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Thursday, September 24, 2015

Amor: escolhas e auto disciplina




"Importa que nos saibamos disciplinar, para pormos em ordem as exigências do corpo e da alma, da carne e do espírito, do ego e do eu. A autodisciplina não é sinónimo de estoicismo, ou de destruição de paixões. Toda a troca implica uma decisiva apreciação entre dois objectos, um dos quais é indispensável e o outro não. Segundo o dizer de S. Tomás, «o coração de um homem adere tanto mais a um objecto quanto mais se afasta dos outros»". 



O amor, se é verdadeiro, fervoroso, muda as pessoas. É impossível ser-se tocado (a) tão profundamente e permanecer na mesma.

 Podíamos estar o dia todo a todo a citar exemplos de homens e mulheres que, atingidos pelo amor nas suas diversas formas, evoluem para se aproximarem da causa ou da criatura que as apaixona.  

Gente que detestava bicharada até se encantar por um animal de estimação... ou maior mudança ainda, pessoas que não ligavam a bebés até conviverem com um; aí passam a querer ter o seu.

 O aventureiro incorrigível que, conquistado por um coração mais puro acalma finalmente, deixando para trás os excessos ou as proezas perigosas. 

A mulher ferozmente independente, que jurava aos pés juntos não querer abrir mão da sua liberdade por ninguém mas uma vez apaixonada, descobre o seu lado maternal e vulnerável.

E exemplos mais transcendentes - o caso de Santos como S.Paulo ou de heróis como os conspiradores de 20 de Julho, que, arrebatados por algo maior do que eles, mudaram e/ou sacrificaram a sua vida.

Em todo o caso, se é amor a sério, muda quem ama para melhor, fazendo cumprir aquele cliché cinematográfico "ele (a) faz-me querer ser a melhor versão de mim" ou "ele (a) faz-me sentir que posso alcançar qualquer coisa". 


                         

Diz-se muito que os homens não mudam, ou que as pessoas não mudam. Mais razoavelmente, que só mudam quando querem- ou quando são vencidas por uma emoção tão forte que causa esse querer.  

Ora, em todas as formas atrás descritas o amor tem um poder estranho: é uma cura, ou pelo menos um forte analgésico, para o egoísmo. Quem se importa profundamente com o outro deixa de contar só consigo mesmo, de lutar só por si, de se preocupar só com a sua pele. A união a outra pessoa tem os efeitos secundários da coragem, do heroísmo, da capacidade de sacrifício. Coisas que seriam aborrecidas de fazer, chegam a entusiasmar quando levadas a cabo sob o efeito do amor.


Mas não se julgue que mesmo com ajuda desse "narcótico", tudo se torna fácil. A mudança, embora seja voluntária, irresistível e venha de dentro para fora, pode ser dolorosa, trazer conflitos interiores, motivar cortes com hábitos ou companhias. 

O amor  transforma para melhor, mas não transforma ninguém noutra pessoa - e isso pode significar opções, naqueles aspectos em que "é impossível servir a dois senhores". O amor faz crescer...e crescer nunca é fácil! O que vale, custa. Por isso tantos grandes amores se perdem: o sublime sentimento está lá, mas o receptáculo ainda não se tornou digno dele, nem fez por isso.


Não resulta querer as alegrias do amor, com os desvarios da irresponsabilidade; ser amado (a), mas viver como se ninguém dependesse dos seus cuidados;  exigir a exclusividade de alguém, mas desejar total liberdade para si mesmo. As duas realidades podem tanto coexistir como um veneno e o seu antídoto.

O palavrão "compromisso", que gera tanta discussão no cenário das "relações líquidas" actuais, resume-se a uma simples ideia: abrir mão de outras possibilidades para estar com aquela pessoa (que por sua vez faz outro tanto). Este raciocínio torna-se automático, ou mais fácil, sob o efeito de um sentimento forte...mas não deixa por isso de exigir uma decisão firme, apoiada numa sólida auto disciplina e coragem viril.

Não se pode ter tudo - então, há que pesar na balança o que é mais importante. Ver onde é que o coração adere e segui-lo, sabendo que como consequência natural, ele se afastará dos objectos que são incompatíveis com esse amor, com essa opção.

Eu vivo bem sem isto, mas sem aquilo não vivo: então, o que é que eu escolho? 

Simples.

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