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Wednesday, November 4, 2015

Get real!


Essena O'Neill é uma jovem australiana, celebridade dos social media com meio milhão de seguidores, que até há pouco tempo fazia sucesso e lucrava bastante graças aos seus posts bonitinhos.

Entretanto fartou-se da pressão para ser perfeita e decidiu dar o grito do Ipiranga: apagou tudo, mudou o nome da sua conta para "Social Media Is Not Real Life," e substituiu as suas publicações por vídeos a contar como realmente é esforçar-se como um camelo em nome da popularidade, status e aprovação alheia e por republicações das suas selfies e retratos, com legendas cómicas do género "para que a minha barriga parecesse perfeita nesta imagem, não comi o dia todo", "para que este ângulo saísse como desejado, zanguei-me com a minha irmã que estava a fazer o frete de me fotografar", "este vestido foi patrocinado" ou "não me diverti nesta festa porque estava demasiado angustiada a retratar-me para publicar". Coisas assim.


Poderá dizer-se (eu acho possível) que Essena foi esperta e substituiu uma fonte de receitas e seguidores por outra, em modo mimimi, que desgraçadinha que eu sou, ó vida dura. Mas não deixa de haver uma certa lógica nisto tudo.


Atenção, eu defendo que se é para aparecermos, que seja no nosso melhor. Que nunca ninguém veja as nossas desditas e nas redes sociais, muito menos. Mas há um limite para o maquilhar da realidade - ou para o expor da realidade que, já que aparece, convém 
que esteja compostinha, talvez demasiado.

Quantas pessoas conheço que, na ânsia de tirar a selfie perfeita antes do treino, não treinam como deveriam? É que (não sou uma artista nem vezeira na selfie apesar de gostar de fotografia, sorry) aquilo é uma canseira. Leva mais tempo e esforço a selfie do que o exercício em si. 

E de igual modo, quanta gentinha está mais ocupada a fotografar/gravar o concerto para colocar no Facebook ou no Instagram do que a apreciar a música e o momento? 

Lá está - há o registar ocasional de um bom ângulo, há um momento Kodac, e há transformar a vida em momentos Kodac...nem que seja a martelo.

Estaa imagem, da estreia de um filme com Johnny Depp, tornou-se viral - a senhora em destaque foi a única a apreciar o momento, sem se ralar em captá-lo.

E isto de viver uma vida artificial não tem só a ver com selfies, nem redes sociais. Nada contra as aparências nem contra pensar estrategicamente - as aparências têm o seu papel, comunicam quem desejamos ser, dignificam, importa salvaguardá-las. Ter bom nome, reputação, estabilidade, não queimar pontes constantemente, conservar o que se tem, sacrificar-se por um amor de longa data que não é perfeito mas tem potencial, pensar no futuro, ouvir quem nos rodeia...é determinante, mas não é tudo.

Há quem se dê com amigos desrespeitosos (ou que são péssimas companhias) só para dizer que esteve com fulano e beltrano, que têm acesso às melhores festas. Quem não tenha queijo nem fiambre em casa para vestir Chanel (sim, conheço casos e não são poucos). Quem tolere abusos, infelicidade, só para estar ao lado  da pessoa que aparentemente é perfeita para si. E essa ideia entranha-se na pele de tal forma que até se acredita ser verdade. Mas quem não se importa de tratar mal a cara metade nunca será perfeito. Sim, é perfeito...para arm candy. Perfeito para o retrato. Picture perfect para um anúncio de Ralph Lauren. Mas tudo isso - tal como os bens materiais, as honrarias mundanas ou a popularidade - pode trazer breves alegrias, pode facilitar muitas coisas, pode massajar o ego, mas não é a felicidade. Não é verdadeiro, não é real. São bonecos que se fazem. E em menor ou maior grau, toda a gente faz o "boneco" de vez em quando.

Ao final do dia - ou no fim de tudo - o que conta é aquilo que às vezes nem nos lembramos de exibir, porque estamos demasiado felizes para parar e registar o momento. 






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