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| Retrato de uma dama da Rainha, apontado como sendo de Madame d´Ossun |
A infeliz Rainha Maria Antonieta contou com boas e más amigas em Versailles - algumas leais até à morte.
Estas companhias tiveram forte influência no seu comportamento - e por conseguinte, no triste destino que levou - e podemos imaginar que se se tivesse rodeado apenas de almas boas, como a doce Princesa de Lamballe, talvez o rumo dos acontecimentos tivesse sido outro e Madame Deficit não sofresse tão triste alcunha nem expiação tão injusta.
A sua coragem face à hora derradeira, a sua dedicação aos filhos e o arrependimento que mostrou quando percebeu - tarde demais - como fora distraída com o povo, que passara a odiá-la, deixam adivinhar que ignorou os sensatos conselhos da sua mãe (a Imperatriz Maria Teresa de Áustria, que mesmo à distância a admoestava constantemente para que abandonasse a frivolidade e se responsabilizasse pelos seus deveres) por leviandade e ingenuidade e não por ser uma mulher insensível.
Porém, se a Duquesa de Polignac, apontada muitas vezes como a "maçã podre" que estimulava os desvarios da jovem Rainha, era leal e sincera apesar das suas estroinices (e dos largos favores que recebia) a verdadeira má influência era a sua modista, Mlle Bertin.
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| Rose Bertin, modista da Rainha |
Depressa Maria Antonieta, de feitio afectuoso e crédulo, esquecendo-se de quem era e das precedências da rígida etiqueta do palácio - que determinava uma certa distância entre os comerciantes e a Rainha - se afeiçoou à modista, a quem concedeu a maior intimidade, lesando mesmo as damas encarregadas do serviço real - as quais, aliás, a costureira desafiava com o maior descaramento. A modista era - descreveu a baronesa de Oberkirch - "muito divertida, um misto de altivez e de baixeza roçando pela impertinência e quando não a punham no seu lugar, chegava a ser insolente".
E "pôr-se no seu lugar" era coisa que não agradava a Rose Bertin, convencida de que se tinha tornado "o ministro da moda". Burguesa de modos e espírito vulgares, a Bertin não sabia contentar-se com a fama e prestígio que ser la modiste de la Reine lhe trazia - tão pouco com as avultadas somas que, sem discriminar facturas, cobrava à Casa da Rainha. Os róis iam aumentando e dizia-se, com escândalo, que nenhum joalheiro ousaria proceder assim, exigindo 6000 francos sem mais pormenores, se apresentasse um colar de valor igual ao de um dos vestidos de Bertin.
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| Relatório de despesas do guarda roupa de 1784: os enfeites dos vestidos, não tecidos ou salários de pessoal, constituíam a maior fatia dos custos |
Acusava-se a Rainha de arruinar com os seus arrebiques e constantes novidades não só o erário público, mas também as damas da corte - que imitavam imediatamente todas as suas extravagâncias - e as mulheres de França pela escala social abaixo. Eram estouvadas a endividar-se, casais desavindos por causa disso, mães a arrepelar-se com os gastos das filhas... enfim, um péssimo exemplo. O Padre Véri, um bom observador do tempo, contava em 1783, dez anos antes da morte da Rainha:
"O povo de Paris só gosta do Rei e lança sobre a Rainha as censuras que cabem a Luiz XVI. O pequeno burguês declara-se arruinado pelas fantasias da mulher e das filhas que querem imitar os gostos da soberana. O negociante e o fabricante já não dispõem de elementos seguros para saber o que terá venda fácil...". Mas a Bertin insistia que a Rainha devia incentivar o comércio francês e a real trend setter seguia o que era bom de ouvir!
Chegou a fazer-se uma auditoria independente ao guarda roupa real e a necessidade era clara: Maria Antonieta tinha de refrear os seus gostos ostensivos e espalhafatosos!

Para moderar este comportamento, foi chamada para o lugar de açafata em 1781 a Senhora Condessa d´Ossun, irmã do Duque de Guiche.
Genoveva, assim se chamava, tinha 30 anos e a seriedade do seu carácter tornava-a perfeita para tão delicada função - que incluía gerir o vastíssimo acervo do enxoval real e as diversas damas e criados que se encarregavam dele. Maria Antonieta, que entretanto se cansara da ganância dos que a acercavam e da companhia demasiado estimulante de Mme. de Polignac, não tardou a apegar-se muito a ela.
A Condessa d´Ossun (que a partir de agora teria o terceiro cargo mais importante junto da Rainha, sendo precedida apenas pela superintendente, a Princesa de Lamballe, e pela dama de honor, a Princesa de Chimay) era pouco dada a exteriorizações, serena e muito honesta. Não sendo rica, aceitou um valor modesto pelos seus serviços para as despesas de representação e nada mais pediu para si ou para qualquer outra pessoa. Se mais tarde lhe foi dada uma pensão pelo Rei, foi apenas porque a Rainha exigiu que a aceitasse. Nobre e elegante dos pés à cabeça, amiga sincera, tudo fez para moderar os exageros e controlar as doidices da Bertin.
Não teve muito sucesso, porém: quando muito, conseguiu evitar que os gastos crescessem mais ainda. Influenciada por três fidalgas de bom senso, a soberana foi pouco a pouco vendo a leviandade dos seus erros e adoptou um estilo mais modesto, à base de tecidos claros e leves...mas que feitos pela mão da gananciosa modista, pouco mais baratos ficavam.
Pobre Condessa d´Ossun! Mal comparado, seria o equivalente a uma personal stylist dos nossos dias que, tentando limpar o armário e simplificar o estilo espaventoso de uma cliente riquíssima, fosse contra os constantes cartões VIP e solicitações dos responsáveis das lojas mais luxuosas, cujas roupas lhe assentassem pior...é sempre complicado ser aquela que diz o que os outros não querem ouvir, tendo atrás um exército de aduladores que berram o contrário!
Em suma, para desespero dos tesoureiros de Versailles, não houve grande coisa que a Condessa pudesse fazer contra as roubalheiras e abusos da modista.
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| A Princesa de Chimay, dama de honor e superiora da Princesa de Lamballe e da Condessa d´Ossun nos aposentos de Maria Antonieta. |
Por fim veio a Revolução que se adivinhava e a bondosa Condessa, tal como a Princesa de Lamballe, acabou morta às mãos do populacho pela sua associação à Rainha. Desempenhou aliás os seus deveres junto dela nas Tulherias, partilhando a desgraça e a apreensão que podemos imaginar. Sempre solícita, esteve a seu lado até à morte, seguindo a soberana no cadafalso um ano depois.
A 26 de Julho de 1794 era "acusada de complots infames urdidos na corte". Encarou a guilhotina corajosamente, como competia a uma mulher do seu berço. Já a modista Bertin escapou à fúria dos revolucionários, emigrando. Continuou a louvar a sua augusta freguesa até ao último dia da sua vida, mas que lealdade há nisso? Maria Antonieta era uma dessas clientes que só uma vez se encontram...






