Bota de elástico? Old fashioned? Amiguinha do vintage? Careta? Conservadora? Tudo isso, com muita honra. Mas nem tudo são rosas na vida de uma rapariga à moda antiga...
1- Nos transportes públicos, ser a única a dar o seu lugar a uma pessoa idosa/grávida/freira/ senhor de muletas. Às vezes segue-se uma breve conversa com a tal pessoa, que diz para quem quer ouvir "já ninguém é bem educado hoje em dia" e tudo à volta com cara de caso.
2- Não conseguir conter uma cara de tacho quando conhecidos seus tratam os filhos por "principezinhos e princesas" mas depois os educam como uns selvagens. E pensar "no meu tempo" as crianças eram para ser vistas, mas ouvidas? Nem tanto.
3- Não compreenderem a sua repulsa pela última "it bag", nem o seu fascínio por um vestido "velho" (na realidade, é brocado veneziano e vai ficar fabuloso depois de uma visita à costureira) ou um casaco que cheira a naftalina (é um Givenchy vintage).
4- Cair ou escorregar com grande aparato, magoar-se bastante, não dizer ai nem ui, levantar-se toda tonta mas com o ar mais sereno deste mundo e dizerem-lhe "você não existe! Se fosse eu a dar uma queda dessas, já tinha dito para aqui..." *inserir palavrões dos feios*. Isto de ter auto domínio...
5- Não ter paciência para "sessões de meditação e regressão de vidas passadas" e achar isso exótico e esquisito; preferir ir à Igreja e rezar o Rosário como os seus avoengos sempre foram e os outros acharem isso esquisito, exótico, uma seca e chamarem-lhe "papa Missas". O que não faz sentido, porque o que você faz sempre é menos demorado. E mal por mal, antes retirar-se para um convento limpinho ao pé da porta do que encher-se de lama, germes e parasitas num ashram remoto e imundo nos confins da Índia.
6- Fazerem-lhe provocações e negaças, você ficar muda como uma estátua, dar o seu melhor olhar de desprezo e virar costas como a sua avozinha lhe ensinou, e ainda ser apelidada de "peneirenta", "princesa" ou pior, Senhora Dona Lady.
7- Ouvir muitas vezes "ninguém diria que és tão simpática! É que tens um ar tão sério!". Um ponto pela sinceridade (ou será elogio envenenado?). É assim uma surpresa tão grande para toda a gente que tenha um seu lado mais divertido - que goste de dançar e contar piadas e essas coisas, como todo o mundo?
8- Sentir-se desconsiderada se um pretendente em potencial a convida sem a devida antecedência (olhe o respeito, menino!)...e o rapaz, como está habituado a raparigas mais modernas, não perceber o que raio fez de errado.
9- Ficar arreliada por chamarem "dondocas" e "mentes desperdiçadas" às donas de casa. Principalmente se não lhe faz impressão ser uma, pelo menos de vez em quando. A sua avó foi e era feliz, certo? A full time ou part time, com ou sem ajuda de pessoal especializado, o trabalho de casa nunca está feito, tem muito que se lhe diga e quem diz o contrário é preguiçosa. Ora toma.
10- As manicuras ficam todas tristes consigo, porque não as deixa fazerem-lhe macacadas nas unhas. Isto se não passou a pintar em casa, porque realmente não compensa perder tempo para pôr um verniz tranparente, porcelana, encarnado ou rouge noir, mais coisa menos coisa.
11- Sentir muitas vezes que a frase "já não há homens!" se aplica cada vez mais.
12- Saber que "dar-se ao respeito" é meio caminho andado para afugentar pretendentes que não prestam. E o mesmo se aplica a dizer coisas ajuizadas, mas que soam super antiquadas (e.g: "o namoro deve ser uma preparação para o casamento", "tenho de me despachar porque fiquei de ir com a avó à igreja", etc, etc) de propósito, só para se divertir com a cara deles. Depois começar a contar os segundos que demoram a pôr-se a andar. Viva a filtragem! (Se algum ficar depois de ouvir isso, das duas uma: ou é parecido consigo, ou é maluquinho ou gosta mesmo de si e vale a pena, ou tudo junto).
13- Por outro lado, comprovar que uma toilette discreta faz mais sucesso do que os "não-vestidos" que muitas mulheres usam, competindo para ver quem está menos vestida. O mistério tem um grande atractivo.
14- Detestar falar de dinheiro, porque lhe ensinaram sempre que isso é vulgar e de mau gosto. O que não dá jeito nenhum em certas situações em que é preciso discutir o vil metal.
15- Esperarem de si um comportamento invariavelmente exemplar, e cair o Carmo e a Trindade se por acaso prevarica. Perfeito o tempo todo, só o Terminator. E olhem lá.
16- As pessoas mais desbocadas têm medo de estar ao pé de si, não vá sair-lhes algum disparate (vulgo palavrão ou dito brejeiro). Chama-se a isso impor o terror silencioso.
17- Começar muitas frases por " como a avó dizia sempre..." ou, perante uma dúvida "o que é que a minha bisavó super sensata faria nesta situação?"
18- Ficar verde se lhe sugerem algo a tender para o demasiado revelador numa loja (ou se uma costureira tem a bela ideia de propor subir demasiado as bainhas) dizendo "é magrinha, tudo lhe fica bem" ou pior "aproveite enquanto é jovem, o que é bonito é para se ver, etc". Urticária.
19- Não se incomodar com serigaitas, porque a sua tia sempre lhe martelou que uma senhora só vê e ouve aquilo que quer, e de resto seria ridículo ter ciúmes de seres de outra dimensão; mas ter-lhes uma terrível alergia social, como há quem tenha aos ácaros e assim.
20- Não compreender como há gente que fica amicíssima dos seus imensos ex, como se nada fosse, à moda das séries americanas.
21-Ter alergia ao poliéster - ou a tudo o que é perecível, de má qualidade, vulgar e descartável como o poliéster. Seja nos bens materiais ou em coisas menos tangíveis, como as companhias, os valores de base, a palavra de honra...
A culpa não é sua se prefere o que é valioso, natural, durável e genuíno.




















