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Wednesday, October 14, 2015

O complexo Dorothy


Às vezes tudo o que uma rapariga precisa é de calçar uns sapatos encarnados - nem que sejam uns botins Hugo Boss encarnados, sem purpurinas e cuja única coisa mágica que fazem é não magoar os pés miraculosamente - bater os saltos três vezes e pensar com força  "there´s no place like home". 
Pode ser complicado definir o que "home" será realmente. Por vezes, a ideia de casa muda. Certos locais que significavam todo um sentimento de pertença deixam, de repente, de parecer um lar. O local/situação/pessoa que queria dizer segurança, serenidade, à vontade, certeza, missão, estabilidade, a causa pela qual se daria tudo pode de repente tornar-se um sítio frio onde só há julgamento e crispação. Quando se deixa de sorrir e já nem se sabe disso, se calhar já não é "casa". Quando não se tira a armadura sempre à espera de uma flecha mais minuto, menos minuto, então é uma cidade sitiada, mas nunca será "casa". E a casa poderá ser aquela de onde se saiu há muito tempo, antes de a demanda começar. 


A Dorothy julgava-se segura, pensava que estava no local para o qual tinha sido preparada,  mas às tantas estava só a seguir a estrada de tijolos amarelos. Tinha ido ali parar por artes mágicas, sem querer e já estava tão perdida na aventura em Oz que se deixava guiar pelos seus sapatinhos, pelo homem de lata sem coração, pelo leão sem coragem e todos os outros...mas não pela sua cabeça. 

E pedras falantes ou macacos voadores pareciam-lhe a coisa mais natural deste mundo, porque tinham passado a ser tudo o que ela conhecia. Muitas vezes embarca-se neste complexo Dorothy- e até a mais racional e menos romanesca das mulheres pode deixar-se levar por ele. Acredito mesmo que também haja homens que embarquem nele, porque os feiticeiros de Oz são realmente enganadores. Mas a verdade é que quem precisa de se esforçar demasiado, de seguir estradas com tijolos às cores demasiado fora do vulgar para se sentir feliz, de olhar constantemente à sua volta, não tem os pés nem a cabeça no lugar. O que vale, custa. Mas o que custa demasiado e por muito tempo, pode não ser mais do que um ciclone que ali passou.

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