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Saturday, October 17, 2015

O complexo Andrómeda: encontrar o amor, manter o amor


Crystalina Evert tem uma frase que considero muito sábia: "em vez de procurar o homem ideal, torne-se a mulher ideal e deixe que ele a encontre".

  É verdade que as mulheres de hoje procuram demasiado; deixaram de cultivar a ideia da princesa distante e prometida numa torre. Poucas mulheres actuais são Rapunzéis, Andrómedas ou Belas Adormecidas.  A princesa de hoje desencanta-se sozinha, salta da torre, monta no cavalo branco e vai em busca do príncipe. Sem perceber, se calhar, que o cavalo branco que levou não estava ali por obra das fadas -  era o do príncipe que fica apeado...

É claro que no caminho se depara com montes de aventureiros e cavaleiros andantes que fazem de príncipes, mas não são. Algumas - agora se saltarmos da fábula por uns  momentos e voltarmos à dura realidade - seduzem, ou deixam-se seduzir, para obterem amor. É claro que fazem tudo ao contrário e da maneira mais triste.


Por sua vez o príncipe, embora a sociedade o vá habituando ao contrário, pode tropeçar nesta ou naquela donzela em apuros, mas inconscientemente - e agora a pé - vai levantando os olhos para todas as torres que se lhe deparam na estrada. À procura de uma mulher que é especial porque não anda à procura dele. A mulher dos seus sonhos está na sua torre, senhora do seu castelo, dona da sua própria vida e é vulnerável que chegue para se deixar salvar- o que não quer dizer que não o ajude se necessário, mas que lhe deixa o protagonismo, o orgulho masculino intacto. Que o deixa conquistá-la. Que se torna a sua maior façanha e o seu melhor galardão. Os homens querem encontrar e as mulheres, ser encontradas. Eles querem salvar e elas, ser resgatadas.

Mas o resultado das mixórdias modernas - que baralham os guiões e os contos -  é que os nossos heróis se desencontram, ou é o cabo dos trabalhos para se encontrarem. 

Para que o amor apareça, é preciso antes de mais tornar-se passível de ser amada; embelezar a alma e o corpo, ter uma vida em que apeteça entrar. Não encerrada numa torre - afinal, a torre é geralmente parte de todo um castelo com vida, e pessoas a circular - mas dona dela, com as chaves na mão e as emoções sob controlo. Ser a donzela sobre a qual os trovadores cantam e que os cavaleiros de valor das redondezas querem conhecer, não uma andarilha ou peregrina procurando desesperada o que devia ser seu por direito, ou oferecendo ao desbarato o que devia ser o prémio máximo para o mais valente. Escolher, em vez de ser escolhida. O que é elevado atrai pessoas elevadas.


 Porém, quando os dois protagonistas da história se encontram enfim, há outro desafio dos nossos tempos: o viveram felizes para sempre já não está tão acessível. Por um lado, porque se raciocina demais. As opções são tantas que o conto raramente acaba com o herói a levar a donzela para a sua fortaleza. Há tantas modalidades de relacionamento! Tantas pessoas disponíveis! E se aparece uma opção mais especial ainda? Como o sequioso no deserto que sai do seu oásis em busca da miragem que lhe parece melhor...apenas para se desiludir mais adiante.

Se calhar, o cavaleiro convida-a a viver uns tempos juntos na casa dos sete anões a meio caminho, "a ver". Zás, lá se vai a imagem romântica. E aí o raciocínio acaba, pois está-se mesmo a ver que não perdem esse tempo a conhecer a alma um do outro, a virar-se do avesso para perceber se não há ali a mínima coisa de insuportável, que possa inviabilizar a convivência. Tratam de tirar partido de todas as alegrias que deveriam vir mais tarde, sem perceber se são realmente compatíveis. E se no início essa comunicação não verbal supre todas as outras, quando tudo acalma pela ordem natural das paixões da vida, pouco ou nada resta. 


Se o ideal romântico de "levou-a para o seu castelo e viveram felizes para sempre" é exagerado e repentino mas ao menos ficava salva a honra do convento, a pobre princesa de hoje aceita - contente da vida - ser tratada como uma rapariga da taberna (ou barregã, se quisermos ser mesmo medievais!) a ver no que dá. Lá se vai a dignidade do conto...até porque hoje em dia já não há juramentos inquebráveis sem notário, como no Amadis de Gaula, em que Perion beijava a espada, prometia vir buscar a Elisena, sua única amada para todo o sempre demorasse o que demorasse, e isso valia um escrito...

Então, haverá meio termo entre o idealismo dos contos de fadas e o romantismo encapotado dos nossos dias? 

Ora, simples - seria entre o salvamento e o vitória, vitória, acabou-se a história, conversar bastante, passear bastante, testar os limites um do outro, ver a pessoa por todos os ângulos sabendo que quem se aventura a amar aventura-se a sofrer e que nada é garantido - tudo isso antes de o caso se tornar demasiado sério. E só caso valha a pena, quando o amor é sólido e seguro, quando se viu o melhor e o pior, abrir as portas da torre, do coração, do sentido que quiserem dar à metáfora. Esse é o amor que dura, que não se baseia nem no capricho nem no egoísmo, nem nos lindos olhos.

Isto de modernizarem tudo, até os paradigmas, só arranja complicações...






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