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Monday, September 28, 2015

Eça de Queiroz dixit #6: "a toilette, como a nobreza - obriga"


Num dos meus textos preferidos, que continua surpreendentemente actual em alguns aspectos (e a que voltaremos em breve a propósito de outro assunto) Eça de Queiroz dizia uma frase muito sábia. "Ora a toilette, como a nobreza - obriga". 

Uma coisa que sempre me cativou em Eça era a forma como relacionava certos detalhes do físico e da apresentação com as disposições interiores ou os traços de carácter. É algo que as pessoas observadoras fazem, uma táctica que acompanhada de um instinto apurado raramente engana, como já discutimos....

Voltemos então à ideia de a toilette "obrigar". Nestes tempos tão informais, tão à vontade, em que até os mais restritos dress codes são atropelados sem tir-te 
nem guar-te (o que tem a consequência de ninguém saber ao certo como agir), em que tanta gente  faz questão de dizer "eu uso o que me apetece" por muito desrespeitoso, inestético, imoral ou inimigo da auto confiança que isso seja, talvez essa noção passe mais despercebida. Mas é verdade: a toilette obriga de facto! Para o bem e para o mal...

 Muitos actores, quando interpretam personagens de época, dizem que o figurino é meio caminho andado para entrar na personagem. Uma actriz que tenha de usar espartilhos,  anquinhas e roupas pesadas é forçada a mover-se de outro modo. A postura do corpo altera-se inconscientemente. 


Rodagem das cenas do barbecue em "Gone wind the wind"

Recordo-me de ver um documentário sobre a produção de E tudo o vento levou que contava como uma das actrizes ficou chocada ao notar que os vestidos de crinolina de toda a gente (até das figurantes, que só apareciam ao longe) tinham saiotes com metros e metros de renda verdadeira. Ela tinha participado em vários filmes do género e sabia como esses pormenores - invisíveis para o espectador - ficavam caríssimos. Espantada com tanta extravagância, foi perguntar ao realizador o motivo daquilo. E ele respondeu-lhe "descansa, eu sei o que faço. Fica caro, é certo; não se vê, é verdade; mas tu sabes que a renda lá está, e é isso que importa".

 Igual rigor teve Peter Jackson na produção de O Senhor dos Anéis, ao exigir detalhes como cotas de malha tecidas à mão e os capacetes de alguns dos Orcs que obrigavam os actores a olhar para baixo, dando-lhes um aspecto atarracado e assustador sem que precisassem de fazer por isso.



 Mas como todos encarnam de certa forma personagens (o advogado, a professora, a chefe de departamento, o marido, etc) e têm uma imagem a gerir na vida quotidiana, este conceito não deixa de se aplicar. O que se veste condiciona a postura, os gestos, a expressão, o porte.

Em todos os contextos das nossas idas e vindas diárias - formais, casuais, de lazer, profissionais - a toilette obriga. Gostemos ou não. Resta saber se é adequada, se está programada para obrigar na direcção certa. 

 Roupas de qualidade, bem cortadas, de materiais fiáveis, confortáveis mas não relaxadas em demasia, que caiam como uma luva, não só dão confiança a quem as usa e agradam a quem vê como condicionam a forma de estar, de se mover, de interagir. Todos já reparámos em certas mulheres que andam na rua com sapatos que claramente magoam. Podem estar muito bem vestidas e até ser bonitas, mas parecem hesitantes, em sofrimento.



E que dizer de quando se usa uma peça luxuosa, bem acabada? As etiquetas só nós sabemos que estão lá (ou convém que sim!) mas o toque da caxemira, da seda ou pele modelada por mãos hábeis, é insuperável. Confere mesmo uma sensação de certo poder e convida aos movimentos graciosos, à confiança inabalável, ao à vontade que não é excessivo.

 Um homem que invariavelmente opte por roupa muito descontraída, mesmo quando a ocasião pede outra coisa, não só pode pecar por inadequação em público, como começa a ganhar vícios: com o hábito dos ténis, inclina o corpo para a frente em vez de endireitar as costas; desabituado de apertar botões, de se mover a contar com eles, mexe-se como se andasse sempre de pijama. O mesmo vale para uma mulher que opte todos os dias por roupas muito "moles", como calças largas, túnicas e sabrinas. Como sabe que pode
 sentar-se, erguer-se, amarrotar-se sem cuidado e que a roupa até nem precisa de ser passada a ferro, desleixa-se como uma criancinha. Ganha um ar "enfarruscado" e quando precisa de usar um vestido, uns stilettos, caminha como se usasse ténis, senta-se como se estivesse de calças (o que não devia acontecer mesmo quando se usa calças, mas sabem como é...). 



 Façamos uma ressalva: toda a roupa deve ser confortável, mesmo a mais formal. É impossível estar bem com uma toilette que pique, magoe, aperte. Mas não demasiado confortável. Se é tão agradável e relaxada como um pijama, vai transmitir uma sensação de preguiça (e relaxaria) a quem a usa.

 E no outro extremo, há quem faça por estar sempre exageradamente composto (a), o que além de arriscar cair no poseur, no overdressed e no ridículo, também obriga a certos gestos.

 Um homem sempre espartilhado em gravatas, mesmo quando isso seja dispensável, pode dar a ideia de que engoliu um cabo de vassoura; e uma senhora penteada como para um evento formal todos os dias que Deus deita ao mundo, inevitavelmente empoleirada nuns saltos altíssimos e vestindo roupas que não convém amarrotar de maneira alguma, ganha ares de catatua, de quem nunca está à vontade.



 Depois, não esqueçamos as toilettes que além de vulgares, convidam à vulgaridade nos movimentos: os malfadados vestidinhos de lycra, os grandes sapatões de stripper, os decotes monumentais que não seguram nada, as leggings que revelam o que não devem mas se vestem de olhos fechados...decerto não lembram uma mulher de manter uma postura de bailarina ou de senhora de boa sociedade.

 Há que pensar nisto, para escolher trajes que condicionem o porte na direcção que se pretende. A roupa deve adaptar-se ao corpo e não o contrário, é certo - mas também não convém que leve o corpo, e quem o veste, por maus caminhos.






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