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Wednesday, September 9, 2015

Um elogio às mulheres portuguesas.



Luís Onofre


Uma portuguesa que seja bonita, bondosa e bem educada é um tesouro.

 Quem encontrou uma pode não saber disso, mas tem ali uma mulher que, como diz o povo, nunca se atrapalha. É que uma mulher capaz de caminhar de saltos na calçada portuguesa sem cair, sem se magoar, sem espatifar o calçado que tanto preza e com um mínimo de tropeços, queixas e suspiros, é capaz de resistir a tudo. Eis uma manifestação superficial -  mas nem por isso de desprezar - das melhores qualidades femininas: discrição face ao sofrimento, equilíbrio, coragem, elegância,  capacidade de sacrifício, graciosidade e flexibilidade. 

Para ter essa prática, essa destreza, é preciso ser nascida e criada cá - e descender de gerações de mulheres que descalças, de tamancas ou de sapatinhos de veludo (cada uma das quais com as suas dores!) se habituaram a driblar o terreno acidentado. É um dom. Uma arte.



Claro que isto se aplica à menina ou senhora que sabe escolher as circunstâncias: usar sapatos demasiado altos, extravagantes, vulgares ou na hora/situação errada é prova de tonteria e garridice, vontade de dar nas vistas. Não há nenhuma virtude nisso. Escolher os sapatos é tão importante como saber escolher as palavras. Poucas coisas são tão cómicas e ao mesmo tempo, tão dignas de pena, como uma tola a tentar equilibrar-se num relvado de salto agulha porque não se inteirou dos detalhes do convite ou simplesmente, quis parecer mais sexy que as raparigas prudentes que se ataviaram para passear no campo como deve ser.

Porém, uma mulher capaz de se aguentar valentemente num scarpin com um simples salto de 6 cm, caminhando como uma gazela entre os paralelos para chegar a horas a uma reunião sem esfolar os tacões nem torcer um tornozelo; uma mulher que numa recepção horrivelmente longa apresenta uma postura de rainha sobre uns Jimmy Choo de 10 cm, embora a alcatifa a sugue desgraçadamente para o solo,  é da raça da nossa Imperatriz Isabel: morrerei, mas não gritarei!




É a antítese da criaturinha cheia de chiliques, nervosinha, reivindicativa, que se acha com direito a tudo. Quem se atreve a pisar as sinuosas ruas lusitanas de saltos porque precisa de se apresentar elegante numa situação profissional, numa festa, para sair com o homem que ela ama ou simplesmente para ditar o tom junto das amigas, tem grande noção das prioridades. Como as bailarinas profissionais, sabe que não se pode ter tudo, que nada vem grátis: quem deseja algo, sacrifica-se por isso e paga o preço. Sem queixas, sem desculpas. Também tem um certo sentido de humildade e respeito pelas circunstâncias: não se acha tão maravilhosa que se dê ao luxo de simplesmente aparecer de rasos quando a ocasião pede outra coisa. Não se considera privilegiada, não toma nada por garantido.



Há por aí um ditado destes modernos da internet que diz que uma mulher forte, quando sofre, usa a sua dor como se fosse um par de stilettos: ninguém dá por nada, só vê a beleza. Há uma grande verdade aqui: uma mulher de classe, mesmo se está triste, nunca se torna ridícula. Quando muito, pode haver nela uma doce melancolia que lhe dá um certo ar de figura romântica.

 Se uma it girl é considerada um ícone de elegância mundial, ponham-na à prova. Desafiem-na a viver cá durante uns meses, a ostentar os seus bonitos sapatos nos nossos terríveis paralelos, na nossa encantadora calçadinha cujas pedras adoram soltar-se. Se ela passar esse teste, é um verdadeiro ás. Um exterminador implacável de saias. Mas duvido.



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