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Saturday, October 10, 2015

A infeliz "personal stylist" de Maria Antonieta

Retrato de uma dama da Rainha, apontado como sendo de Madame d´Ossun

A infeliz Rainha Maria Antonieta contou com boas e más amigas em Versailles - algumas leais até à morte. 

Estas companhias tiveram forte influência no seu comportamento - e por conseguinte, no triste destino que levou -  e podemos imaginar que se se tivesse rodeado apenas de almas boas, como a doce Princesa de Lamballe, talvez o rumo dos acontecimentos tivesse sido outro e Madame Deficit não sofresse tão triste alcunha nem expiação tão injusta.

 A sua coragem face à hora derradeira, a sua dedicação aos filhos e o arrependimento que mostrou quando percebeu - tarde demais - como fora distraída com o povo, que passara a odiá-la, deixam adivinhar que ignorou os sensatos conselhos da sua mãe (a Imperatriz Maria Teresa de Áustria, que mesmo à distância a admoestava constantemente para que abandonasse a frivolidade e se responsabilizasse pelos seus deveres) por leviandade e ingenuidade e não por ser uma mulher insensível.

Porém, se a Duquesa de Polignac, apontada muitas vezes como a "maçã podre" que estimulava os desvarios da jovem Rainha, era leal e sincera apesar das suas estroinices (e dos largos favores que recebia) a verdadeira má influência era a sua modista, Mlle Bertin

Rose Bertin, modista da Rainha

O famoso historiador Pierre de Nolhac (a cuja obra, que detalha minuciosamente os artigos e gestão do guarda roupa da Rainha, havemos de voltar com mais tempo) conta como entre os fornecedores reais, o nome de Rose Bertin aparecia invariavelmente em destaque. Mulher de inegável talento artístico, mas de espírito cúpido e interesseiro, tinha todos os defeitos que a caricatura atribui aos comerciantes: soube insinuar-se junto da Rainha, explorando o aspecto mais superficial da sua personalidade, ávido de descobrir, usar (e lançar, já lá vamos) as últimas tendências.

Depressa Maria Antonieta, de feitio afectuoso e crédulo, esquecendo-se de quem era e das precedências da rígida etiqueta do palácio - que determinava uma certa distância entre os comerciantes e a Rainha - se afeiçoou à modista, a quem concedeu a maior intimidade, lesando mesmo as damas encarregadas do serviço real - as quais, aliás, a costureira desafiava com o maior descaramento. A modista era - descreveu a baronesa de Oberkirch - "muito divertida, um misto de altivez e de baixeza roçando pela impertinência e quando não a punham no seu lugar, chegava a ser insolente".


E "pôr-se no seu lugar" era coisa que não agradava a Rose Bertin, convencida de que se tinha tornado "o ministro da moda". Burguesa de modos e espírito vulgares, a Bertin não sabia contentar-se com a fama e prestígio que ser la modiste de la Reine lhe trazia - tão pouco com as avultadas somas que, sem discriminar facturas, cobrava à Casa da Rainha. Os róis iam aumentando e dizia-se, com escândalo, que nenhum joalheiro ousaria proceder assim, exigindo 6000 francos sem mais pormenores, se apresentasse um colar de valor igual ao de um dos vestidos de Bertin. 


Relatório de despesas do guarda roupa de 1784: os enfeites dos vestidos,
não tecidos ou salários de pessoal, constituíam a maior fatia dos custos

Acusava-se a Rainha de arruinar com os seus arrebiques e constantes novidades não só o erário público, mas também as damas da corte - que imitavam imediatamente todas as suas extravagâncias - e as mulheres de França pela escala social abaixo. Eram estouvadas a endividar-se, casais desavindos por causa disso, mães a arrepelar-se com os gastos das filhas... enfim, um péssimo exemplo. O Padre Véri, um bom observador do tempo, contava em 1783, dez anos antes da morte da Rainha:

"O povo de Paris só gosta do Rei e lança sobre a Rainha as censuras que cabem a Luiz XVI. O pequeno burguês declara-se arruinado pelas fantasias da mulher e das filhas que querem imitar os gostos da soberana. O negociante e o fabricante já não dispõem de elementos seguros para saber o que terá venda fácil...". Mas a Bertin insistia que a  Rainha devia incentivar o comércio francês e a real trend setter seguia o que era bom de ouvir!
Chegou a fazer-se uma auditoria independente ao guarda roupa real e a necessidade era clara: Maria Antonieta tinha de refrear os seus gostos ostensivos e espalhafatosos!

                              

Para moderar este comportamento, foi chamada para o lugar de açafata em 1781 a Senhora Condessa d´Ossun, irmã do Duque de Guiche. 

Genoveva, assim se chamava, tinha 30 anos e a seriedade do seu carácter tornava-a perfeita para tão delicada função - que incluía gerir o vastíssimo acervo do enxoval real e as diversas damas e criados que se encarregavam dele. Maria Antonieta, que entretanto se cansara da ganância dos que a acercavam e da companhia demasiado estimulante de Mme. de Polignac, não tardou a apegar-se muito a ela. 


A Condessa d´Ossun (que a partir de agora teria o terceiro cargo mais importante junto da Rainha, sendo precedida apenas pela superintendente, a Princesa de Lamballe, e pela dama de honor, a Princesa de Chimay) era pouco dada a exteriorizações, serena e muito honesta. Não sendo rica, aceitou um valor modesto pelos seus serviços para as despesas de representação  e nada mais pediu para si ou para qualquer outra pessoa. Se mais tarde lhe foi dada uma pensão pelo Rei, foi apenas porque a Rainha exigiu que a  aceitasse. Nobre e elegante dos pés à cabeça, amiga sincera, tudo fez para moderar os exageros e controlar as doidices da Bertin.

Não teve muito sucesso, porém: quando muito, conseguiu evitar que os gastos crescessem mais ainda. Influenciada por três fidalgas de bom senso, a soberana foi pouco a pouco vendo a leviandade dos seus erros e adoptou um estilo mais modesto, à base de tecidos claros e leves...mas que feitos pela mão da gananciosa modista, pouco mais baratos ficavam. 


Pobre Condessa d´Ossun! Mal comparado, seria o equivalente a uma personal stylist dos nossos dias que, tentando limpar o armário e simplificar o estilo espaventoso de uma cliente riquíssima, fosse contra os constantes cartões VIP e solicitações dos responsáveis das lojas mais luxuosas, cujas roupas lhe assentassem pior...é sempre complicado ser aquela que diz o que os outros não querem ouvir, tendo atrás um exército de aduladores que berram o contrário!

Em suma, para desespero dos tesoureiros de Versailles, não houve grande coisa que a Condessa pudesse fazer contra as roubalheiras e abusos da modista. 

A Princesa de Chimay, dama de honor e superiora
da Princesa de Lamballe e da Condessa d´Ossun nos aposentos de Maria Antonieta.


Por fim veio a Revolução que se adivinhava e a bondosa Condessa, tal como a Princesa de Lamballe, acabou morta às mãos do populacho pela sua associação à Rainha. Desempenhou aliás os seus deveres junto dela nas Tulherias, partilhando a desgraça e a apreensão que podemos imaginar. Sempre solícita, esteve a seu lado até à morte, seguindo a soberana no cadafalso um ano depois.

A 26 de Julho de 1794 era "acusada de complots infames urdidos na corte". Encarou a guilhotina corajosamente, como competia a uma mulher do seu berço. Já a modista Bertin escapou à fúria dos revolucionários, emigrando. Continuou a louvar a sua augusta freguesa até ao último dia da sua vida, mas que lealdade há nisso? Maria Antonieta era uma dessas clientes que só uma vez se encontram...

1 comment:

Rainha do Retro said...

A Marie Antoinette é uma das figuras históricas que mais me impressiona... Toda a sua história confere-lhe um certo ar de "anti-herói" já que, por muito que se possa apontar o dedo à família real francesa pela desgraça a que levou o povo, não consigo não gostar da sua figura!
Dos dois filmes que vi sobre a sua vida (o da Sofia Coppola e o "Les Adieux à la Reine"), a mulher retratada é justa e chega mesmo a ser bondosa com todos os que a servem. É, sobretudo, mal compreendida.
Não conhecia a história desta modista, mas a verdade é que pessoas gananciosas e mal intencionadas conseguem dominar com bastante destreza corações como o da eterna Rainha...

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