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Thursday, September 10, 2015

Presunção e água benta...


Ontem chegou-me um texto publicado pela Cosmopolitan americana, que pelos vistos está a dar muito que falar. Comecei a ler porque enfim, é mais um artigo na onda do beauty shaming, mas daqueles "tenham pena de mim que sou tão linda, ai que a beleza só traz complicações". Quase sempre essas argumentações vêm tingidas de muita hipocrisia: embora seja verdade que a beleza nem sempre facilita, antes pelo contrário, está provado que dar nas vistas pela fealdade é mais aborrecido. Não faltam por aí mulheres que se portam pessimamente para compensar a falta de auto estima e de atenção do sexo oposto. A formosura é tida como obrigação feminina (e acho que esforçar-se para estar apresentável é mesmo um dever da mulher) e a sua completa ausência, diz um ditado cruel, é um pecado mortal. Mas depois, voltamos ao mesmo: a beleza tem muito que se lhe diga; embora possua aspectos/padrões universais e intemporais, também é relativa e depende muito dos gostos de quem olha...


De modo que abri o artigo, sem olhar bem para a autora que coitadinha, descrevia que com o seu longo cabelo claro, estilo feminino, busto volumoso q.b e silhueta tonificada não pode andar sossegada nas ruas de Nova Iorque sem ouvir piropos ou que olhem para ela como um bicho raro, e que por causa disso os seus outros dons (segundo ela, habilidades atléticas, inteligência e ambições académicas) não são tidos em conta. O rosário de queixas até dizia que a pobrezita ficava a pensar "será que a minha saia é demasiado curta?" (quando uma mulher pergunta isso a si própria, é porque se calhar é mesmo) e que, para atenuar esse efeito tão arrasador da sua ofuscante beleza, passou fases em que vestiu roupa largueirona e sem graça.



Fiquei então convencida de que quem assinou o texto devia ser uma Helena de Tróia. Ou maluquinha. Porque para dar assim nas vistas numa cidade com tanta gente como a Grande Maçã, onde todos os dias chegam beldades das mais distantes paragens em busca de uma oportunidade no mundo da moda ou do espectáculo, é preciso ter algo de muito invulgar.

 Sei lá, ser uma beldade exótica estilo Angelina Jolie, uma modelo vistosa do tipo Adriana Lima, uma bomba sexy do género Kate Upton, uma bonequinha com curvas  à la Brigitte Bardot, uma beleza dramática e romântica como Elizabeth Taylor ou uma daquelas belezas discretas, mas de traços tão correctos que é preciso olhar duas ou três vezes, como Keira Knightley.

 Depois, não há beleza que não se disfarce: as mais famosas manequins, no seu dia a dia, são raparigas bonitinhas, delgadas, mas não espampanantes como se apresentam num desfile da
Victoria´s Secret.

Marilyn Monroe tinha das caras mais lindas e das silhuetas mais impecáveis que este mundo já viu (e era bonita mesmo sem maquilhagem) mas  vestida e pintada com simplicidade, não creio que fosse incomodada na rua a não ser pela fama.


 Voltemos à menina Felicia, a autora. Vai-se a ver e bom, feia a rapariga não será, se calhar até há quem a ache muito bonita mas duvido que alguém a  considere algo tão espectacular que assombre. Tem um corpo normal, que nem sequer é particularmente esculpido, e um rosto normal.

Regra de beleza nº1: esconder as etiquetas do bikini, menina!

Claro que os olhos femininos e masculinos vêem coisas diferentes - para eles, às vezes o sex appeal, o je-ne -sais-quoi pode contar mais que a beleza plástica. Mas segundo os rapazes que conheço até costumo ser muito generosa com as outras mulheres (talvez por ossos do ofício que me fazem procurar o que há de bonito em toda a gente) e as minhas amigas sempre disseram que sou boa a levantar a auto estima alheia, por isso vou fiar-me no meu julgamento: não acho Felicia nada de outro mundo.

E se há coisa que me enerva é ver "belezas" inflaccionadas, onde às vezes elas nem sequer existem.


 Quando se louva insistentemente, exageradamente, uma beleza que obviamente não está lá, há sempre marosca: ou os media querem impingir uma celebridade, ou alguém quer irritar alguém com isso, ou a família e os amigos da pessoa querem promovê-la junto de um cavalheiro em quem ela está interessada mas que não lhe liga nenhuma, ou a rapariga é tonta e os conquistadores baratos querem insuflar-lhe a vaidade para conseguir conquista fácil. Vemos isso nas redes sociais todos os dias: a rapariga mais desengraçada muda a imagem de perfil, por vezes com um aspecto ridículo, e logo as amigas escrevem "liiinda". 

Mas que seja a própria a escrever isso, a dizer isso, já sai um pouco da norma. Não sei se isto é desespero por atenção, pescar elogios ou ambos, mas é sinal de fraca inteligência - e modéstia zero-  com certeza. Há quem sofra de anorexia invertida (fatorexia) - pessoas que se vêem magras por mais que engordem. Talvez Felicia sofra de algum distúrbio primo deste, alguma coisa confusa lá na sua cabeça. Porque só quem não está bem se sujeita a comentários "consoladores" do tipo que recebeu, vulgo "não fiques triste, não és assim tão linda" ou "é mesmo difícil ser bonita- até hoje ainda não conseguiste". Cada pessoa mais "original" que aparece...




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