A propósito deste post, uma nossa amiga e blogger chamou-me a atenção para o facto de o novo sucesso da Adelinha, Hello, visar mais do mesmo: uma conversa daquelas agridoces com uma antiga paixão que correu mal (e nota bene, as cantigas acabam invariavelmente com a menina a ser dispensada; cá para mim devia ir à bruxa ou pedir umas dicas ao nosso Rui Veloso, que dizia e muito bem "nunca voltes ao lugar onde já foste feliz", essa sim, uma das minhas canções preferidas).
Antes de mais, um aparte: tenho definitivamente de reproduzir aquela maquilhagem do vídeo. Digam o que disserem, o raio da mulher sabe fazer surgir beleza na sua cara (ou contrata quem sabe, vá).
Adiante : Hello, além de ter uma melodia mais interessante, intimista e menos xaropenta do que a cantiga-irmã, Someone Like You, é uma canção muito mais honesta.
Se Someone Like You reproduz o discurso típico da mulher da luta sem dignidade que foi rejeitada mas mesmo assim quer ficar amiguinha do ex a ver se cola (de-pri-men-te), a situação cantada em Hello já podia acontecer a qualquer uma.
Não necessariamente com um ex, que quanto a isso estou com o Rui Veloso; não necessariamente ligando do Outro Mundo para assombrar uma alma que está descansada na sua vida, pois uma senhora digna não faz essas coisas nem aparece onde não é desejada.
Por causa disso o coração de um, de outro, ou de ambos, partiu um bocadinho, mas um bocadinho que fez falta sem que se percebesse, que nunca esqueceu nem curou. E num solavanco quântico que altera a ordem do universo, a vida dos dois tomou rumos muito díspares, cometeram-se erros e sofreram-se coisas que nunca teriam surgido caso a opção tivesse sido outra.
Mas como nada é estanque nesta vida, às vezes há dúvidas, há aqueles terríveis "what if?" (e se?) que têm vontade própria, que não ficam sem resposta ainda que não se faça nada por isso. É como se o fragmento ou estilhaço que saltou fora do peito corresse Seca e Meca para voltar ao seu sítio. Quando assim é, os dois podem reencontrar-se e eventualmente começar no ponto onde pararam, já com as suas feridas de guerra, outra perspectiva, outra sabedoria mas surpreendentemente iguais ao que eram. Porque o que tem de acontecer, o que está escrito assim, dá-se inevitavelmente.
Por vezes procura-se muito longe aquilo que esteve perto desde o início, e um simples "hello", que quase não se dizia, pode pôr de novo em marcha esse estranho efeito borboleta...


