Há filmes que é melhor não ver à noite, e há filmes que se calhar é melhor não ver de todo. Mas fiada nos meus nervos de aço e na mania de que (fora coisas parvas tipo Saw ou Hostel ) não existe película que me incomode, em geral só evito enredos que não tenham nada a ver comigo. Para economizar tempo e paciência, apenas vejo filmes cujo tema me agrade e que tenham boa fotografia.
Apesar de o assunto não me dizer muito, a curiosidade levou-me a ver este, mas no espírito "desisto a meio de certeza; não vou ter paciência para um pobre coitado fechado duas horas numa caixa enterrada no meio o deserto sem se mexer". Não porque sofra de claustrofobia ou coisa parecida - as cãibras devem ser terríveis, porém com a urgência de arranjar modo de escapar dali talvez não houvesse ocasião para aparecerem - mas porque cinematograficamente falando, é uma seca monumental. Não há mudança de cenário, nem outras personagens, nada.
Enfim: lá pensei "o desgraçado do protagonista, com o pânico, vai começar a ver a sua vida a andar para trás e a ter flashbacks"...e cá vai disto. Só que não.
O infeliz está realmente o tempo todo deitado no caixote e os outros intervenientes apenas são conhecidos via telefone. Mas como o guião é bem escrito, o espectador acaba por se envolver mesmo. E acontece a experiência angustiante que se espera de um filme cuja premissa é "um azarado é raptado e enterrado vivo no deserto", que ainda por cima *ALERTA SPOILERS* acaba estupidamente mal.
O piorzinho do piorio é que, com um telemóvel velho como único contacto com o mundo (e meio de ser encontrado) o desinfeliz tem de depender dos outros e tentar explicar a sua situação a gente estúpida. Chamadas internacionais já são o que se sabe (um grande viva ao Skype) mas lidar com pessoinhas complicadas via telefone é obra. De burocratas que o põem em espera à família que, azar dos Távoras, naquele dia esquece o telemóvel em casa, o que me afligiu realmente foi isso.
Sabem quando temos urgência em qualquer coisa e o mundo decide não atender, estar para fora ou ficar pouco esperto e não perceber NADA do que queremos? Uma pessoa numa aflição desgraçada e tudo nas calmas, para no fim dizer "pensava que não era nada grave"? É de doidos, não é? Pois.
É de dar o último suspiro pensando "Meu Deus, o mundo está pejadinho de idiotas".
Moral da história, fiquei tão indisposta com o diabo do filme que não caio noutra. Se a história não me atrai, mais vale estar quieta. Acho que não precisamos de nada que nos faça descrer mais ainda da Humanidade...
