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Friday, October 2, 2015

Homem bonito...mas sem cabeça.



Olhem para este rosto: feições cinzeladas e masculinas, um nariz bem modelado, cabelo bonito e escuro...tem um ar muito elegante, não tem? Pelo menos eu acho. Parece um protagonista de romance, do tipo que fazia as donzelas concordarem com um rapto consentido. E como os retratos em desenho podem ser um pouco enganadores, vamos já chegar ao fim da história, para terem uma ideia. Desculpem a imagem tétrica, mas é que o rapaz perdeu a cabeça (em todos os sentidos) durante a Revolução Francesa. 

E se não estou em erro, teve o molde ou "máscara da morte" feito pela própria Madame Tussaud, na altura em que a pobre coitada foi obrigada a trabalhar para os malvados sans-culottes (para não marchar também para a guilhotina, destino a que escapou por um triz. Ficou sem cabelo porque já lho tinham cortado à escovinha para a execução, mas salvou o pescoço).



Voltemos ao nosso herói, salvo seja. Reparei nele - ou no que restava dele - há anos, na Câmara dos Horrores, mas só há dias voltei a pensar nisso ao ler um artigo numa velha revista. Como podem ver, o maroto do homem era mesmo bem parecido. Não há melhor indicador de beleza do que parecer bonito mesmo no seu pior, e dificilmente há piorio que supere ser guilhotinado, principalmente tendo em conta que a cabeça geralmente andava aos tombos por ali antes de cair no cesto, e depois era passeada aos pulinhos numa estaca para gáudio do populacho. Estes franceses andavam doidos.

 Recordo-me de ter muita pena quando vi a cabeça de cera- não li a legenda logo e pensei que se tratava de um pobre jovem fidalgo apanhado no meio daquela confusão e assassinado só por ser quem era. Mas não - Jacques René Hébert, que morreu com 37 anos, era um chefe da facção ultra revolucionária da extrema-esquerda jacobina (ufff), muito influente na Comuna Francesa, fundador de um jornal super agressivo, o Le Père Duchesne, e antes disso, de um folhetim alcunhado de "flagelo dos aristocratas". Filho de uma família de classe média, estudou Direito e tinha assinalável talento para a escrita - que lhe granjeou fama e seguidores. No entanto, era uma alma fundamentalmente desonesta, ou pelo menos dúbia: vivia de esquemas e chegou a ser despedido por roubo.

O jornal de Jacques vivia obcecado com os "abusos
 e injustiças", que denunciava da forma mais violenta
                                                            


Embora ao início os seus textos não fossem demasiado virulentos contra a Rainha Maria Antonieta (criticando-a de forma agressiva, mas no sentido de lhe chamar a atenção para a forma como o povo a via, incitando-a a arrepiar caminho) foi subindo de tom contra a Coroa e a Igreja. A sua embirração com a Religião era tanta, que casou com uma freira fugida de um convento (compreensível- já se viu que o Jacquito tinha encanto; o pior é que a mulher também iria parar ao cadafalso).  
Nessa altura, entregou-se a uma vida luxuosa, com recurso sabe-se lá a que estratagemas - suspeita-se que às custas de uma amante rica -  e nada condizente com o que pregava. Gostava de se vestir com elegância e de se rodear de belos objectos. E ao mesmo tempo, ia espalhando um discurso cada vez mais odiento contra os privilégios que tanto invejava. A dada altura, ser denunciado pelo seu pasquim como "inimigo da República" era morte certa.


No julgamento da Rainha Maria Antonieta foi Hébert que a condenou definitivamente, ao fazer a horrorosa acusação de incesto que a perdeu aos olhos do público.

 Mas como nada dura para sempre e quem semeia ventos, colhe tempestades, Hébert acabou por se desentender com Robespierre. Foi julgado (salvo seja- toda a gente sabe como eram feitos esses teatrinhos sumários) mais como um ladrãozeco do que como conspirador. Todos os seus esquemas e pecadilhos foram publicitados e não contentes com isso, antes de o guilhotinarem fizeram descer a lâmina  umas três vezes, para diversão do povão, antes de o mandarem para o outro mundo.

E assim acabou o sedutor intrujão, como acabaria o seu amiguinho Robespierre. Quem não tem cabeça por dentro, não vale a pena ter um belo rosto por fora...e assim se provou que se pode levar ao extremo ou mais além o ditado "quando a cabeça não tem juízo, o corpo é que paga".




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