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Tuesday, November 24, 2015

A nobre arte de se deixar de tretas



Quase que se podia criar uma categoria aqui no Imperatrix chamada "aquelas frases batidas que parecem lugares comuns sem ponta por onde se lhes pegue, mas vai-se a ver e até significam qualquer coisa"***

É que volta não volta lá me aparece uma, dessas que andam para aí nos facebooks da vida, mas que em certos momentos da dita cuja caem que nem uma luva. E esta é uma delas... como diz o povo, só se lhes dá o valor quando se vê de perto uma situação mesmo a condizer.

As acções mostram sempre porque é que as palavras não valem nada. 

Quem nunca precisou de chegar a esta brilhante conclusão, pode considerar-se uma pessoa de sorte, super resolvida, que se rege pela máxima "tempo é dinheiro", logo não atura empatas nem pesos mortos. 

Por vezes anda-se ali meses, anos, a nadar na maionese, a inventar desculpas para o projecto que não atrasa nem adianta, para as obras que nunca mais acabam, para a avaria que toda a gente jura não ter arranjo, para a pessoa que diz que se importa muito mas comportar-se como gente civilizada que é bom, nada, para...*inserir problema doméstico/pessoal/ profissional/amoroso arrastado ad aeternum por pessoas pouco amiguinhas de se responsabilizar pelas coisas e levá-las adiante de um raio de uma vez por todas*.

 E vão-se atribuindo pacientes medalhas de consolação:



- Ao advogado que não anda com um caso para a frente..."ah, mas ele conhece a minha família/empresa há tantos anos...já está por dentro do assunto...era uma complicação mudar...";

-  Ao sócio que prejudica os negócios e não faz a sua parte "mas estamos juntos nisto desde que nasceu a ideia..."; 

- À falsa amiga que só sabe pedir favores, mas nunca está lá quando é precisa "ela não sabe portar-se melhor...é assim desde os bancos da escola...não é defeito, é feitio...

- À cara-metade que vai enrolando/fazendo desfeitas/cenas de ciúmes/whatever, num festival de asneira atrás de asneira:  "é a pessoa mais parecida comigo que existe...aquela que me conhece melhor...tem os seus defeitos mas não é mau diabo...não faz isso por mal...tem andado a passar uma fase complicada...ao menos deste (a) gosto a sério e depois, se acabo tudo posso sempre encontrar pior...".

- Ao empreiteiro que jura aos pés juntos que não sabe como resolver aquela infiltração na casa construída por ele próprio, e que vai empatando com remendos: "ele até é honesto...é um bocado trapalhão mas já prometeu que vem dia de S. Nunca à tarde, na semana dos nove dias, com um amigo dele que é especialista para ter uma segunda opinião..." (e entretanto, o tecto vai caindo aos bocados e estragando o aparador que herdou da sua trisavó).

Etc, etc, etc...



O que demora a entender - ser paciente e tolerante tem este senão - é que, quase sempre, lá no fundo as pessoas protelam porque querem, hesitam porque querem, chafurdam na treta porque assim é que estão bem, dizem "não sei" ou "não tenho solução" porque têm preguiça de resolver o problema, não se decidem nem tomam partidos porque NÃO LHES APETECE ou não lhes dá jeito, ou simplesmente portam-se mal e abusam da paciência dos outros porque acham que podem. Tão simples como isso.

E basta mudar de ares, recorrer a outro profissional, partir para outra, seguir em frente, entrar num projecto novo, arranjar novos amigos para que o contraste fale por si

Nha nha nha, nha nha nha, papagaios ao cesto e a treta continua.

Quando depois de lidar com quem adia, arrasta, obriga a rezar responsos, a implorar, ameaçar e a andar numa ralação dia e noite por coisinhas de nada... se encontra alguém que num ápice põe tudo em pratos limpos que é um gosto, tem-se uma epifania. Fica-se maravilhado (a), a pensar "onde é que eu andei a gastar o meu rico tempo?".

Quem quer, quem se importa, quem é competente, quem está empenhado, quem é, no fundo, uma pessoa decente, AGE. Fala, resolve, faz, decide, toma lados, compromete-se e cumpre ou, como dizem os ingleses, exerce a nobre arte de put your money where your mouth is

Aqui, por dinheiro, pode entender-se qualquer coisa: é dar o peito às balas, tratar do assunto, tomar uma decisão e levá-la adiante em tempo útil, porque falar é fácil. Até os papagaios falam e não se vê ninguém a confiar os seus assuntos a tais passarocos, por mais elaborado vocabulário que tenham...





***Qual quase, cria-se a categoria e caso arrumado, porque não quero misturar frases destas com citações de autores consagrados e vetustos ditados populares.

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