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Monday, October 19, 2015

Dois bons rapazes: o complexo "Gannicus" e o complexo "Oenomaeus"


As características mais importantes num homem são as 3 "ades": hombridade, lealdade e responsabilidade. São realmente uma trindade que rima, pois podíamos considerá-las indissociáveis.

Nenhum homem é leal se não tiver hombridade, nem pode ser assim se não se responsabilizar pelos seus actos - ou mesmo, se não se responsabilizar pelos outros, sacrificando-se pelos que ama se for necessário. Há dias chegou-me um vídeo que, embora visto pela perspectiva de um pastor protestante, explica muito bem essa ideia: o verdadeiro homem não é o mais fanfarrão, nem o mais brutamontes, nem o mais forte fisicamente ou que tem mais "sorte" com o sexo oposto, mas o que possui a capacidade de se responsabilizar.


As mulheres são educadas, de certa forma, para se sentirem fascinadas pelos "maus rapazes" (que representam uma farsa de masculinidade) mas para ficarem com o "bom rapaz" - que é previsível e aparentemente, responsável, sendo que muitos são apenas capachos - o que também não é, de todo, ser homem.


 Mas falemos de bons rapazes, de homens honrados, bondosos, cumpridores, trabalhadores e fiéis. Uma vez que homens são seres humanos, e como tal cheios de nuances, há diversos tipos de bons rapazes: o bom rapaz que é assim porque é religioso, o rapaz que é assim porque foi educado dessa maneira, o bom rapaz que é assim porque é introvertido, o bom rapaz que é carinhoso e constante por natureza, etc, etc. É muito bom rapaz junto!


 Distingamos então dois tipos - aparentemente opostos - de homem honrado, cada um com as suas virtudes e defeitos. E perdoem-me por voltar a uma série já vista e revista, mas quando gosto de alguma coisa gosto mesmo e esta tem paradigmas para quase tudo (afinal, com tanta personagem bem escrita a morrer constantemente, tinha de haver muito por onde escolher, ou não teria durado quatro temporadas).




Para quem não viu Spartacus ou não gostava do programa, um resumo rapidinho: Gannicus e Oenomaeus eram dois escravos, gladiadores campeões e melhores amigos. Ambos tinham bom coração e um grande sentido de honra, dever e lealdade. A certa altura, porém, desentenderam-se porque, por um acidente que escapou à vontade dos envolvidos, acabaram apaixonados pela mesma mulher.

1- Oenomaeus, o bom rapaz de raiz




Oenomaeus, o doctore (treinador) representava o homem honrado por excelência: sóbrio, bem comportado, firme, digno, de poucas falas, cheio de auto domínio, um pouco austero e disciplinador até. Fiel à casa que o adoptou e que deu sentido à sua existência, tornando-o célebre e respeitado, vestia totalmente a camisola da sua equipa e levava muito a sério os homens sob o seu cuidado.

Este género encontra-se muito nos militares, nos homens de meios tradicionais ou que possuem sentimentos religiosos, entre intelectuais e assim por diante...

São pessoas de valores muito vincados, de moral bem clara. Este homem faz o tipo que se for atleta segue um regime sem prevaricar, o parceiro de absoluta confiança nos negócios, capaz de se prejudicar para não faltar ao seu dever, à palavra dada ou à sua reputação. É capaz de se deixar matar pelas pessoas de quem gosta. 

Com a mulher que escolhe - e não escolhe qualquer uma - é quase sempre o companheiro perfeito. Embora pareça frio e distante, isto deixa de acontecer quando se apaixona, mas terá sempre alguma dificuldade em exteriorizar de forma tão romântica como a cara metade gostaria. Escusado será dizer que é fiel (muito dificilmente cede ou alimenta qualquer proximidade que ponha os seus votos em causa) e que exige igual fidelidade e perfeição da pessoa ao seu lado. 


Com toda a sua nobreza de carácter, um "Oenomaeus", no entanto, pode pecar por outros lados: primeiro, pela ingenuidade. Quem não faz o mal, não vê o mal, logo este rapaz facilmente é enganado por rumores e intrigas. Sendo tão fiável, crendo na bondade de toda a gente, às vezes demora a abrir os olhos e a saber em quem confiar e perante uma suspeita alarmante, entra em pânico. E se desata a suspeitar, torna-se dificílimo fazê-lo confiar e abrir-se. Segundo, pela rigidez e frieza: não ser capaz de exteriorizar o que lhe vai na alma dificulta muito a comunicação, logo, qualquer relacionamento. Por fim, como coloca a parceira num pedestal - o que raramente é boa ideia -cria uma imagem idealizada dela, ressentindo-se se, com ou sem razão, a vê embaciada. Em suma, seria o homem ideal se não fosse a fragilidade interior e a atitude "holier than thou".



2- Gannicus, o mau rapaz que é bom




No início da série Gannicus era uma superstar, uma espécie de Cristiano Ronaldo com espadas lá do sítio, sem saber o que era o medo e capaz das proezas mais loucas. Um temerário bem disposto com mais coragem do que miolos e um certo complexo de auto-destruição, que só pensava em vitórias sangrentas na arena, copos atrás de copos e mulheres de má vida. A única coisa verdadeira para ele era a amizade, mas até isso foi posto em causa graças à sua maneira tresloucada de ser. Gannicus só mostrou o seu verdadeiro potencial quando, em nome da devoção aos amigos e para pagar uma dívida de consciência, pôs a sua coragem - e a inteligência, que  possuía mas não usava muito - ao serviço de uma causa maior do que ele. 

Isso, e ao encontrar uma boa mulher, de coração mais puro e inocente, que o fez ver no sexo oposto algo mais do que brinquedos.


 Gannicus representa o rebelde de coração de ouro; aquele que pode ser reformado. Aquele que muitas mulheres julgam - quase sempre, erradamente -  ver em cada bad boy que encontram. É o herdeiro playboy que decide assentar, o rapaz da banda que se cansa da vida de estúrdia, o artista incompreendido e boémio, o ganda maluco que escala o Evereste e salta em pára quedas, o aventureiro que não pára em lado nenhum, etc. E que quando se apaixona, zás: opera-se uma mudança radical. Torna-se um homem de família, que põe as suas qualidades ao serviço de um bem maior.

Claro que um homem-Gannicus tem muitas virtudes, ou vantagens. É corajoso, divertido, seguro de si, fascinante, envolvente, masculino, vai e faz em vez de hesitar, junto dele tudo parece seguro e simples ...e claro, sabe lidar com mulheres. Tanto disparate no passado, tanto mulherio, teve de lhe ensinar alguma coisa...incluindo que há mulheres para a diversão, e mulheres para levar a sério. 


Além disso, como no fundo é um coração de manteiga capaz de dar a camisa a um pobre, há uma candura nele que surpreende. O que noutras pessoas pareceria vicioso, nele é natural e até tem graça.


 Mas o mau -rapaz-que -é - bom tem dois problemas. O primeiro é que é um espécime raríssimo. Quase sempre um homem farrista, bebedolas, mulherengo, indomável, brutamontes, que pensa só em si mesmo (e nem para si é bom, pois anda constantemente envolvido em sarilhos ou actividades perigosas) tem dificuldade em mudar. 


As pessoas são como são, e a sua essência não se altera facilmente a não ser que elas o queiram de todo o coração. E mesmo assim não é simples. Old habits die hard.  Apliquemos aqui a metáfora da barraca: podemos tirar o rapaz da rebeldia, mas não a rebeldia do rapaz. Quem nunca ouviu casos de mulherengos que prometiam modificar-se, só para conquistar a mulher que desejavam? E muitos até eram sinceros- naquele momento, claro. 


O rebelde honrado e de palavra, capaz de se responsabilizar, não é uma aberração - não faltam casos felizes por aí. Porém, ao conhecer um em potencial é preciso ter muita serenidade, muita objectividade, muita cabeça fria e dar tempo ao tempo para perceber se é verdadeiro.


O segundo problema é a bagagem: ainda que ele seja um homem sério e de palavra apesar das doidices do percurso, para muitas mulheres (principalmente se forem mais ingénuas ou conservadoras) não é fácil lidar com um passado cheio de aventuras, de esqueletos no armário, e confiar.  Não só os ciúmes-fantasma se podem instalar (o que é injusto pois o que lá vai, lá vai) como há o receio legítimo - mas que não pode existir numa relação - de que o passado se repita.



Moral da história: mesmo entre os homens bons, não existe homem perfeito. Mas onde há bom coração, amor genuíno, sabedoria feminina para distinguir o trigo do joio e , da parte deles,  as 3 "ades", nada é irremediável.














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