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Saturday, October 31, 2015

A cortesia


Em Abril de 1958, a revista "A Família" - de que arranjei alguns exemplares com artigos interessantíssimos - teve um número em que a cortesia era o tema dominante. 

Hoje seria difícil ver tal assunto na imprensa a ocupar uma edição quase inteira: com o aligeirar de costumes, a disciplina tornou-se menos rígida; instalou-se um excessivo à vontade que roça a grosseria, um exagero de familiaridade, por vezes... e à custa de atropelar costumes, tradições, etiqueta, protocolo, dress codes, por vezes ninguém sabe ao certo como proceder.

Porém, não confundamos etiqueta (uma série de regras que é útil e aconselhável não ignorar) com afabilidade, gentileza. Essa é acessível até à pessoa mais arredada dos círculos mundanos e faz bem à alma. S. Francisco de Assis chamava à cortesia "a irmã da Caridade, que apaga o ódio e acende o amor".  E é verdade -basta pensar nos milhões investidos todos os anos pelos grandes grupos empresariais em Relações Públicas.

À conta de confundir cortesia com regras de etiqueta há mesmo quem ache - erradamente - que ser cortês é algo arcaico , hipocrisia ou mesmo sinal de afectação, de "peneiras". Uma tolice - ou desculpa conveniente para a má criação - pois trata-se somente de procurar agir com delicadeza, sem servilismo nem impertinência, sem timidez nem atrevimento, de não incomodar (por palavras ou actos) os outros, de lhes facilitar a vida, de lhes tornar cada dia menos complicado e se possível, mais agradável. Digo muitas vezes que se todos fizéssemos esse esforço uns pelos outros, este planeta era bem menos espinhoso para se viver.

Voltemos à revista, que advertia, por exemplo, as jovens contra as tais "peneiras":

"Muitas reservas e ares de ofendida não ficam bem a uma rapariga de bem. Pode-se ser uma rapariga virtuosa e educada sem perder o sorriso, a cortesia, a cordialidade". Igualmente, a um moço ou cavalheiro, é desnecessário dar-se grandes ares, endireitar-se muito - ou pelo contrário, sorrir de orelha a orelha ou cumprimentar até as panelas da cozinha- para mostrar que se é um Senhor. O porte desempenado, a amabilidade, um sorriso que pode ser tímido bastam para pôr os outros à vontade, sem fazer "figuras".

 Depois a publicação continuava, mencionando como o Portugal de então levava o "Oscar" de nação mais cortês da Europa (bons tempos!). Um jornalista italiano, Giancarlo Bertieri Bonfanti, dissera então do nosso país:

"A cortesia, qualidade que infelizmente escasseia em toda a Europa, é uma segunda natureza dos portugueses...; não a cortesia servil de alguns portos do Mediterrâneo. O português  é cortês mas não conhece o servilismo; embora sem sombra de arrogância, há nele uma dignidade naturalíssima, à qual nada concede além da gentileza".


Uma característica de elegância que tristemente se vai desvanecendo. Resta dizer do nosso povo o que André de Fouquières, escritor francês, disse do seu ao notar a decadência de costumes: "nós fomos o povo mais cortês da Terra. 
Praza a Deus que tornemos a sê-lo".




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