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Sunday, September 6, 2015

A nobre arte de lidar com dois extremos: pessimistas e patetas alegres

Nos triunfos romanos, havia sempre um grilo falante que repetia ao homenageado "memento mori!"(lembra-te de que és mortal) para lhe conservar os pés na terra. Um pessimista de serviço!


Em qualquer organização humana (equipa, família, exército, partido, grupo de amigos, banda, etc) é quase certo que haverá um pateta alegre ou uma Pollyanna (alguém que vê tudo cor de rosa, está sempre animado e só olha ao lado positivo das coisas) e um pessimista empedernido, para quem tudo é negro. Depois há os somewhere in between. Idealmente, todos devíamos saber
 ser optimistas sensatos ou pessimistas realistas consoante as circunstâncias.

Em certas ocasiões, é útil ser pessimista: considerar o pior cenário possível e estabelecer os necessários planos de contingência; mas uma vez isso feito, voltar a um optimismo razoável e determinado, em modo confia como se tudo dependesse de Deus, trabalha como se tudo dependesse de ti, sem se deter nos obstáculos, no diz-que-disse ou permitir que o excesso de informação nos tire os olhos do objectivo.

 Ora, Maquiavel disse que se deve fechar os ouvidos a toda a gente (limitando o tal ruído inútil ou excesso de informação) menos a um número muito pequeno de conselheiros cuidadosamente escolhidos a quem é permitido dizer a verdade -  mas só se lha pedirem, atenção.

  Atrevo-me a acrescentar que entre esses, o melhor é haver um pessimista e um optimista, estilo anjinho e diabinho. Mas que só falem quando os deixarem, para não que não coloquem desnecessários macaquinhos no sótão.

O Senhor D. Sebastião, um optimista ferrenho.
 Isto porquê?  Porque o optimista, o pateta alegre, a Pollyanna do grupo, é um tanto irresponsável. Só vê as vantagens, os louros e os pontos fortes de quem apoia; não considera os perigos nem os detalhes; olha aos fins, mas não os meios, nem aos obstáculos, nem ao caminho para lá chegar. Sobrestima a capacidade da equipa mas cai no erro de subestimar o adversário. Para o optimista nós somos os melhores, ninguém nos bate, as desvantagens são eliminadas com o fogo da determinação, a eles como San´Tiago aos mouros. É o herói doido dos filmes que se lança à escaramuça contra um grupo muito maior, achando que todas essas cenas acabam como nos filmes do Bruce Lee. É um D. Sebastião, que contra todas as possibilidades e maus augúrios leva a sua avante, diz o cometa que acometa, nem que se mate e arraste toda a gente com ele. E claro, há riscos em dar um aval cego a  estas pessoas com mais coragem do que miolos, que não pensam duas vezes.



 Porém, elas têm um papel necessário: são as cheerleaders de serviço. Cumprem o plano até ao fim sem discutir. São boas a levar estratégias adiante, sem parar para ver as manobras de diversão do adversário. Às vezes é mesmo preciso ter um pateta alegre por perto, que acredite em nós de olhos fechados, que nos contagie com o seu entusiasmo, que transmita confiança e serenidade ainda que o caso esteja muito preto.

Mas os pessimistas empedernidos têm o seu papel também: consideram todas as possibilidades. Procuram todas as fontes de informação, porque acreditam na máxima "conhecimento é poder". Sem os pessimistas, talvez os Aliados não tivessem ganho a guerra: os espiões são pessimistas por natureza; contam com o pior e não descansam enquanto não colhem provas de que o piorio pode mesmo acontecer. Estão sempre com um olho no burro, outro no cigano. Eles são os S. Tomés incrédulos de todas as organizações. Chamam-nos à terra, recordando as consequências de um possível fracasso, como os dignatários romanos que tinham a função de ir atrás de um herói levado em triunfo, dizendo "lembra-te de que és mortal" enquanto lhe seguravam a coroa de louros.

Mr. Crabb, na série Mr. Selfridge, é um contabilista
 sensato, mas eterna alma aflita.

 Mas embora sejam úteis, pecam por excesso de prudência; caem na demora, que só traz desvantagens. Nos momentos de crise em que é necessário levar um plano até ao fim (e já se sabe que a flexibilidade é precisa, mas que é um erro mudar constantemente de estratégia) são verdadeiras aves agoirentas, almas aflitas sempre com cara de quem comeu um limão sem açúcar. Em caso de um desafio maior, ou se as dificuldades apertarem, eis que para eles "está tudo perdido, isto não vai dar em nada, vê se és realista". Descontrolam-se, desarranjam-se, deixam-se intimidar com qualquer bluff, acreditam sempre que os maus é que vencem porque têm mais artimanhas, que a batota e a maldade podem mais do que um bom produto ou uma causa justa e acima de tudo, desrespeitam a máxima de Sun Tsu: se te conheceres a ti mesmo e ao adversário, não terás de temer o resultado de mil batalhas.

 Um pessimista esquece a estratégia que foi delineada, os pontos fracos e fortes seus e dos outros; é tão cauteloso que na sua ânsia de informação, esquece os sinais mais óbvios e que por vezes, há coisas que é melhor ignorar para não perturbar a moral das tropas; é preciso estar constantemente a recordá-lo "este é o plano", "já vimos que assim não resulta" e "não podemos dar-nos ao luxo de estar sempre a olhar para trás e para os lados".


 Em suma, se um pessimista tiver o papel de conselheiro, os papéis acabam por se inverter: é o líder (que tem outras preocupações em mente) que tem de o consolar, de o animar, de falar como se estivesse a convencer-se a si próprio. Isso acaba por danificar a confiança e já se sabe: nenhum homem está de facto derrotado até a sua confiança cair por terra. Testam a paciência, dá vontade de dispensar os seus serviços e se não os conhecêssemos, diríamos que estão a torcer pela equipa adversária ou a sabotar tudo.

 Quando penso nisto, acho que um líder em larga escala - seja de uma grande empresa, de um clube desportivo, de uma campanha militar - precisa mesmo de uma mente genial, nervos de aço e paciência de Job para aguentar os próprios aliados, quanto mais o inimigo. Tiro-lhes o meu chapéu...mas lidar com tais "ajudas" em micro organizações - amigos, projectos, famílias -  também é um teste à santidade, ó se é...









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