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Wednesday, September 2, 2015

O amor não é ligeiro.



Já se sabe que vivemos tempos em que há quem traga o "amo-te" na boca como certos hipócritas trazem o "Credo". Muita gente se queixa disso. Da mesma forma, mesmo entre quem se queixa, não falta quem confunda a paixão, que é, e convém que assim seja, um instrumento, faceta ou consequência do amor, com o amor em si.

Não nos enganemos, o amor tem as suas futilidades, os seus requintes. Até no sentimento mais elevado a paixão, que num casal unido por laços indissolúveis (sejam sentimentais, legais, espirituais  ou tudo isso junto) tem uma função unitiva, e outras, não deixa por isso de ser o luxo do amor- mesmo antes de consumada. A mulher que ama ficará fraca só de ouvir a voz do amado; num homem apaixonado, a mais leve aproximação pode transtornar-lhe os nervos. Em tempos idos, um olhar por trás do leque, o segurar de leve na mão à saída do teatro às escondidas da parentela, eram assunto para muitas noites sem dormir, muitas lágrimas de emoção, páginas e páginas de cartas, tragédias às vezes.

 Depois há outro tipo de futilidade no amor - como dizia o Afonso da Maia, "o amor é um luxo caro". Todos os apaixonados, dentro das suas posses, gostam de ser agradáveis ao objecto da sua devoção: vêm então as flores, os presentes, os passeios românticos, tudo bugigangas, algumas materialmente valiosas, mas bugigangas, e outras que têm valor sentimental (o tempo gasto com o outro porque sim, horas de conversa que para quem está de fora parecem um verdadeiro desperdício pois lá diziam os avoengos, "a conversa dos namorados é de elástico", um bilhete, uma flor seca...antigamente uma madeixa de cabelo estava muito na moda...) que são pequenos símbolos, algo que se guarda do outro.  Para quem ama, qualquer disparate é uma relíquia. Tudo "pieguices" que adornam, mas não são essenciais; luxos dentro desse luxo que é estar apaixonado.

 Chamemos-lhe luxo por ser algo sem o qual se vive - ou sobrevive. 



Porém, voltemos a dizer, o amor não é isto. Daí que tanta se gente se confunda,  que fique muito surpreendida quando estas avassaladoras manifestações acalmam pela ordem natural das coisas, dizendo que afinal já não ama, que "deixou de amar" (o que soa mais ridículo e lamechas do que as mais lamechas frases de namorados). 

 O amor, da espécie verdadeira, tem mais a ver com sacrifício do que com alegrias. As alegrias são um sintoma, por vezes em modo "quem corre por gosto não cansa". Logicamente ninguém se aventura a doar-se a outrem no firme propósito de sofrer, mas quem se une a outro com o único objectivo de que o façam feliz só pode esperar, como vi há dias num filme, sair pela porta fora no momento em que, ainda que temporariamente, deixe de o ser. Salvo em casos realmente graves (em que a cara metade se dedica a fazer sofrer a outra parte de propósito, porque pode) largar barcos e redes com a desculpa "já não sou feliz" é o egoísmo da paixão que se extingue. Ou a percepção de que nunca se amou, ainda que as pessoas não o admitam nem para si próprias.

 Se é amor, não depende do êxito, por vezes nem da presença física ou da segurança, e não pode ser substituído, não sem grandes penas pessoais. Não assenta na futilidade nem na "felicidade" transitória, por isso não é curável com remédios mundanos. Pode ocupar a alma durante anos, mesmo sem estímulo; com estímulo, facilmente é eterno. Qualquer um, principalmente se está ferido no seu orgulho, pode cair no erro (compreensível) de se relacionar com outras companhias, mudar de ares, achar conveniente "distrair-se", aturdir-se com festas, passeatas, obrigações, ou no limite, "seguir com a sua vida". Mas por piroso que possa soar, isso é ser um corpo sem alma, ou ter a alma a viver noutro corpo, o coração a bater noutro peito. Os amantes de lenda ou, de forma mais concreta, muita gente da geração dos nossos avós sabiam a diferença. Hoje é mais raro encontrar quem saiba...pois a maioria, entretida com paixonetas que fingem de amor, nunca a sentiu. Sinais dos tempos.





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