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Wednesday, November 18, 2015

Bataclan (das coisas reais e do amor verdadeiro, porque o resto...acaba num segundo).



A carta que o jornalista Antoine Leiris dedicou nas redes sociais aos assassinos da mulher, Hélène (morta no Bataclan durante os ataques da passada Sexta Feira 13) tornou-se viral e está a comover o mundo.

"Na noite de sexta-feira vocês roubaram a vida de um ser excepcional, o amor da minha vida, a mãe do meu filho, mas vocês não terão o meu ódio. (...) Eu vi-a esta manhã. Finalmente, depois de noites e dias de espera. Estava ainda tão bela como quando partiu na noite de sexta-feira, tão bela como quando me apaixonei perdidamente há mais de 12 anos. Claro que estou devastado pela dor, concedo-vos essa pequena vitória, mas será de curta duração. Sei que ela nos acompanhará todos os dias e que nos vamos reencontrar nesse paraíso ...".


Hélène e Antoine eram um bonito casal, tinham um filho bebé e obviamente, amavam-se. 

Segundo ele, "perdidamente" como nos primeiros tempos. Escolheram-se entre milhares de pessoas possíveis para terem uma vida em comum. Decerto terão tido os seus problemas ainda durante o namoro e já no matrimónio, como todos os casais. Birras. Dias maus, daqueles que todo o mundo tem. Ressentimentos. Crises de ciúmes. Questões financeiras, profissionais, sociais, familiares, que lhes dariam que pensar. Porque a vida é feita desses desafios todos e o amor - sobretudo o casamento para a vida- também. Mas superavam-nos dia a dia, porque isso é pequeno perante um projecto mais importante -  o mais importante dos projectos.

Se se amavam perdidamente, o mais certo era todas essas contrariedades desaparecerem, ou atenuarem-se muito, quando olhavam um para o outro, ou quando se estreitavam nos braços. O amor dá forças para tudo. Quem ama, carrega a Cruz pois como dizia Santa Teresa D´Ávila, mais vale carregá-la que arrastá-la.


E Hélène ainda lhe parecia tão bela como no primeiro dia; decerto ela sentia o mesmo.

                                           

Mas eis que na passada Sexta-feira, acabou tudo. Até ao dia em que se reunirem eternamente no Céu, já que Antoine tem a felicidade de ter fé e acreditar no paraíso. Foram terroristas sem alma, há alguém a quem apontar o dedo, a quem deitar as culpas, com ou sem ódio. Podia ter sido outra causa qualquer, nenhuma seria boa nem justa porque nunca é; mas foi esta, provavelmente a mais cruel e mais estúpida de todas as causas possíveis.

E o que fica disto? Fica um marido destroçado, a cuidar valentemente de um filho pequeno, ensinando-o a manter-se livre e corajoso e a não deixar que o ódio o torne numa pessoa amarga. Fica a recordação da mulher que amou perdidamente, que lhe parecia tão deslumbrante como da primeira vez.

Essas são as coisas reais, palpáveis, genuínas mas imorredouras, as que permanecem contra bombas, sangue e granadas. As que a morte neutra, indiferente, que ao fazer o seu lúgubre trabalho nivela todas as vaidades e deita por terra o vão orgulho, o egoísmo, as futilidades mundanas, não leva consigo.

Em segundos, vai-se tudo: Antoine não se lembrará das vezes que teve ciúmes de Hélène, das ocasiões em que se zangaram ou que pensou que se calhar estava melhor com a Amélie ou a Marianne, que eram melhores partidos. Tão pouco Hélène, para quem crê no céu, pensará lá de cima nas ocasiões em que Antoine foi egoísta, em que podia ter tomado melhores decisões profissionais, em que, estava o namoro no início, saiu com a Marianne para a arreliar porque achava que ela gostava mais do Gustave, ou que podia antes ter casado com o Pierre, que tinha uma linda posição e todos os anos oferecia diamantes à mulher.

Diante da eternidade... as ruins paixões, os maus momentos, as vaidades, são ridicularias. Quando se trata do amor, de uma vida inteira, memento mori.

Porque não somos nada - pó e cinza, fumos e espelhos. Mas às vezes esquecemos isso.



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