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Monday, August 24, 2015

Quando é que a masculinidade passou de moda?



A passar finalmente os olhos pela versão de Anna Karenina de há três anos atrás (tenho a estranha mania de às vezes ir adiando  filmes que fazia questão de ver) chamou-me a atenção o erro de casting que cometeram ao escolher (e caracterizar, vá) o Conde Vronsky (Aaron Johnson).

E sobretudo o contraste em relação à versão de 1997, que tinha o deslumbrante Sean Bean no papel. Sou franca, a minha opinião não é imparcial porque considero Sean Bean um dos cavalheiros mais interessantes das telas - além de que preciso de reler o livro. Mas tenho de concordar com quem chamou ao Vronsky de 2012 um "caniche" ou um "vampiro do Crepúsculo".

 A tendência de dar um certo ar adolescente a cada produção televisiva e cinematográfica não é nova, nem se limita às personagens masculinas, mas há exageros e exageros...


Sophie Marceau e Sean Bean (1997)

Mind you -  se estou bem recordada... no romance, Vronsky era suposto ser ligeiramente mais novo do que Anna, mas não um adolescente de ar perverso. É certo que nos finais do sec. XIX alguns jovens "da moda" levavam o tipo dandy à caricatura: eram os peraltas, frisados, empoados, envernizados, esguios como um fuso, muitas vezes ridicularizados e nem sempre conotados com uma imagem propriamente viril. Dorian Gray escapa por um triz à tipologia (é bonito demais, mau demais e ao mesmo tempo, ingénuo demais)  e Octave Mirbeau, em O Diário de uma Criada de Quarto, descreve o Sr. Xavier, um jovem facínora, vicioso, de leve bigodinho louro e olhos felinos que tem um encanto acanalhado e escravizador sobre as mulheres. O seu fascínio dura pouco, no entanto: apenas o suficiente para explorar financeiramente a criada de quarto que caiu na asneira de ter uma paixoneta por ele...


Keira Knightley e Aaron Johnson (2012)

Reconheço até que possa haver um certo apelo venenoso no género, mas daí a uma mulher perder-se por um rapazote desses, dar cabo da sua reputação, atirar-se para a linha do comboio à conta de um peralvilho mais delicado e mais perfumado do que ela, vai uma certa distância.

   Claro que há gostos para tudo, mas não vejo uma mulher sofisticada e até ali imune aos galanteios dos jovens elegantes, como Anna Karenina, a largar barcos e redes para fugir com este Vronsky efeminado que tem mesmo carinha de mau carácter, de malandro. Não estou a dizer que seria aceitável fugir com o Vronsky de Sean Bean, mas ao menos entendia-se - sempre disfarçava e era homem para carregar o mundo nos ombros, para fazer face à adversidade; em última análise, homem por quem se perdesse a cabeça.

Então, porque é que isto está a acontecer? Será da tal doença que anda no ar?

É este o ideal masculino que é suposto encantar as plateias? Ou as mulheres andam de tal maneira atrevidas que só conseguem conceber relacionar-se com alguém que fisicamente não intimide, mas que compense pela velhacaria? Terão medo de que um homem de traços mais masculinos, mais imponentes, seja demasiado dominador? Ou serão os homens que ganharam receio de ser másculos e se sentem mais identificados com esta imagem?

 O problema levanta perguntas, não respostas...

2 comments:

Maria Francisca said...

não sei quando é que passou de moda, mas é uma pena... Ainda no outro dia comentei que os miúdos de hoje parecem todos umas criaturas esquisitas, com penteados e roupas super justas... enfim... não percebo e não gosto.

EK said...

Não sei quando foi mas é um facto. Não o lamento porque eu mantenho-me fiel àquilo que sempre fui ..

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