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Wednesday, November 11, 2015

Caixa de Pandora, cada um tem a sua (e há que deixá-la em paz)


Nos mitos gregos da criação, Pandora - tal como Eva- é levada pela eterna curiosidade feminina a abrir uma caixa  que devia manter-se fechada a sete chaves. (Noutra versão trata-se de um jarro, mas o recipiente não faz diferença).

A bela Pandora tinha sido pensada por Zeus para agradar ao Homem, esculpida pelas mãos do artífice do Olimpo, Hefesto, como uma estátua preciosa e sido brindada pelos deuses com muitos dons além da formosura: inteligência, as prendas de mãos, paciência, subtileza, persuasão, movimentos graciosos...o seu nome significava mesmo "a que possui tudo, a que dá tudo"...ou a que tudo tira. E como que para a testar, os senhores do Céu deram-lhe também a tal caixa. Um encanto de caixa, de metal trabalhado e cravejada a pedrarias. 

 Pandora tentou dominar-se, mas tal como a mulher do Barba Azul, não resistiu a dar uma espreitadela..e de lá de dentro saíram todos os males da Humanidade. Ela ainda se esforçou por fechar a tampa, mas a peste, a fome, a guerra, a discórdia saltavam do interior em labaredas amaldiçoadas. Quando no seu desespero conseguiu cerrar o cofre, no interior só restava a Esperança, para consolar as gerações vindouras.

Desde então, chama-se às as situações que são fáceis de desencadear, mas difíceis de controlar, "abrir a caixa de Pandora".  Mas nem sempre a Pandora é uma mulher - a curiosidade ou vontade de brincar com o que devia ser deixado quieto não conhece sexos.


Um mexerico que envolve muita gente, por exemplo, pode ser uma caixa de Pandora. Ou um segredo de Estado assim escandaloso, daqueles tão intrincados e com tantas pontas atadas que fazem cair governos. E também se diz isso dos segredos pessoais, ou informações delicadas, de tricazinhas e detalhes que é melhor não esmiuçar, que mais vale deixar a dormir para sempre porque não se sabe que rumo tomam uma vez acordando e andando à solta por aí. Muitas vezes há coisas que é melhor não perguntar, porque apesar de não terem poder em si mesmas, de não possuírem força alguma e de até ali não terem feito qualquer diferença no rumo dos acontecimentos, uma vez expostas à luz crua do dia, a impressão fantasmagórica que deixam pode assombrar de tal modo que nada volta a ficar como estava. 

 Uma delas são os espectros e esqueletos no armário de cada um. Mesmo nas relações mais estreitas, francas, saudáveis, maduras, próximas e desempoeiradas, em que se conhece relativamente bem o percurso da outra parte (e importa sempre saber o essencial, porque ninguém gosta de conviver com estranhos, nem isso é seguro) há aspectos, incidentes, erros ou pormenores que convém serem guardados, que cada um cosa consigo  para não mais verem o sol. É como desenterrar um cadáver sem motivo- não serve de nada, mas aflige.


Porque uma coisa é a realidade, ou o que foi a realidade...e outra é a forma como cada um a sente. À semelhança de um filme que perturba, nenhum espectador o percepciona da mesma maneira, ou tem as mesmas impressões. Quem abre a caixa, não sabe como vai reagir; quem a deixa abrir, não sabe como os outros olhos verão o que está lá dentro. Ainda que quem abre tenha também a sua própria caixa, que é muito tentador abrir também, no melhor espírito quid pro quo, "show you mine, show me yours" levando ao caos. E o caos dá-se sempre;  por muito vazias que as caixinhas estejam...há sempre algo que era preferível ignorar. 

Os Maias, a romântica e destrambelhada Maria Monforte dizia que o passado é cheio de coisas do outro mundo, e como o vinho - nunca deve ser agitado nem remexido. E o termo coisas do outro mundo é muito certo: bom ou mau, o que passou - os antes e os seus  pormenores que parecem sempre grandes filmes a quem não esteve lá- aconteceram noutro mundo, com outra perspectiva, noutra realidade, com almas que já nem fazem parte desta dimensão, motivados sabe-se lá porquê. Mas ainda assim ferem como dardos. Se a água passada não alterou o essencial, se não levanta nenhum sine qua non, então é escusado dissecá-la.

 Na Caixa de Pandora nunca houve nada de bom, por mais apelativo que parecesse dar só uma espreitadela, nem que fosse só com a intenção de compreender melhor o mistério. O universo do outro é sempre um mistério; o outro é sempre misterioso, e não o compreender totalmente faz parte do seu encanto. A verdade é muito importante; as cores e as facetazinhas cruas dessa verdade, que não dizem respeito senão a cada um, not so much. Conhecimento é poder, mas o excesso de informação - de informação inútil ou irrelevante, bem entendido -  nunca fez bem a ninguém.


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