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Friday, November 6, 2015

Do gato que fugiu


A ex-deputada e consultora de comunicação Marta Rebelo tem estado nas bocas do mundo após revelar inflamadamente no seu blog que terminou o seu namoro depois de a cara-metade lhe ter deixado, sem querer, fugir o seu adorado gato amarelo. E acto contínuo, a linguagem algo incendiária do texto motivou que muitos internautas fizessem comentários do género "crazy cat lady...esperto foi o gato e sorte teve o namorado! Livra!".

(Também houve os "anjinhos" do costume, que reparando nos petiscos que ela descreveu que dava ao gato, atiraram logo com o habitual "tanta gente com fome" mas são incapazes de dar esmola a um pobre. Só que esses não interessam para o caso).

Voltemos à  menina Rebelo, ao namorado abandonado e ao gato fujão: curiosamente, o namoro tinha começado precisamente porque o ex adora animais e tinha recolhido um cãozinho abandonado que "apresentou" o casal no parque. Logo o rapaz mereceria um desconto, mas...

Ora, cada um lida com as perdas e as emoções à sua maneira. A consultora também afirmou publicamente que luta contra uma depressão crónica, o que pode de certa forma explicar que sinta tudo de forma mais intensa  (tive de ir ver isto tudo para me situar porque não conheço os intervenientes, só sei que Marta Rebelo parece escrever e dizer o que lhe passa pela alma sem grande filtro, que "não se afirma feminista, mas paritária" o que é uma ideia curiosa, e que respondeu às presentes críticas de uma forma pouco bem disposta).


Com a Imperatriz lá de casa

 Eu, que adoro animais, que entendo esse desgosto, que defendo com unhas e dentes o direito de uma mulher ficar solteira com o gato se assim o desejar (há pior na vida); que tenho quatro monstrinhos peludos e mimados (tudo adoptado e cada um com uma história mais rocambolesca do que a outra) fora os hóspedes que vão e vêm até encontrarem casa definitiva e os gatos silvestres sem mencionar outra bicharada, que até um morcego já levei ao veterinário; eu que não sou mulher de lágrimas mas chorei como uma Madalena quando o Farinelli me fugiu durante um ano e meio (veja, Marta, ainda há esperança para o Benny); eu que não sou blogger de contar a minha vida mas partilhei convosco a minha tristeza quando o Fari foi dar uma voltinha e a minha alegria quando ele finalmente voltou para casa...não concordo com a reacção de Marta Rebelo.

Nem me refiro propriamente à guia de marcha dada ao namorado, que isto quem está no convento é que sabe o que vai lá dentro e se calhar o gatinho (amorosíssimo, por sinal) foi só a gota de água. Embora dizer que se mandou embora o cavalheiro à conta disso soe como soa, nem é por aí que me faz espécie. 


O meu monstrinho Maggie

O que eu não acho graça é que se escarrapachem coisas privadas tão nervosamente, tão apaixonadamente, de uma forma que soa tão exagerada. Primeiro, porque uma mulher deve, mais que tudo, ser serena; segundo, porque são esses exageros, esses sassaricos, esses fanicos, esses chiliques a parecer doidice (desculpem) ou fanatismo que fazem com que a causa dos animais, e de quem os protege, não seja muitas vezes tomada a sério.

 E conheço muitos protectores dos amores de quatro patas, super bem intencionados sem dúvida, que acabam por afastar até quem tenta ajudar precisamente por se expressarem desta maneira ou por terem posições muito radicais. Se queremos defender os animais, temos de os compreender; e se queremos sensibilizar as pessoas para os animais, é preciso perceber como muitas pensam também. 


A Tatiana Romanova, uma gatinha imprudente que me partiu o coração.

Já mil vezes tive, por exemplo, a discussão com amigos dos animais que defendem que comprar um animal é ridículo, quando se pode adoptar. O que estas almas bondosas e utópicas não compreendem é que nem toda a gente tem perfil para adoptar (provavelmente nem terá perfil para respeitar e valorizar um animal que lhe custou dinheiro e que vem todo perfeitinho, sem traumas, como manda o figurino, quanto mais!). Não podemos pretender que toda a gente seja exactamente como nós. E essa postura de "bicho é sagrado" não ajuda os bichos, não...


Os amigos dos animais, as pessoas que os protegem, que muitas vezes tomam a cargo a bicharada de rua  - ou até os animais comprados e adoptados por vizinhos que depois não querem saber - pagando do seu bolso veterinário, alimentação, esterilização,etc... não são necessariamente hippies, boémios, excêntricos, milionários sem nada para fazer, anti sociais ou velhinhas com um parafusito solto. Muitos não são vegetarianos (adoraria, mas...c´est la vie) tão pouco têm posições extremas quanto a produtos de origem animal ou questões mais sensíveis como a caça ou a festa brava. São gente normal, estruturada, com um orçamento controlado, de família, anti crueldade, pró responsabilidade, com empatia e que por acaso, gosta realmente de conviver com animais e que os respeita.


Farinelli, que andou a monte mais de um ano

Mas respeitá-los também é compreendê-los. É perceber que, por muito que alguns animais sejam mais humanos do que certas pessoas, por muito que eu prefira mil vezes um dos meus gatos a certos humanos, a verdade é que gato é gato. E às vezes aplica-se-lhes aquela frase de um amigo meu, voluntário numa associação de ajuda animal que se sacrificava horrores para salvar felinos de rua, que face a fugas e saltos do 5º andar, desabafava "gatos estúpidos- não sabem o que é bom para vocês". 

Temos de aceitar que mesmo com mil cuidados, às vezes os animais -até esterilizados, e pelo que percebi o gato da Marta ainda não estaria assim- escapam. Aqui onde moro, com um jardim bem grande e montes de floresta à volta para brincarem em segurança, por vezes os meus querem porque querem dar a sua voltinha, ir lutar com os outros, ou namorar mesmo que já estejam medicamente impedidos de o fazer, sabe-se lá - e às vezes gastam-se as sete vidas.

Não podemos ser demasiado apegados a nada neste mundo, e a um animal que tem sede de liberdade por muito que nos ame - e que às vezes não sabe mesmo o que é bom para ele - muito menos. Há que amá-los e cuidar deles e muito darwinisticamente, seja o que Deus quiser...











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