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Wednesday, November 4, 2015

Como diria Salomão


Numa edição dos anos 1940 da revista "Ao Largo", dedicada às adolescentes, encontrei um dos mais belos textos sobre o amor que me foi dado ler nos últimos tempos: 

"Há duas espécies de amor: um amor falso, outro verdadeiro. Há o amor superficial e sensual que apenas se apoia na beleza e na sedução exteriores, o amor-egoísta, o amor-fantasia, o amor-capricho...

Este amor, como tudo o que é terreno, é inconsistente, passa, evapora-se...

 Há também o Amor-ilusão: «amar» seria entrar num mundo encantado, sem tréguas nem trevas, a felicidade perfeita, a alegria sem sombras...e tudo isto sem cuidados, sem trabalhos, nem contrariedades, nem decepções!

 Nem tanto ao Céu, nem tanto à Terra! 

És corpo e alma e no amor terás de contar com ambos. O Verdadeiro Amor é forte e sincero-mas sem ilusões. Tem de ser inseparável da Graça- porque esta aperfeiçoa e santifica o amor; ensina que nada deste mundo é perfeito e transforma o amor conjugal tornando-o fiel, misericordioso, paciente...

Este Amor para ser verdadeiro também tem de ser inseparável da estima mútua e do respeito recíproco. Só esta estima no amor torna o amor durável.

 A harmonia conjugal repousa naquele amor que é forte, compreensivo e generoso, porque tem qualquer coisa de sobrenatural. Numa época em que o mundo julga encontrar a felicidade, não no cumprimento de um dever e na aceitação dos sacrifícios que ele impõe, mas na recusa sistemática de todo o constrangimento ou esforço, na satisfação plena de um egoísmo materialista - precisas tu, que queres viver bem, de pôr o amor no seu verdadeiro terreno, sem fantasias...".


Dá que pensar, no espírito de outros posts já aqui publicados: é má receita aceitar o amor, pensar numa relação "para sempre" com o objectivo egoísta "quero ser feliz". Sem considerar que nenhum amor é um mar de rosas, que antes de se armar para o amor é preciso, como na guerra, ir preparado para enfrentar abismos, pois "a Cruz é o trono dos verdadeiros amantes". 

É preciso que cada apaixonado entre na esperança de ser feliz, mas com o objectivo de tornar feliz o outro, esquecendo-se de si mesmo. Assim nunca se desilude, nem dará, para desistir ao primeiro embate, como tantos, a desculpa egocêntrica "já não sou feliz".

Isto porque é tão fácil, ante os impulsos da paixão provocados pelos encantos do ser amado, pela atracção física, não vislumbrar senão aquilo que se quer ver. 


Um casal que se quer bem e vive o encantamento do amor - aquele amor que nem parece real, que gera uma necessidade constante e imperiosa de banhar os olhos no outro, de tocar uma centelha do divino, de absorver e compreender a beleza da cara metade - terá coragem para tudo, quererá prometer tudo, verbalizar constantes declarações, porque nesse instante até os maiores obstáculos parecem românticos. É uma vertigem deliciosa - mas que carece de racionalidade, de senso, e que uma vez acalmada - pois o amor, que se apanha como a gripe, tem, como ela, a febre - poderá não ter bases para subsistir.

O próprio Rei Salomão, tão sábio, soltou palavras de amor exaltadas: tuas carícias nos inebriarão mais que o vinho. Quanta razão há para te amar!

E assim é, principalmente se um casal é belo, jovem, feito como um conjunto de mármore grego: quanta razão há para te amar! Porém, esse "amor" não passará de paixão, de entusiasmo fátuo, se antes das juras, de um grande compromisso, de um profundo envolvimento físico, não for purificado, virado do avesso, testado nas chamas do sacrifício, provado na sua resistência - espiritualizado, em suma.

  Voltemos ao Rei, que dizia "põe-me como um selo sobre o teu coração; como um selo sobre o teu braço". Sem esse selo, esse laço definitivo, essa certeza, não pode ser amor verdadeiro.
E nada disso vem de repente, nem com promessas publicitárias de felicidade...

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