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Monday, September 28, 2015

Do autodomínio: o amor é como a gripe?





Num curioso livro de 1964,  encontrei a seguinte frase: "sabendo que o amor se apanha como a gripe, sabendo que está exposta às fortes emoções que fazem perder o autodomínio, [uma mulher] deve agir com sensatez para evitar as consequências graves de um amor que acaba mal..."

E outro, do ano anterior (Roberto Claude, S.J.) dirigia aos homens um conselho semelhante: "Domínio de si: não o silêncio do escravo que tem medo, mas de homem totalmente senhor de si, que domina até as menores reacções da natureza - a virtude que diferencia o homem da criança".

Embora o amor - se for daqueles que valem a pena - possa de facto parecer-se, em termos de sintomas, com uma gripe, seria mais correcto dizer que é a paixão (ou a paixoneta) que se apanha com tal leviandade. Amor leva tempo. E trabalho árduo. Exige mais do que a atracção mútua e instantânea entre duas caras bonitas que se cruzam como que por obra do destino. Por muito romanesco e até válido que isso seja, é só o primeiro passo.

 Quanto ao poder sobre as próprias emoções (uma qualidade que anda pelas ruas da amargura na época do "só se vive uma vez") é de facto o melhor antídoto contra os arrependimentos. 



Faltando um certo domínio dos sentimentos, é difícil distinguir amor de um capricho passageiro baseado numa atracção superficial, conhecer a alma a fundo antes de os sentidos toldarem a razão e - num relacionamento já estabelecido - fazer o amor durar. 

Sem autodomínio não há mistério nem reserva, ambos importantes condimentos do amor (principalmente no lado feminino!); sem autodomínio não há serenidade face a uma crise ou a uma desconfiança que pode ser infundada, nem a capacidade de evitar palavras ou actos irreversíveis, capazes de destruir o amor mais sólido.

A falta de autodomínio conduz às precipitações, às desfeitas que se fazem ao outro "por impulso", às injustiças, às deslealdades cometidas "sem intenção", à sem cerimónia excessiva que instala o desleixo, conduzindo a que se tome a cara metade por garantida... e a outros tantos males.

Atenção, no entanto, ao excesso de autodomínio motivado pelo receio, o orgulho desmedido ou ressentimento. O amor exige risco, pede o famoso "salto de fé", o estado de espírito corajoso "quem se aventura a amar, aventura-se a sofrer". Não é possível gostar de alguém pela metade, querer só a parte agradável e segura e chamar a isso amor verdadeiro.

Quando se trata de ter o coração nas mãos, de entregar a vida e o destino a outrem, aplica-se outra ideia defendida por Roberto Claude: "não se dá nada enquanto não se dá tudo".

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