua relação porque o parceiro não tem o direito de a limitar; talvez tenha casado demasiado cedo, quando não tinha descoberto o seu verdadeiro "eu" e estado em contacto com a sua deusa interior", etc. E as amigas: "mostra o teu talento, amiga ! Vai atrás dos teus sonhos! Inscreve-te na Casa dos Segredos! Pede o divórcio porque homens há muitos e nós somos poderosas, blá blá blá".



No meio disto tudo, bem gostava de saber como a história acabou. Será que a jovem desmiolada até tinha jeito, tentou umas aulas de canto e lá convenceu o marido a apoiá-la, mas em termos de gente ajuizada?

Será que confrontada com a realidade, viu que tinha tanta voz e presença de palco como uma cenoura crua e ganhou tino? Será que nunca deixou de ser desmiolada e o marido ficou a sofrer-lhe tudo? Ou o marido terá agido como um homem do seu tempo e ido devolver a tontinha a casa dos pais? E a pobre criança, como ficou? Mistérios...



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