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Tuesday, September 8, 2015

As pessoas-traça.


Há algumas noites atrás tive um sonho mesmo estranho: uma pessoa vil e infame estava a fazer negaças a outra, que, com a melhor cara número três, lhe dava o desprezo mais nítido do mundo. Mas eis que a criatura malvada, que não sabia o que era bom para ela (coisa muito vulgar em sonhos, mas igualmente nas pessoas vis e infames) se transforma numa traça e desata a esvoaçar por ali. 

Eu avisei que o sonho era esquisito!

E que faz a outra pessoa?

 Olha para um lado e para o outro, para se certificar que ninguém via e acto contínuo, zás. Esborracha a traça, e eu aflita a assistir a tudo! Comecei a ter dilemas de consciência. "Calma, Sissi, não se cometeu nenhum crime...mesmo que alguém tivesse visto, era só uma pessoa a matar uma traça, que de resto nem sentiu o que lhe aconteceu...oficialmente não morreu ninguém"...dizia eu para mim própria, tentando convencer-me de que tinha apenas assistido a um tracicídio e não um homicídio. E continuei assim pelo que me pareceu um bom bocado, a pensar "boa, agora se não aviso a Polícia vou para o Inferno" e "vai ser bonito quando a pessoa for dada como desaparecida e desatar a ter o retrato divulgado por aí...ainda vão dizer às autoridades que fui a última testemunha do seu paradeiro...por outro lado, não tenho culpa se oficialmente a criatura desapareceu diante dos olhos...para todos os efeitos, só vi uma traça. E mesmo que eu fosse à polícia, ia acusar quem de quê? Levo o que resta do bicho num frasco para análise? Internam-me no manicómio de certeza".

Torturada com tal crise de consciência - e a possibilidade de longos anos de burocracia, entrevistas na TVI e processos em tribunal -  acordei.

O mais estranho é que felizmente, há anos que não sofro com as traças, nem vejo nenhuma. Nem pensei em tal ou vi algo sobre o assunto. Não sei onde fui buscar tal coisa; por isso, embora evite dar muito crédito a sonhos, convenci-me de que só podia ser uma metáfora lá do meu inconsciente.

E eureka, cheguei à conclusão de que as pessoas-traça me incomodam. Aliás, são um aborrecimento para a sociedade. 



Não confundir pessoas-traça com o "Homem Traça", uma criatura sinistra que alegadamente andou a assustar as almas durante a década de 1960 no Sul dos E.U.A. e que continua a fascinar os apaixonados da criptozoologia.

As pessoas-traça não são tão famosas nem fora do comum como o Homem Traça: nem assunto para os criptozoólogos; antes fossem! Antes, são vulgares como as traças, em todos os sentidos do vulgar. Não têm nada de extraordinário, e por isso mesmo ninguém dá por elas até ser tarde demais, o que facilita que se instalem como uma verdadeira praga.

 As pessoas-traça comportam-se em tudo como as traças verdadeiras: parecem insignificantes, inofensivas, mas estragam tudo; e embora sejam umas criaturas sem beleza e sem gosto, só querem alimentar-se do bom e do melhor.


 Já viram alguma traça roer, sei, lá, poliéster? Era óptimo que assim fosse, davam cabo de muita roupa feia que nos fere os olhos por aí, mas nem pó. Escolhem cuidadosamente os armários (e as bibliotecas) de gente com estilo, mas incauta e/ou que tenha encantadora mobília vintage, mas não desinfestada, e tratam de atacar tudo quanto é livros valiosos, seda, caxemira, veludos, lã, peles luxuosas, pergaminhos...como não são bonitas nem fazem coisas bonitas, tratam de as destruir. Se ninguém lhes atira naftalina nem chama o controlo de pragas, não resta um tecido sem buracos nem um documento intacto.

E vão-se fartando, enfardando, imiscuindo-se, incomodando, sem respeito por marcas, etiquetas, cerimónias, história, valor afectivo, antiguidades, custos, sacrifícios, sem contribuir para nada de útil, sem pensar "se calhar não fomos convidadas...estamos a mais...incomodamos toda a gente", tudo  para realizar a sua ambição suprema: tornarem-se mariposas.

 Pensam elas: se comermos caxemira, seremos lindas! Mas ai, quando chega o dia de ganhar asas...não as têm  gloriosas e coloridas como tanto cobiçavam. Nunca serão os seres elegantes, graciosos, de porte principesco que sonhavam, cruzando os ares, enchendo os olhos e beijando as flores. Continuam os mesmos bicharocos gorduchos, cinzentões, rapaces, de voo atabalhoado, escondidos pelos cantos escuros e húmidos.

 Não alegram a vista como as borboletas e as libelinhas, não fazem mel como as abelhas, não cantam como os grilos, nem sequer provocam medo e caçam moscas como as aranhas ...não têm dom algum a não ser encher tudo de pó, provocar repulsa e enfado.

 Pessoas traça são exactamente assim, mas sem asas. Acham que, apesar de não terem nada de especial, se se mantiverem caladinhas e se introduzirem neste ou naquele meio, se se apoderarem do brilho dos outros, se estiverem expostas à beleza, ao espírito, à abundância ou ao estatuto, perderão o ar de traças e acabarão por se transformar noutra coisa - o que nunca acontece pois para começar, têm o espírito parasita e usam métodos parasitas...

Acudam!!!

 E a não ser que lhes cortem as bases com uma boa naftalina psicológica , esburacam tudo o que tocam. A melhor pessoa, exposta a elas, torna-se como seda roída. O seu espírito fica tão danificado como um livro mordiscado de alto a baixo pela bicharada. Uma casa, família ou grupo atacado por elas nunca mais fica num estado apresentável. 

 As empresas de desinfestação andam a desperdiçar um negócio da China, não tenhamos disso a mínima dúvida...





2 comments:

outofthewomb2swoon said...

Gosto muito deste blog, tornou-.se leitura obrigatória :) este artigo lembrou-me a condessa Marga D' Andurain, porque apesar das origens e da vida privilegiada que podia ter tido, acabou por arrasar a vida dos que a rodeavam... talvez não se enquadre exactamente no conceito de homem-traça, mas tal como diz o texto, acabou por consumir os seus mais próximos. bem haja Sissi :)

ass. Inês

www.outofthewomb2swoon.blogs.sapo.pt

Imperatriz Sissi said...

Muito obrigada, Inês :)

Essa personagem não sei se se enquadrará na categoria de traça como eu a vejo, a não ser talvez na ambição desmedida (tanto que o título de Condessa, pelos vistos, era falso) porque tinha bastante brilho próprio. Um brilho auto destruidor, mas que se pode dizer de uma rapariga que foi mandada exorcizar em pequena, tão impossível era?


Beijinho :)

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