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Tuesday, November 10, 2015

"Menina também diz palavrão", afirma o Público. Mas isso será boa ideia?


Numa crónica partilhada ontem pelo Público (sempre que o Público publica alguma coisa tenho de me lembrar de dar a volta ao pleonasmo, coriscos, que eu não sou menina de palavrões, já lá vamos) Elizabete Rodrigues, mulher do Norte, defende o direito de uma mulher dizer asneiras, quanto mais não seja uma vez por outra.

Há no seu raciocínio aspectos justos e que é impossível negar: poucas coisas são tão eloquentes como um palavrão no momento certo; também concordo que são vocábulos a utilizar com parcimónia e em ocasiões *muito* específicas. Há pessoas que têm o estranho dom de conseguir dizer asneiras sem que isso soe muito chocante ou grosseiro, outras - e algumas do Norte, achando que por isso estão desculpadas de todas as cerimónias- que se armam em engraçadinhas e o resultado é repugnante/ constrangedor - apesar de não deixar de ser curioso reparar na habilidade com que encadeiam trinta palavrões numa frase!


Depois, digo muitas vezes que frequentemente, é menos feio um palavrão expressivo do que um trocadilho insinuante, infantil, brejeiro e baboso. É que eu abomino trocadilhos, e trocadilhos malandrecos raramente saem bem.





Then again, também os palavrões raramente saem bem - principalmente por escrito. Escrever razoavelmente empregando alguns palavrões estratégicos é dificílimo, já o disse por aqui.


Mas entretanto, zás: a cronista lembra que «não é só em função da classe social ou da região do país que varia a intensidade do uso do palavrão. Esta é igualmente uma questão de género!". E continua, muito ciosa da utilidade e do direito de os dizer: “Não é bonito uma mulher dizer palavrões” disseram-me um dia. Na minha cabeça ecoou, “fod***, era só o que me faltava”.

Ora  aqui já estamos parcialmente em desacordo. Parcialmente, porque realmente é uma questão de género e raios parta, (excelente alternativa à palavra f*) era só o que me  faltava se não fosse. Toda a vida ouvi em casa, e dou graças aos Céus por isso, que uma menina ou senhora não usa palavras fortes - se não o puder evitar que seja para dentro, de modo que ninguém ouça. Assim como também não ri alto às gargalhadas, nem fala aos guinchos, nem desce dos saltos a não ser em caso de vida ou de morte, não demonstra emoções que é melhor guardar para si nem faz um espectáculo de si própria. É uma questão de delicadeza, mas sobretudo de auto domínio.




 Se já não fica bem a um homem dizer disparates fora de contexto, a uma mulher muito menos. Mind you, ser uma Senhora não exclui automaticamente o alívio (ou o poder, se quiserem) de ventilar uma valente asneirola em privado e/ou em surdina. Perante uma topada no pé, uma valente contrariedade, um susto daqueles, eu sei lá, dane-se a suavização da coisa ou a versão light e chamem-se (não é palavrão, mas é rude de dizer) os bois pelos nomes; entre quatro paredes ou em sussurro ninguém precisa de saber e como dizia a outra, Deus Nosso Senhor não nos há-de castigar lá por causa disso. 

Conheço até umas quantas Senhoras do mais bem nascido e educado que se pode que não se ensaiam de dispensar os eufemismos. Mas fazem-no num círculo muito restrito e claro, quem não sabe é como quem não vê...vícios privados, públicas virtudes!



 Depois Elizabete Rodrigues diz algo que para mim é o fim do mundo, mas cada um é como cada qual:  Outra forma mais subtil, mas igualmente eficaz, de demonstrar a uma mulher que esta não deve dizer palavrões, é pedindo-lhe desculpa ao fazê-lo. Já me aconteceu uma série de vezes, depois de um car*** proferido por um homem, este acrescentar “ai desculpa, não me lembrei que havia mulheres no grupo”. Neste caso, costumo explicar que considero os car*** inofensivos.»



Ainda bem que há homens que continuam a proceder assim! Já são tão raros que é caso para lhes tirar o chapéu, salvo seja. A maioria diz essas palavras à frente de adolescentes ou velhinhas, se for preciso. E lamento dizê-lo, os car*** não são inofensivos. São uma prova de falta de respeito, de que uma mulher não é importante o suficiente para merecer que um homem, ou um grupo deles, modere a sua linguagem. Rapaziadas, coisas "de homem" é uma coisa, se estão senhoras o contexto já é outro e nem todas serão tão pouco impressionáveis como a Elizabete. Ter consideração pela delicadeza alheia, não sujeitar uma menina ou senhora a uma linguagem que não se utilizaria perante a filha, mãe ou esposa mostra consideração. Não convém que as mulheres incentivem esse aligeirar de costumes, por muito que seja prá frentex uma mulher dizer, ou escrever palavrões se não for capaz de se expressar de forma mais criativa.


E termina com:



"Esta restrição social vai ao encontro de um ideal de mulher com o qual não me identifico. O ideal da mulher-frágil, delicada e civilizada por oposição ao homem-robusto, bruto e rude". Certo, está no seu direito. Por minha vez, eu identifico-me com esse ideal e fico incomodada se o vejo  desrespeitado por quem não morde a língua para se adequar às circunstâncias. É daquelas liberdades que terminam onde começa a dos outros, que havemos de fazer...


"Lamento desiludir todos aqueles que cultivam este ideal-tipo de mulher, mas informo que se trata de uma construção social e não passa de uma ilusão. A mulher é capaz de ser tão ou mais obscena na linguagem como o homem, e isso não faz dela menos mulher. Continua a ser uma verdadeira princesa, fo***!"


Quanto a ser uma construção social, termo que está horrivelmente - e digo "horrivelmente" no sentido literal- na moda, até poderá ser, mas daí a ser uma ilusão vai um passo grande. Há mulheres capazes de ser tão obscenas na linguagem como os homens, certo, e homens mais educados do que algumas mulheres. Mas daí a aplicar tal ideia a todas, devagar com o andor, que isso sim já é ilusão. Há muitas mulheres eloquentes, expressivas, que são perfeitamente capazes de se articular, até bem categoricamente, sem recorrer a impropérios. A nossa língua é riquíssima. Quanto a ser uma "verdadeira princesa" na mesma...esse título anda tão maltratado, tão usado pelas mulheres mais vulgares para se referirem a si próprias e às amigas, que se tornou perfeitamente irrelevante. Ou como uma pessoa amiga uma vez disse "se chamam princesa a «isso» é porque nunca conheceram nenhuma!"

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