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Sunday, October 4, 2015

Delicadeza: um vírus quase erradicado, mas contagioso.



"O pudor, da mesmo modo que a consciência e o corpo, forma calos: e uma vez calejado, é menos sensível aos dardos que o ferem".


Joaquim Aspiazu, S.J. (1954)

Longe vão os tempos em que a discrição e delicadeza nas expressões eram a norma. Para o bem e para o mal, esta é uma época de à vontade, de informalidade. Já poucos homens, sentados numa mesa de café, abrandam os palavrões se vêem aproximar-se uma senhora, mesmo que idosa! Afinal, para quê? As mulheres falam tão mal ou pior; se preciso for, batem-nos aos pontos. 

E se isto é mau em jovens, que para todos os efeitos não conheceram outra realidade... nos mais velhos é de uma insolência, de uma rebeldia gratuita que se torna ridícula nessas idades. 

 Depois, é um abuso do tu cá, tu lá. Certo é que isto varia consoante o meio, a região e a profissão (entre professores, jornalistas e artistas o "tu" é naturalíssimo, por exemplo) nem sempre sendo sinal de abuso de confiança. Mas que um lojista trate uma cliente por "tu" ou que qualquer desconhecido o faça, sem pensar na sensibilidade alheia que pode ser diferente da sua, é um forçar de intimidade. Mais vale delicadeza a mais e ser convidado a aligeirar os salamaleques, do que o contrário!


E não esqueçamos que antigamente não se ia ao pormenor, ao falar da vida alheia. Peguemos numa revista antiga, nas secções do social onde invariavelmente apareciam os "casamentos elegantes". Era uma breve resenha "no dia tal, consorciaram-se a Sra. D. X (ênfase no "senhora dona", muito comum até quando se designava uma menina, até à data, solteira) e o Sr. Y, distinto não sei quê, filhos de Sra. D. e Sr. fulana e beltrano. A boda foi celebrada pelo Rev. X, seguindo-se um finíssimo lanche no Hotel X/ quinta/casa dos pais da noiva, etc". E pouco mais. Compare-se com a imprensa actual, cujos artigos do género chegam a detalhes dignos de autópsia!

 Voltemos às conversas entre amigos, a que muita gente agora entre os seus 20 e picos e os trinta e tais se acostumou - falar de intimidades que nem às paredes se confessam ou usar os termos mais brejeiros, aos altos berros se for preciso, tornou-se muito banal. Mind you, é normal que mesmo entre gente educada, as mulheres mexeriquem entre si - entre risinhos embaraçados, como sempre fizeram - e que os homens tenham lá entre eles conversas de caserna e basófias que sobem a níveis pouco abonatórios, tanto nos termos como nos conteúdos. Sempre assim foi. E em certas circunstâncias, mais vale um palavrão bem atirado do que um trocadilho ordinário. É mais honesto. 


A publicidade que se dá a esses colóquios, e o à vontade com que eles se têm esteja-se onde estiver, ouça quem ouvir - para não falar no que se escreve nas redes sociais - é que é má.

E o resultado disso é que tais conteúdos e formas de expressão acabam por ganhar espaço até a dois, o que beira, se é que não alcança, a falta de respeito. Um rapaz que convide uma jovem para sair, por estar acostumado a essas brincadeiras, a essa forma brejeira de se explicar, pode até - julgando que parece muito homem, muito prá frentex - exagerá-las junto da rapariga que quer impressionar, sem pensar na delicadeza que lhe deve.

 E a rapariga provavelmente nem dará por isso, pois de tanto ouvir já está calejada. De resto, apresenta-se em trajes que parecem vindos de um cabaret, porque a Rihanna veste, as amigas imitam e os pais não fazem reparos.

 Não se lembra já de convidar ao respeito...e no entanto, não custa nada avisar com um sorriso "Jesus, tantos palavrões! Que tolo!" - por vezes é quanto basta para criar uma mudança. Pode ser que nunca ninguém lho tenha dito antes...

O mesmo se aplica às roupas vulgares, que para muita gente não têm mal algum nem moral nem esteticamente porque "se usam"; e aos conteúdos pouco elevados nos média, que tudo aceitam, que tudo aplaudem desde que esteja na moda. Ainda há algumas almas sensatas que deitam as mãos à cabeça, vendo Kim Kardashian ser elevada aos píncaros e recebida em *quase* toda a parte: "por amor de Deus! A mulher ficou famosa por um vídeo indecente!". Mas o facto é que as línguas rosnam e a Kimizinha passa...provavelmente muito boa gente não pestanejaria de receber Kim na sua festa e apresentá-la às suas filhas que ainda andam no colégio...

Bonito exemplo para as pequenas...

Tudo se relativiza, tudo se desculpa e aligeira para agradar, por medo de parecer antiquado ou peneirento, sacrificando com isso a pureza de julgamento, a delicadeza de gostos, a graça de maneiras. A pessoas tornam-se insensíveis - já nada as choca, já nada as escandaliza. E quanto às mulheres, já não se acham dignas de que os homens baixem a voz se tratam de disparates na sua presença, de que lhes abram a porta e de outras finezas insignificantes, mas cheias de significado.

 Se é legítimo que em certas questões convém que haja naturalidade e objectividade (porque não há assuntos de outro mundo) também é possível tratar-se de todo e qualquer tema, em qualquer situação, com elegância. E  não é crime nem antipatia exigir, com subtileza (e não necessariamente de forma verbal) que se moderem certas formas de tratamento. O pudor fica calejado com facilidade, mas em compensação a dignidade é contagiosa...





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