“I talk of you:
Why did you wish me milder? would you have me
False to my nature? Rather say I play
The man I am.”
William Shakespeare, Coriolanus
Esta semana está disponível no canal Hollywood uma versão cinematográfica que eu desconhecia da tragédia Coriolano.
É preciso andar distraída de todo para deixar escapar durante quatro anos um filme que combina Ralph Fiennes, Shakespeare e romanos, além de Vanessa Redgrave no papel da nobre matrona Volumnia (historicamente, Veturia) Gerald Butler e Jessica Chastain. Mas mais vale tarde que nunca e a quem não viu, recomendo uma olhadela a esta produção que deixa imaginar como um drama político na aurora da República de Roma se desenrolaria hoje, com os média e as redes sociais a inflamar o povo em crise. Pessoalmente prefiro versões com cenários e figurinos historicamente correctos - a moda dos anacronismos não me seduz muito, confesso - mas vale a pena assim mesmo.
Shakespeare deu ao lendário general romano uma luz mais simpática do que as narrativas sobre a sua vida fazem crer (foi acusado de corrupção, de defender ideias autoritárias e por fim, de traição). Na peça - embora o papel viesse a ser interpretado séculos fora com um certo toque totalitário - Caius Marcius Coriolanus é essencialmente um homem de armas, um nobre guerreiro que toda a vida só soube ser soldado, e que se vê dividido entre o poder (consequência natural para um general que alcançasse grande glória) e a sua total ausência de jeito para a política. Ou para a politiquice.
Já tem o apoio dos patrícios, mas precisa do aval do povo para se tornar Cônsul; e o problema é que tem zero vontade de falar ao povo. Acha que as suas feridas de guerra ao serviço de Roma deviam falar por si e detesta lérias e retóricas, que o fazem sentir-se uma espécie de mendigo a pedinchar votos.
A plebe não gosta disso, como é óbvio; perante a sua atitude desabrida e sobranceira, começa a achar que o general a quer privar de liberdades e não prepara nada de bom.
O Coriolano de Shakespeare não é mais snob do que outros coleguinhas seus no Senado. Mas é um homem pão, pão, queijo-queijo. Simplesmente nobre demais para se rebaixar a palavrinhas doces, contar mentiras ou criar uma persona popularucha. As suas intenções não são más, embora não morra de amores pelo populacho, que é volúvel e "não lava a cara nem as mãos". A diferença é que não o esconde nem gosta de enganar ninguém.
E é claro que os tribunos, seus opositores, aproveitam esta fraqueza sua para irritar o povo, de quem se fazem muito amiguinhos, contra ele, de modo a
bani-lo, o que desencadeia a tragédia (na peça; historicamente o fim do general é mais ambíguo).
Se Maquiavel tem razão e para manter o poder é necessário ser amado ou se não amado, temido; se Mazzarin está certo e para estar no topo há que seguir a máxima de simular e dissimular, Coriolano estava condenado à partida, pois era demasiado brusco - e honesto - para se fazer amar, para dissimular ou para conquistar aliados que o fizessem ser temido.
Com eleições à porta, a história de Coriolano dá que pensar: nada mudou assim tanto. Os eleitores adoram que lhes digam o que querem ouvir. E se em democracia não convém ser temido no verdadeiro sentido do termo, uma aura de respeito e voz de comando - no caso, alguém capaz de se fazer ouvir em Bruxelas e elevar a moral das tropas - é sempre útil.
E com alguma pena minha, a ideia de se fazer amar pelo povo sem demagogia, ou de o inspirar com verdadeiro respeito, passou um pouco de moda...


