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Friday, September 18, 2015

Quando um homem ama uma boneca.


É o título de um texto do Público sobre um pobre coitado que, sofrendo decerto de algumas perturbações emocionais, vive com uma boneca de borracha, daquelas muito realistas, como se humana fosse.

Fiquei sem perceber se o próprio acredita mesmo nesta fantasia de Pigmalião moderno e sinistro ou se simplesmente, como ele diz, considera esta "relação" uma terapia para os seus problemas. Voltando ao mito de Pigmalião, a própria Afrodite se comoveu ao ver o escultor a definhar de amor pela escultura maravilhosa que criara. Sempre interessada em promover todos os tipos de paixão, concedeu-lhe o impossível: Galateia, a deslumbrante mulher de mármore, ganhou vida. E criatura e criador casaram com a bênção do Olimpo.



 Ora, os milagres são cada vez mais raros e ainda que não fossem, este infeliz mortal poderia despertar a piedade divina, mas dificilmente inspiraria um nobre prodígio:  não criou a boneca que nem mármore é, é feita de silicone. Comprou-a pela internet, como tanta gente (de almas cheias de esquisitices a modistas e designers a quem dá jeito ter um manequim mais maleável com medidas personalizadas). 


Ainda por cima, veste a desgraçada da boneca com uns trapos de meter medo. "Jenny" (assim chama o dono à mulher de borracha) não poderia comparecer na presença dos deuses, se se tornasse humana. Aliás, não seria olhada com agrado em nenhum círculo de pessoas decentes. Com o seu cabelo preto-graxa esticadinho e farrapos de lycra havia de ser bem vinda numa discoteca duvidosa, e olhem lá. Depois, não me parece que os sentimentos que animam este homem sejam tão elevados como, apesar de tudo, eram os de Pigmalião. 



O escultor era um artista genial com uma noção de beleza física e espiritual tão pura que nenhuma mortal poderia preencher os seus requisitos.

Este homem é um solitário amedrontado que não conseguindo relacionar-se com uma mulher verdadeira - de carne e osso, com sentimentos humanos - escolhe ser dono de uma mulher a fingir.

 Mas em todo o caso, o complexo masculino de Pigmalião, se levado ao extremo, dá mau resultado. Mesmo que as intenções sejam as melhores  e os sentimentos, os mais elevados. George Bernard Shaw, que se inspirou no mito para criar a peça homónima (que daria origem ao musical My Fair Lady) demonstrou-o bem. 


Há muitos homens como Pigmalião e o Professor Higgins: amam a beleza, o espírito e a graça da mulher que escolheram. Ela é a sua boneca e calhar até não passam sem ela - companheira e um belo adorno para o seu orgulho. Mas não vêem mais além e querem-na nos seus termos. E ai dela, se belisca a imagem de anjo ou de ícone!

Mesmo com a mais tradicional e flexível das mulheres essa idealização excessiva, essa rigidez - e muitas vezes, a possessividade e falta de confiança que vem com isso - podem ser um desastre se estes Pigmaliões não se lembrarem que a boneca, por muito compreensiva que seja, por mais serenidade que aparente, não é de mármore. Tem coração e nervos como os deles.


 Como eles, é capaz de sentir ciúmes, insegurança ou melindre face às ofensas que sofre, sob uma aparência de tranquilidade. No limite, essa tranquilidade de pedra, esse amor escrito na pedra, pode abrir brechas. Porque ao ganhar vida, Galateia deixa de ser uma estátua, uma boneca, para se tornar real, e o que é vivo não é passível de controlo absoluto - quem ama entrega-se ao outro para estar preso por vontade, enquanto assim o desejar. Mal comparado, há quem ache os animais lindos - mas seja tão egoísta, tão irresponsável que para bem de todos, é melhor que se limite aos peluches.

 Se o amor de Pigmalião não evolui para lidar com um coração vivo e pulsante, talvez faça melhor em "amar" de facto bonecas inanimadas...



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