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Friday, September 11, 2015

O complexo dos homens "Athos" e dos homens "D´Artagnan"


A personagem Milady, de Os Três Mosqueteiros, sempre me fascinou. Era bela, misteriosa, cosmopolita e uma espia com um estilo impecável. Aprendia directamente com o Cardeal Richelieu, um mestre nas artes do possível. Fazia a cabeça em água aos Mosqueteiros e tinha uma relação de amor-ódio com dois deles. Na versão anime, usava uma máscara preta quando era preciso e tinha um macaquinho, o Pepe. 


Como sempre gostei de personagens ambíguas - e de saias com anquinhas - na primária não descansei até me mascarar de Milady. As anquinhas 
espatifaram-se logo porque tive a pouca sorte de levar o vestido a uma festa de angariação de fundos e ser empurrada por uma multidão que queria ver de perto um actor qualquer. Era cor de rosa (já que era para a desgraça, era para a desgraça) e bastante fechado no decote, ao contrário dos da Milady porque enfim, havia a noção do apropriado e em Fevereiro faz frio, mas fez as minhas alegrias e as primas ainda o usaram também, literalmente noutros carnavais.

Um dia hei-de repetir a façanha mais a rigor. Mas voltemos a Milady e ao tema do texto: ela não é um anjo. Mas tem uma péssima pontaria para os homens da sua vida.

                        

A perturbante anti-heroína começa por ser uma freirinha que foge de um convento. Como castigo, é marcada a ferros. Então encontra Athos, que é um grande senhor, mas cheio de ideias românticas: sem a conhecer bem nem nada, fascinado pela sua beleza, decide que quer casar com ela e casa mesmo. Igualmente encantada pelo porte dele e acreditando que apesar das suas desventuras, vai finalmente ser feliz, a jovem Anne - nome que usava então - aceita. Tudo corre às mil maravilhas e a noiva revela-se - palavras dele - "uma esposa perfeita". 

 Mas, azar dos Távoras, numa caçada cai do cavalo abaixo, desmaia e o marido, para lhe acudir, rasga-lhe o vestido e vê a infamante marca no ombro da mais -que-tudo (o que nos leva a pensar que além de a idealizar demasiado, andava a relacionar-se com ela às escuras, no mínimo).

E assim como não se deu ao trabalho de lhe perguntar nada antes de casar, pois meteu na ideia que ela não era um ser humano mas um querubim caído do céu, também não se maça a indagar o que vem a ser aquilo, nem que contra ordenação leve ou grave é que ela cometeu. Acha-se ultrajado por ter dado o seu nome a uma suposta vigarista, parte do princípio que casou com a pior criminosa à face da terra, fica doido de fúria e como tem o direito de exercer a justiça nos seus domínios, zás: enforca-a numa árvore no melhor estilo Barba-Azul. 


Depois, julgando-a morta, vai à sua vida e embora sofra, faz por não pensar mais no caso porque se acha cheio de razão. Athos é um homem do seu tempo, que peca pelo orgulho: possui sentido de honra, mas mal guiado. Acha que ama, quando o que faz é querer por força moldar a pessoa que deseja à imagem perfeita que tem dela e se ela não corresponde, há problemas. Não se enganem, no entanto: este tipo de comportamento masculino é comum ainda hoje.

 Claro que Anne sobrevive, mas se já não era certa, nunca mais fica boa da cabeça e passa a usar a sua inteligência e encanto para as façanhas imortalizadas no romance. 

 Anos depois, quando ela já é uma agente secreta de gabarito, volta a cruzar-se com o marido (a início, sem saberem da identidade um do outro) e com D´ Artagnan, que sendo o rapaz intempestivo que é, se deixa encantar por ela. Ora, D´Artagnan tem outro problema: também é um teimoso, mas de uma classe diferente. 


Fica inflamado pelos encantos de Milady, agarra uma paixoneta por ela - sem ver que não fazem, de todo, o estilo um do outro - e em vez de tentar ir com calma, não descansa até conseguir o que quer. Chega a "seduzi-la" (tenho dúvidas em usar a palavra aqui) contra a vontade dela duas vezes, ora com recurso ao engano, encoberto pela noite (tenho para mim que a luz eléctrica veio descomplicar muitos relacionamentos) ora usando a força.

 E como ele há imensos hoje em dia - embora felizmente tais extremos sejam raros: vêem uma mulher que lhes agrada e ainda que não tenham muito a ver com ela (nem procurem adaptar-se) não esperam para a conhecer melhor, nem querem dar-lhe tempo para eventualmente os ver numa luz mais positiva e mudar de ideias. Acham-se umas dádivas do céu e que ela tem de lhes corresponder no momento em que lhes dá jeito. 

Claro que isso não é importar-se com ninguém, a não ser com eles mesmos.  Não abona nada a seu favor. Nem revela bom coração ou boas intenções. Uma coisa é ser decidido, outra é não ter noção. Uma mulher que ceda a tais avanços a ver no que dá, ou porque está frágil e ele até é bonito e simpático, ou porque, enfim, ele não lhe desagrada e ela não é muito boa a desfazer ilusões e não quer magoá-lo, sujeita-se a que ele desapareça mal consiga o seu objectivo, porque quem promete mundos e fundos sem pensar, não tenciona de todo cumprir.

 Moral do conto: cuidado com os "Mosqueteiros" da vida real - ou com os que se acham Mosqueteiros, muito perfeitos, muito impetuosos, quando na verdade são uns brutamontes e /ou imaturos. A vida é demasiado curta para passar o tempo a descortinar maneiras de lhes dar o troco, como a Milady...








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