O meu grande amigo Paulo Ilharco, poeta a sério (que nisto de poesia eu sou um pouco embirrenta) e um formosíssimo talento daqueles que não nascem nas árvores, teve esta semana o emocionante lançamento do seu livro, "Raio X à Alma", num dos espaços mais emblemáticos de Coimbra, com luzida assistência e melhor música.
E, comovidíssimo, desculpou-se citando uma frase que eu já tinha ouvido, mas não recordava onde, nem o autor: "só os corações de pedra não entendem a linguagem das lágrimas". Cá me ficou, porque falámos nisso recentemente, a propósito daqueles instantes em que se descobre que há pessoas que se podem amar, até se descobrir, ipsis verbis, que não são boas pessoas.
Fui ver e as bonitas palavras são do autor espanhol Severo Catalina: a linguagem das lágrimas não pode ser entendida pelos corações de pedra.
Veritas est...nas relações pode haver diferentes formas de comunicar e de sentir; uns são mais emocionais e expressivos, outros menos; cada pessoa é um universo e às vezes, mesmo a cara metade com quem se partilha tudo pode não entender o que o outro sente, ou reagir com naturalidade a coisas que deixam o outro em parafuso. Até as almas gémeas (se é que existem, que eu acho o conceito um pouco piegas, com pouco de romântico e nada desafiante) têm os seus diferendos.
Mas lágrimas? Poupem-me.Transcendem diferenças, nuances, línguas e culturas. E olhem que eu não defendo a lagriminha fácil. Mas quem chora é porque sente. É porque está dorido. Quem não entende isso, quem não se comove ao ver o outro que parece um chafariz, destroçado, é um coração de pedra sim senhor, indiscutivelmente.
Daqueles que não merecem que se fungue por eles, quanto mais choraminguices, soluços e desperdiçar de lenços de papel (perfumados e extra fofinhos, ainda por cima). Ná.

