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Tuesday, November 3, 2015

Não sejamos maluquinhos de nada.

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"Certos médicos literários dedicam-se a inventar doenças
de que a humanidade papalva se presta logo a morrer".


Eça de Queiroz dixit

O esprit du temps, o status quo que se instalou, dá-me vontade de berrar "stop the madness", eu que, como diria a Mary Poppins, lá sou mulher de me alterar

É esquisito: por um lado, um relativismo desgraçado, nada é mau, um é proibido proibir, um je suis Charlie  a cada esquina, um NÃO JULGUEIS porque isso incomoda muita gente, a esquizofrénica da liberdade a todo o custo; por outro, um policiamento do politicamente correcto, um ofendedismo, um crime-pensar que dá enjoos. É tudo discriminação, tudo apropriação cultural, tudo racismo, tudo sexismo, tudo violência, tudo shaming-qualquer-coisa, tudo caso para tribunal, tudo faz mal à saúde - uma sociedade de bananas, de xoninhas, de bebés chorões, é o ideal a alcançar actualmente.

 Mas comecemos pela saúde e alimentação, que do resto já se tem tratado aqui ad nauseam.

 Há muito que estes modismos de tudo faz mal, que até impedem uma pessoa de viver, de sentir, de respirar descansada, me andam a tirar do sério. A começar por retirarem o sal a tudo: é na comida, é nas ideias, é suposto sermos todos uns sem sal incapazes de saborear umas batatas fritas à séria ou de escolher lados. Já martelei imenso essa ideia por aqui, eu que primeiro tenho costela italiana portanto não me tragam cá comida insípida porque a vida são dois dias (já lá vamos), segundo sofro de tensão baixa e preciso cá da minha dose de sódio (sorry about that) e terceiro acredito muito nisso de as pessoas de bem terem de ser o sal da Terra

A gota de água que fez transbordar o copo foi no outro dia quando, quase a ter um piripaque hipoglicémico e ansiosa por um pecadilho do McDonald´s porque se é para a desgraça é para a desgraça, me deram as batatas, as famosas, pecaminosas, apetitosas batatas, SEM SAL. Sem. Sal. Fiquei ofendida e exigi que me salpicassem aquilo tudo de sal com aquele borrifador como manda o figurino...pois sim! Deram-me com ar apologético e tristinho dois pacotinhos, para que eu, por minha conta e risco, salgasse as batatas... pois não podiam ultrapassar a dose recomendada. 

Temperei-as como pude e comi-as com ar de desafio, a sentir-me uma ganda maluca, uma verdadeira terrorista de metabolismo sobre-humano. What a feeling



E lembrei-me logo das palavras de um Padre muito sensato, mas sem papas na língua, que há uns meses a conversar comigo sobre isso do Sal da Terra, foi da metáfora ao literal e atirou com esta digna de aplauso: "é como as bestas que agora tiram o sal a tudo e depois se entopem de CENTRUNS para compensar a falta de sódio! São uns estúpidos! Anda tudo estúpido!". Voz de Deus, minha gente! 

É que em tudo, há que ter equilíbrio e bom senso. Por um lado, temos as pessoas desleixadas e preguiçosas que querem comer à vontade e não fazer nenhum, que morrem se tentarem uns abdominais e umas flexões,  mas lutam contra os "padrões de beleza". Por outro, os fanáticos, os fariseus da alimentação que não sabem o que querem e agora dizem que os bifes são o inimigo público, mas daqui a nada  condenam o tofu porque a soja também faz doenças ruins. 

E não falemos do everything in between - como uma alminha anafada que nem um texugo que há dias se dizia alérgica ao glúten (uma boa dose só lhe podia fazer bem a ver se aquele metabolismo desferrava, os médicos que me desculpem!) ou os atletas de ginásio de esquina que não comem isto, não comem aquilo, é sementes de chia e  linhaça e papas de farelo e suminhos detox e tudo super saudável, mas depois enfardam batidos cheios de hormonas e pior, só para parecerem musculados. Para não falar mencionar as meninas que acham o máximo adoptar um anti-concepcional super sónico que lhes tolhe tudo quanto é natural no organismo e cujos efeitos que nem quero imaginar ainda vamos a ver, mas depois dizem que é normalíssimo qualquer mulher ter muita celulite. Super coerente.

Há um sentimento de "holier than thou": anda tudo a querer morrer cheiinho de saúde, é o que é; porque a verdade é que façam o que fizerem, ninguém fica cá para contar a história, tipo "eu portei-me bem por isso sou imortal, ao contrário dos desvairados que bebiam coca cola, comiam sal e atacavam bifes - esses morreram e foi muito bem feito".

Como se comer fosse enfardar. Como se fosse preciso proibir, aterrorizar, porque as pessoas são demasiado burras para se moderarem!

 Más notícias, gente:  somos omnívoros, por muito indigno que isso soe a algumas pessoas (then again, vivemos numa época em que já se diz que "o género é uma construção social" por isso não me espanta que se negue tanto a natureza). Depois, para morrer basta estar vivo. E por fim, a verdade é que não há dois organismos iguais. 




Vinda de uma família com boa genética, com pais elegantes que nunca toleraram mitos de preguiçosos (nunca dissessem à frente da mãe "oh, é tão esguia mas isso muda quando tiver filhos") e sendo sempre adepta do exercício e dos mistérios da nutrição, acabei por concluir que primeiro, a avó tinha razão: quando o corpo pede, é porque lhe faz falta; a gula é que é má; e segundo, que não há uma dieta universal, nem um exercício universal, mas uma receita individual para cada um. Coisinhas "saudáveis", como a levedura de cerveja, podem fazer muito bem a certas pessoas e muito mal a outras. Uma modalidade de fitness que consegue resultados fantásticos na Maria pode ser igual ao litro para a Marta, ou fazê-la aumentar onde não dá jeito. 

A dieta à base de proteínas e vegetais, com sal e alguns doces mas poucos farináceos, que põe o metabolismo a trabalhar à velocidade da luz e dá montes de energia a certas pessoas, pode deixar outras fracas, indispostas ou mal do fígado, etc. Não é preciso ser um génio para perceber isto. 

Os fanatismos bacocos nunca são saudáveis. Como tudo o que carece de bom senso e espírito crítico. O grafitti na imagem acima é verdadeiro, passo por ele regularmente. Algum fariseu dos tofus e das linhaças garatujou, num edifício público cá para as minhas bandas: "a morte está no teu prato". E outra pessoa que pecou por sujar paredes, mas que se perdoa porque quem diz a verdade não merece castigo "come antes que arrefeça". Porque - lá volto à moral das avós- "o que faz mal é a fome, há montes de gente que não pode engordar nem apanhar doenças ruins dos bifes porque não tem comida e em última análise, um dia bate tudo as botas e nessa altura já não se prova nadinha". 

Poupem-me. Ou como diria o provérbio escocês que ficou muito na moda ter por cá naquelas tasquinhas onde se come jaquinzinhos, iscas e tudo quanto sabe bem "seja feliz enquanto é vivo- coma e beba. Porque vai passar muito tempo morto".




1 comment:

chihiro said...

Do ponto de vista da sociologia, o género é realmente uma construção social, não se negando as diferenças biológicas entre homem e mulher, que se reflectem nos termos seco masculino e feminino. As construções sociais a que chamamos género são aliás baseadas nas diferenças biológicas :)

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