Recomenda-se:

Netscope

Thursday, December 17, 2015

Aqueles casais deprimentes


A imagem acima - de um jovem casal a passar um momento difícil nos finais da Grande Depressão - dá que pensar. Para já, porque ao colorir-se o retrato, ficou tão vívido que parece uma fotografia actual. Mas é mais do que isso...este casal podia estar a atravessar a Grande Depressão, mas não era de todo um casal deprimente. Já explico o que quero dizer com isto...

Ora reparem neles: membros da classe trabalhadora, marido desempregado, habituado ao duro ofício de lenhador, rodeados de um cenário pouco confortável numa fase da vida em que tudo devia ser rosas. E no entanto, há uma elegância nos dois que desafia as circunstâncias. São um casal bonito.  A mulher está sentada no rude barracão como uma rainha no seu trono, posando para o maior artista. Ele parece encarar a crise com a sobranceria de um aventureiro habituado a muito pior, ou o descaso de um varão medieval pela morte. 

É claro que podemos adivinhar aqui uma situação de "amor e uma cabana"- como dizem os chineses, quando se é amado, até a simples água fria tem um doce sabor. Mas o amor, embora seja per se uma forma de riqueza, não garante que os elementos de um casal façam por conservar em si mesmos aquilo que atraiu o outro em primeiro lugar.

São muito frequentes os casos de casalinhos que, mal se pilham numa relação sólida, vai de se descuidarem. E de darem razão àquelas piadas sem grande graça, vulgo "apanhou-se comprometido (a), desleixou-se". Ora, não há nada mais deprimente. É certo que o amor não está reservado às pessoas convencionalmente atraentes, sempre super bem vestidas a caminho de uma passadeira encarnada qualquer...mas não deixa de estar associado à beleza, aos pequenos luxos, às coisas boas da vida, à sensualidade. E um casal que deixa de ser sexy ou vá, apresentável (porque muitos não eram umas belezas para começar, mas quando eram, mais deprimente se torna) é mesmo de entristecer uma pessoa. 

Quem teve pais que sempre fizeram por manter a boa forma e um certo glamour mesmo em casa terá talvez maior dificuldade em entender essas desculpas esfarrapadas, em estilo "já me casei..."; mas qualquer alma observadora se arrepiará, se se detiver nisso, ao contemplar estas pessoas pouco felizes, deixando entrever uma vida social que se resume a pasmar frente à Casa dos Segredos (ou em casos menos graves, um filme qualquer) e um "amor" murcho, sem graça, de papelão, à falta de melhor, daqueles só para não ficar para tio ou tia. Isso não é sequer amor e uma cabana, que ao menos é uma ideia romântica. É a versão pequeno burguesa e reles, como diria o primo Basílio, de um suposto amor- ou pior, é um "môr". Não é vida - é uma vidinha.


E muitas vezes, as crianças levam com as culpas: ter filhos é o melhor pretexto para quem é preguiçoso (a). Há dias vi um casal que sinceramente, me deixou a pensar se teria adoptado/raptado a criança que trazia consigo. O pequenito era lindo, louro como um sol, com os caracóis a bater nos ombros sob um bonezinho de bom gosto, adoravelmente vestido. Os pais? Ela gorda como um texugo e larga como um viaduto, entrouxada em roupa sem graça como quem vai limpar com lixívia; ele pançudinho e careca, com trajes igualmente pouco cuidados. Podia ser a ama a passear o filho dos donos da casa, mas quero acreditar que as amas têm mais aprumo...deviam ser daqueles que pensam "já não compro roupa para mim, só para o meu príncipe/princesa" (e isso de tratar os filhos por príncipes também é do mais deprimente que há, salvo se for mesmo verdade).

Ao ver tais "parcerias", ocorrem ideias do tipo "realmente, só se estragou uma casa", "pobre pequena, casou com um bruto" ou "de facto, esta mulher deve ser daquelas loureiras sem educação que fazem tudo para agradar, mas mal arranjam quem as carregue não servem para nada e tratam de arruinar um homem". Ou tudo isso junto. Cruzes.

Em qualquer caso, o amor deve servir para puxar pelo melhor das pessoas, para fazer com que desabrochem em todo o seu potencial. É claro que o aspecto é um mero símbolo disso - mas há que respeitar a dignidade que o amor exige. Até porque atrás da beleza que se degrada, vai tudo o resto por aí abaixo...e se um casal em plena Grande Depressão conseguiu manter-se decente, não há desculpas para os outros todos.








7 comments:

Lingua Afiada said...

Já me cruzei com algumas famílias assim em que os pais estavam assombrosamente mal vestidos e mal tratados e os filhos impecavelmente vestidos e cuidados.
Não consigo entender a dualidade de critérios juro que não. Estremeço sempre quando alguém me diz: quando tiveres filhos vais entender, só vais comprar coisas para eles.

Imperatriz Sissi said...

Dá vontade de lhes responder: "se isso acontecer, façam-me as exéquias porque já morri mesmo". Deus nos defenda!

Helga Silva said...

Apesar de estar prestes a ser mãe, uma coisa que sempre me assustou foi se chegaria a esta altura do campeonato e se me iria tornar na abominável mulher que se torna mãe e até o buço deixa de fazer. Mas já cheguei à conclusão de essa história do quando tiveres filhos vais entender, é uma grande desculpa para o desleixo! Eu não deixei de ser vaidosa só porque vou ser mãe, muito pelo contrário! Há que estar sempre bem apresentável!

Sónia Henriques said...

Excelente texto. Fui mãe há 3 meses e a frase " quando tiveres filhos vais entender" também não serve para mim. É verdade que compro mais roupa para a bebé do que para mim, mas nem por isso abdico das peças que me fazem sentir bonita. Não quero que daqui a uns anos a minha filha veja fotos nossas em que eu tenha um aspecto desleixado. E nunca nenhuma visita me surpreendeu de pijama ou de robe. Mesmo quando estamos só as duas em casa, tento ter sempre um aspecto cuidado.Foi assim que a minha mãe me habituou e será isso que vou ensinar à minha filha.

barcelence said...

À Sra D. Língua Afiada: também fiquei escandalizada quando observei pais assim. Na verdade, era ainda uma adolescente quando conheci pela primeira vez uma mãe "farrapenta" - o que nada tem de mal, é só um modo de se ( não ) arranjar - , e a sua filha bebé com cerca de 10 aninhos completamente mini princesa!. Já nos meus tenros anos, sem ter filhos, e vestindo-me em " 5 mins" pela manhã, fiquei chocada com isso. Parecia-me escravizar-se por um filho. E não é escravizar-se por um objetivo nobre, como os estudos, saúde, etc. Parecia-me mais uma escravidão emocional, em que se tira ao brio, para se dar ao bibelot.

Carla Santos Alves said...

O exemplo. É o exemplo. A minha mãe sempre se arranjou.
Quando nasceu o meu terceiro filho(tenho 4) e pela primeira vez, uma médica entrou na enfermaria e disse—nos " mães, arranjem—se todos os dias, esqueçam os fatos de treino e os rabos de cavalo!" — e é importante que isto seja dito, porque nem sempre é uma questão de posse mas sim de pose.:-)
E acredito que quando digo que tenho 4 filhos as pessoas admiraram—se, sim 4 filhos já é família numerosa, mas julgo que também é pelo facto de me verem arranjada, embora nao seja propriamente um modelo, até porque tenho 1,58m :-), mas gosto de me arranjar, e os filhos gostam e têm já o hábito de elogiar. E "obrigam" o pai a fazê—lo :"Pai, estou linda? Não disseste..."
É só preciso bom gosto.

Imperatriz Sissi said...

Obrigada a todas pelos vossos testemunhos, que só em si davam um post...

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...