"As velhas, umas dão para rezar,
outras para ralhar desde a manhã até à noite...."
Bernardo Guimarães, in a Escrava Isaura
Ralhar, repisar, enumerar "fizeste isto, fizeste aquilo" e bater na mesma tecla é um hábito nervoso associado ao pecado da murmuração (outro que o mulherio comete bastante) e que é capaz de transformar a jovem mais encantadora, ou a senhora mais elegante, numa velha rabugenta.
Uma mulher contrariada tende a refilar, é verdade; especialmente se sente que não a ouvem, que fala para o vento. Quem tem mãe, esposa, sogra, namorada e por aí fora saberá isto muito bem. Porém, combatamos o feio hábito de martelar o que já foi dito e repetido: até para a neura há regras de cortesia!
Diz o povo - e bem dito- casa que não é ralhada não é casa bem governada. Mas tudo se quer na medida certa. Refilar constantemente, até o "adversário" gritar por misericórdia ou fugir para as trincheiras (isto se não perder a cabeça por sua vez) é colocar-se numa posição demasiado emocional e parcial (ou sem eufemismos, um bocadinho histérica) para que alguém leve os sermões a sério.
Além de dar com os outros em doidos, de lhes tirar o foco e a serenidade para enfrentar aquilo que é de facto relevante e de não resolver coisa nenhuma, por muito justificado que seja o ralhete. As coisas para serem bem ditas, precisam de o ser uma vez ou duas, com calma e serenidade.
Ralhos constantes, embirração, recriminações, ditos ácidos, sarcasmos, concentrar-se em pormenorzinhos que não são o mais importante deixando o que realmente importa para segundo plano, pôr a vontade de desabafar acima de tudo o resto, ainda que de modo passivo agressivo, é fazer muito barulho por nada.
Torna a casa um inferno, quando a mulher deve - sempre que possível- essencialmente transmitir serenidade e confiança a quem a rodeia. Ninguém dá ouvidos a uma pata choca que faz birra e aflige toda a gente com os seus modos de alma aflita.
É como na história do rapaz que gritava "lobo!": se respingam, fazem nha nha nha non stop e se descompensam por pouca coisa, quando houver realmente caso para alarme, então que não se dirá?
Contra a murmuração feminina, é preciso temperança...ou não ser destemperada! Ter a humildade de reconhecer que não se controla o universo, que nem sempre as coisas (e as opções dos outros) tomam o rumo de que gostaríamos, o que não quer dizer que não corram bem na mesma. E se os outros pensarem pela sua cabeça e errarem, o mal é só deles.
Antes rezar, de facto - ou para quem não gosta de rosários nem coroas, fazer meditação, tomar uns chás de camomila, ter umas aulas de zumba para descarregar a adrenalina, fazer tricot, jardinagem, krav maga... qualquer coisa, menos ralhar de manhã à noite!


