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Wednesday, October 7, 2015

Mulheres: procurem um Centurião de Cafarnaum. Homens: sejam como ele.





Sempre senti um certo fascínio pelo Centurião de Cafarnaum, personagem bíblica obscura, mas cujas emocionantes palavras são repetidas pelos séculos junto aos altares: "Eu não sou digno que entreis na minha morada. Mas dizei uma palavra...".

Tal como S. Dimas (o Bom Ladrão) ou S. Longinus (outro soldado) a sua intervenção nos acontecimentos é curta, mas marcante.


Talvez esse homem cujo nome não é mencionado despertasse a minha curiosidade porque gosto de romanos e lá em casa havia vários livros de História Militar que falavam de legionários, que eu devorava quando era pequena. Talvez me identificasse com ele por vir de uma família de militares. Mas foi um episódio que imaginei imensas vezes na minha cabeça e hoje, olhando para ele com outros olhos, consigo precisar melhor o que me encantava tanto no 
Centurião de Cafarnaum.

Para quem não está recordado, o Centurião aparece nos Evangelhos de S. Lucas e S. Mateus, pedindo (ou mandando pedir) a Jesus que cure um servo seu que está de cama. E apenas porque o patrão acreditou, o pobre homem sara sem que Cristo o veja sequer.



 Pouco nos é dito sobre este romano- não sabemos se estava na flor da idade (dependendo dos feitos e do berço, podia chegar-se a Centurião ainda jovem) ou se era um senhor mais experimentado, casado ou solteiro, qual era o seu aspecto ou que hábitos teria. Sabemos que seria uma pessoa honrada e justa, pois disseram ser merecedor da cura que implorava para o seu criado, por ser amigo dos judeus sob a sua autoridade, tendo inclusive edificado a Sinagoga. Podemos calcular que tendo servos ao seu cuidado, seria um pater familias.

O que importa é que apesar de gentio, tão pagão como podia ser um romano e de não se considerar digno de recebê-Lo sob o seu tecto, este homem duro, "de autoridade", provavelmente céptico e de olhos acostumados à crueldade das legiões,  habituado a ter soldados às suas ordens, quis ver o seu servo curado. E tanto na intenção como na forma como procurou essa ajuda, demonstrou qualidades que todos os homens deviam cultivar



 Comecemos pelo óbvio- sempre me soou invulgar que um Centurião com imenso que fazer, insensibilizado por anos de escaramuças no terreno, se afligisse tanto pela saúde de um servo, possivelmente um escravo. De novo, não sabemos quem era o doente. Talvez fosse o preceptor que o tivesse educado de pequenino ou um liberto que lhe tratasse dos assuntos da casa, mais amigo que servo; talvez o guerreiro tivesse sido movido pelas insistências da mulher, elegante matrona zelosa do bem estar da sua gente. O que sabemos é que se preocupou com um subalterno a pontos de ir procurar o Nazareno que andava a espantar meio mundo - e a enfurecer outros tantos-  com os seus milagres. Um homem de honra é firme no comando, conhece o seu lugar e usa a autoridade, se a possui, mas sabe ser bom e sensível para com os mais fracos e 
compadecer-se do sofrimento alheio.
Depois, há a sua delicada recusa em convidar Jesus para sua sua casa- motivada provavelmente pela Lei, cuja transgressão poderia causar mais aborrecimentos a Jesus do que a ele, certamente; mas note-se a escolha de palavras e a sua humildade varonil:  "eu não sou digno". Claro que como figura de autoridade local, poderia ter simplesmente ordenado que Jesus se apresentasse para lhe fazer a vontade em terreno neutro (a resposta seria memorável, decerto) mas não- soube reconhecer uma superioridade, ou pelo menos, um seu igual; e solicitou delicadamente o que desejava. Podemos também imaginar que se sentisse envergonhado da impureza dos seus costumes, do que aquelas paredes tinham visto e ouvido de pândegas e de excessos. Um cavalheiro, posto que altivo, nunca é soberbo; pensa nos outros antes de pensar em si mesmo e reconhece as suas falhas, quando erra.

E por fim, o seu salto de fé  - fé como não se tinha visto tal em Israel. Cidadão romano, o Centurião não tinha obrigação de crer nas ideias monoteístas dos Judeus. Não fora decerto educado para  fiar-se em profetas, por muito tolerante que Roma fosse com divindades e superstições estrangeiras.



 O seu cargo também indica que seria um homem sensato, pouco influenciável. E se havia multidões a seguir um humilde carpinteiro chamando-o mestre, filho de David, etc, não faltavam vozes que O acusavam de intrujão e agitador. Mas - crenças à parte -  o Centurião teria forçosamente os olhos treinados para distinguir nos homens, mediante um simples golpe de vista, aquela chama especial. Um soldado necessita de confiar no seu instinto contra todas as vozes exteriores, de ser ousado, de agarrar as oportunidades, principalmente em momentos de crise. Tudo qualidades que convêm a um homem de bem, ainda que nunca tenha ido à guerra: confiar quando sente nas suas entranhas que é certo, mesmo que haja rumores em contrário; acreditar, por vezes contra toda a esperança; ser corajoso para fazer algo que o possa pôr em risco ou cobri-lo de ridículo, em nome do que é correcto.


Estas virtudes que imortalizaram um anónimo homem de armas continuam a ser indispensáveis aos homens de hoje, casados ou solteiros, de todas as profissões e quadrantes sociais. Profissionais, maridos, pais, quantos não há - mesmo com formação religiosa - que não se detêm no exemplo do Centurião? Quantos são exigentes a despropósito, indelicados com os outros por se ufanarem da sua posição, impacientes ou sem empatia com quem está abaixo deles na linha de comando, indecisos e cobardes mesmo quando a oportunidade se apresenta, desconfiados até dos que lhes são mais próximos mas prontos a crer em boatos perniciosos, demasiado orgulhosos para o seu próprio bem, e assim por diante?

Bondade, autoridade, firmeza, coragem, confiança, modéstia, valor, fé em si próprio e nos outros: devia haver um Centurião de Cafarnaum em cada homem, e cada mulher devia procurar essas qualidades no companheiro que escolher.













































































































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