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Sunday, September 13, 2015

E crescer, não? (4 tipologias do complexo Peter Pan)


Já comentei convosco que o complexo Peter Pan é daquelas coisas que me tira um bocadinho do sério, mesmo quando só assisto a ele de longe e não me atinge directamente. Nada contra o Peter Pan: quando era pequena gostava bastante da história porque também eu tinha a mania de inventar mundos imaginários estilo Nárnia (mas mais giros) Eternia ou Terra do Nunca, com fadas, sereias, elfos, tesouros, castelos encantados, génios e grandes aventuras, para onde me retirava quando me custava a adormecer. Era divertidíssimo e um santo remédio contra a insónia. Mas isso de nunca crescer não me seduzia, antes pelo contrário. Sempre me pareceu que a aventura seria maior ainda quando chegasse a adulta (e de facto é). 

Depois, a verdade é que por muita imaginação que se tenha, muito bom ar que se mantenha, muito bons genes ao estilo Dorian Gray e muito espírito jovem que se conserve, aqui não é a Terra do Nunca. Achar o contrário é - além de irresponsável e de prejudicar os outros - uma receita para figuras patéticas. Vejamos então as 4 tipologias mais facilmente detectáveis, ou comuns,  do complexo Peter Pan.

1- O Peter Pan em pânico



Este é um clássico: vai do herdeiro que em vez de assumir as empresas do pai prefere gastar o tempo em farras e más companhias, ao bom rapaz que até tinha planos muito sérios, mas quando chega a uma certa idade e essas ideias ameaçam tomar forma, vê (estou farta de pensar mas não encontro outra metáfora) as calças perto do corpo... e isso provoca-lhe verdadeiros fanicos.

Em vez de se orgulhar por ser finalmente um homem que comanda o seu destino, dá-lhe assim uma fobia da responsabilidade.

 Embora as estratégias sensatas (tornar-se independente, gerir algum legado, assentar, etc) até partissem dele, de repente age como se alguém o estivesse a obrigar. Com uma arma apontada. Então volta atrás, em vez de evoluir: adia o mais que pode todos os bons projectos que tinha feito, berra para quem o quer ouvir "ainda sou muito novo, ainda tenho muito tempo, não quero pensar nisso para jáagarra-se furiosamente aos vintes, mesmo que já não os tenha, como se pudesse parar a marcha do tempo e desata a agir com toda a imaturidade que consegue chamar a si. Como os amigos de sempre estão a tomar juízo (e as rédeas do seu futuro) e isso lhe causa náuseas (e em boa verdade, as pessoas sensatas na sua vida não estão para aturar figuras de urso) começa a andar para cima e para baixo com miudagem (com quem, claro está, não aprende grande coisa) e a retomar hábitos, conversas e passatempos que parecem perfeitamente ridículos num homem feito. Vê-se ao espelho e acha-se bué da fixe e bué da jovem...só que não. 


2- A eterna Wendy



dois tipos de Eterna Wendy: a crónica e a aguda, que se manifesta de surpresa. A Wendy crónica é a criatura desmiolada que já passou a idade de sair constantemente, de publicar selfies com as amigas na casinha da discoteca (com vista para as retretes e os azulejos) e de postar nas redes sociais coisas cómicas e lamentáveis sobre invejas, namoricos e intrigas. Devia ter-se fartado disso entre os 16 e os 25 anos, ter queimado todos esses cartuchos, aprender com os erros e divertir-se agora com outras coisas, mas não. Algumas Wendies até tiveram um filho pelo caminho com um dos seus companheiros de farra (com quem entretanto se zangaram porque ele as trocou por outra Wendy) mas nem isso as faz abrandar: afinal, as avós inventaram-se para despachar as crianças enquando se aproveita a night ao máximo. O tempo passa, algumas até já não têm um ar muito fresco, mas têm a mania que são fadas Sininhos e tratam de vestir como a Sininho, em versão mais provocante e mais barata. 

 Depois há as Wendy agudas: mulheres perfeitamente normais que casaram cedo, criaram filhos, eram do mais sossegado e aburguesado que podia haver, mas face a um divórcio são atingidas por uma dose perigosa de pó de fada e zás: entendem que para se vingar do ex têm de parecer super teenagers e "resolvidas". Ou que assentaram cedo demais, não aproveitaram a vida e agora têm de compensar desesperadamente o tempo perdido, e vai de ser Wendy! Começam então a sair em grupinhos para lugares -às vezes duvidosos- em busca de namoro, vestem a roupa das filhas, quanto mais curta e revelora melhor (mesmo que já não vão realmente para novas e/ou não estejam em grande forma) vão ao salão fazer madeixas coloridas e tatuagens a dizer carpe diem (disse salão de propósito, hein?) a ter affairs em série, a fazer de cougars em série, a chorar por causa disso como miúdas do liceu e a envergonhar os filhos adolescentes, que entram em modo "ó mãe, eu não a conheço".

3- O Capitão Gancho casmurro



Digo Capitão Gancho, mas há versões femininas. São aquelas pessoas que, não importa quantas bofetadas de realidade a vida lhes dê, continuam a acreditar que todos os sonhos se realizam, por mais disparatados que sejam. Apesar de ser um dos poucos aparentemente adultos na Terra do Nunca, o Capitão Gancho vivia preso ao seu trauma do crocodilo e ao seu desejo de vingança contra o Peter Pan. 

Qualquer pessoa crescida com dois dedos de testa pensaria "eu pus-me a jeito e o crocodilo fez o que os crocodilos fazem, deixa lá isso que o gancho até me dá um certo panache". Punha-se superior a essas coisas e não se rebaixaria para dar o troco a um rapazola infantil que não sabe o que é bom para ele (e que ainda por cima voa, o que torna uma perda de tempo tentar apanhá-lo). Como bom pirata, gastaria a sua energia noutras coisas mais produtivas, como acumular tesouros e abordar galeões. 

Qual quê: os ares da Terra do Nunca também o afectam e o Capitão acaba por ser tão pueril como o resto da pandilha.

 Na vida real, os Capitães Gancho vivem presos aos sonhos de juventude e não entendem que, por muito mérito que haja na persistência, há uma linha que separa determinação de estupidez. Um bom exemplo são as pessoas que insistem que querem ser artistas e nada mais que artistas, ainda que lhes falte o talento, a formação, uma estratégia razoável para lá chegar ou os meios, e que se recusam a arranjar outra ocupação onde aplicar os seus dotes, que lhes dê dignidade e independência. Os anos passam, os maus investimentos somam, mas continuam a exactamente na mesma, ainda que isso os prejudique a eles e à família. Eu também queria ser Super Guerreira do Poder como a She-ra, hoje acho que não era vida que me assentasse. Os sonhos evoluem!


4 -Os Meninos Perdidos



Os Meninos Perdidos são semelhantes ao Peter Pan em Pânico, mas ao contrário deste, nunca ninguém esperou deles grandes feitos nem responsabilidades, ou eles próprios nunca tiveram intenções de vir a crescer. 

Enquanto o Peter Pan em Pânico ao menos planeava isso, por o saber inevitável, os Meninos Perdidos sempre foram uns rebeldes, uns malucos, cujo único objectivo de vida é estar com os amigalhaços, andar em grandes velocidades, beber copos e conquistar raparigas de pouco juízo.
 Vestem como adolescentes (em certos círculos, fazem o tipo que usa cabelo espetado e correntes ao pescoço até aos 40 e tal anos e mais além) mesmo que os efeitos da cerveja se notem na sua barriga, contam piadas parvas, têm o intelecto de um bêbedo (talvez porque andem assim boa parte do tempo) não estabilizam profissionalmente nem querem, saem tardíssimo de casa dos pais e são péssimas influências - principalmente se se cruzarem com um Peter Pan em Pânico pestes a ter uma crise das suas.

Alguém tire o pó de fada a esta gente, porque o mal é contagioso.

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