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Tuesday, October 20, 2015

A "suave" violência psicológica



Num livro/filme que não aprecio por aí além - graças às liberdades criativas tomadas com factos históricos - mas que tem umas ideias e frases que dão que pensar, há uma cena que me ficou sempre. A mãe de Ana Bolena (que era filha do Duque de Norfolk, logo conhecia os caprichos da corte) avisa o marido, Tomás, de que os favores do Rei não vão durar. Que todos aqueles privilégios desaparecerão tão depressa como surgiram. "Estes aposentos pertenciam ao Duque de Buckingham, o amigo mais íntimo do Rei, que agora tem a cabeça numa estaca". O marido, que era um self made man ambicioso, logo estava deslumbrado com tudo aquilo, responde espantado: "mas ele cometeu Alta Traição". E a sensata mulher (adoro cada cena de Kristin Scott Thomas nesse filme) replica: "E o que é isso? Alta Traição é tudo o que o Rei quiser!"

E há de facto pessoas assim, como o Rei Henrique VIII, com quem nunca se sabe como proceder para não cair no seu desagrado. Tal como nos campos de concentração, não há uma maneira de saber "se fizer assim e não fizer assado, tudo correrá bem". Isto é muito comum nas relações pautadas por qualquer tipo de violência, física ou psicológica. E claro, o Rei Henrique era exactamente assim com todas as suas mulheres. Não só era o marido - era o soberano. E era temperamental. Com um poder quase absoluto.



 Isto para chegar ao que nos traz cá hoje: por vezes tenho receio de que se confundam ideias que defendo aqui - um retomar do papel tradicional e da dignidade da mulher (cujo lugar é onde ela quiser: em casa, no mundo do trabalho ou até fora do feminismo) - com uma mulher que se deixa pisar. Não nos enganemos. 

Acreditar na igualdade de direitos e deveres perante a Lei, mas crer firmemente nas diferenças biológicas e psicológicas entre os sexos, é acreditar que o homem, como mais forte, deve defender com unhas e dentes quem tem a seu lado ou ao seu cuidado. 

Uma coisa é o homem que se faz respeitar, que não é um capacho (e se vamos por aí, há mulheres a exercer violência, principalmente emocional, e não é pouca). Outra é o cobarde, que não em outro nome, que fere, por dentro ou por fora, a mulher por quem diz, ou acha, estar apaixonado. E olhem que apesar do que se possa dizer dos meios mais antiquados, mais "machistas", alguns dos piores agressores são indivíduos muito modernos, todos feministas, todos pelos direitos das mulheres...gente cruel há-a em toda a parte.

 Nestes casos, minhas queridas amigas, recordo o que disse este fim de semana: nunca se pode tolerar a crueldade, seja ela física ou psicológica, e nisto não há excepções. E invoco o exemplo da mulher do ciumento no Decameron: "Nem te aconselharia a um tal atrevimento de me pores as mãos em cima; pela cruz de Cristo, partia-te a cara" (sou contra a violência, mas auto defesa é um dever).




Que volto a dizer, uma mulher tem de ser como as cordas do piano: delicada, mas de aço.

  Hoje vive-se um pouco o pânico, a paranóia, de ver violência na menor altercação. Um murro na mesa? Violência. O homem, para ser meigo, tem de ser um efeminado. Não creio nisso, antes pelo contrário; a tudo se aplica o bom senso e o discernimento. Mas é verdade que se o exagero se instalou, é porque a agressividade e a crueldade começam de facto aos poucos. É uma má palavra aqui, um safanão ali, ditos ácidos à frente dos amigos hoje, uma cena de ciúmes amanhã, um insulto agora outro mais tarde, um abuso mais adiante, um estalo, uma ameaça acolá e às vezes, em casos mais dramáticos, dá em sovas e tareias...ou no piorio que vem nos jornais. Nasce da falta de respeito, da desconsideração pela outra parte, e vai criando raízes. E no caso das mulheres, floresce por uma mistura de tolerância que lhes é inata e síndroma de Estocolmo

O homem que maltrata psicologicamente, o homem que não mede a força, o homem que bebe, o namorado ciumento patológico, o que não se importa de fazer chorar, o que inventa jogos de poder no firme propósito de torturar a cara metade, o que não entende que "não" não é "nim"...para todos há desculpas.

Em particular, a violência psicológica é subtil e matreira- mas não menos devastadora. Uma mulher de personalidade, forte, com boa auto estima, pode dizer "quando um homem me bate, bate-me uma vez"- e cumpri-lo. A bofetada é assim uma coisa muito eloquente, muito explícita. Não há melhor sinal de alarme para sair porta fora.


 Mas embora não haja dois dramas iguais nem seja a minha especialidade, atrevo-me a dizer que  agressões verbais ou psicológicas têm mais que se lhe diga. Porque afinal, não parece tão mau, não é? Pode ter sido uma má impressão, um dia não. Foi dos ciúmes, ele adora-me e perde a cabeça, é produto do meio/cultura dele, não é defeito é feitio,  é um querido quando não está fora de si, ele é um brincalhão, expressa-se assim e às vezes não vê os limites. E quando se vai a ver, até o amor próprio mais saudável está baralhado, abalado, de pantanas. 

Desculpa-se o indesculpável para manter...já nem se sabe o quê. À espera que tudo volte ao que era no início, do próximo pedido de desculpas, da próxima reconciliação romântica, dos projectos sonhados em comum. Mas a verdade é que uma vez o comboio descarrilado, é quase impossível- ou porque as estatísticas provam que tende a piorar, ou porque, como um dos homens mais importantes da minha vida costuma dizer "um homem assim não volta a ser como no início, porque o que ele era a princípio não passava de fachada. O que ele mostra agora é o que ele realmente é". 












1 comment:

Carla Santos Alves said...

É tão verdade. Gostei da comparação entre a mulher e as cordas de um piano.
E acho importante este tipo de texto para elucidar quem tenha dúvidas.
As desculpas não se pedem, evitam—se.
Quando se entra, de mansinho, na violência psicológica e emocional está a um passo de perder o control — é exactamente neste ponto que temos que ser mais fortes do que as cordas de um piano ( para que a nossa melodia se faça ouvir.)

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