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Wednesday, December 16, 2015

Assino por baixo (e as memórias dolorosas não me deixam mentir)


Eu não quero pensar no futuro das novas gerações, tanto adoçam a vida e os factos às crianças (menos quando as sobrecarregam de actividades extra curriculares daquelas fúteis, as chamam índigo e ridicularias dessas, as fazem levar uma vida de monge, mas em mau, em frente a ecrãs e não as deixam comer doces nem sal...aí tenho pena delas, que tortura!). Os pequenos da minha geração eram badass. Circulam pela web incontáveis textos nostálgicos sobre o assunto e eu própria já escrevi um aqui, por isso não vou elaborar. Arrumo apenas com meia dúzia de argumentos de peso: reguadas na escola, lamparinas correctivas quando necessário, óleo de fígado de bacalhau à colherada (continuo grande fã, nada ilumina tanto a pele e o cabelo; mas usem-no em cápsulas, que o sofrimento molda o carácter mas não exageremos) mercúrio nos termómetros, mercurocromo nas feridas para andar pintalgado dias a fio (em casa foram mais benevolentes: passaram a usar betadine para essas "feridas de guerra"), e...mertiolato.



O nome "mertiolato" ou "merthiolate" pode parecer estranho na era do politicamente correcto e do ai-Jesus-não-traumatizem-as-flores-de-estufa, mas era todo um ritual darwinista de iniciação, uma autêntica operação de eugenia, uma agogê de meter medo aos espartanos, no melhor modo só os fortes sobrevivem. Ao pé de um frasco daquela mixórdia, o pior bully (no meu tempo eram "rufias") da escola era pêra doce.

Digo-vos já que, tanto quanto sei, nunca ninguém morreu por ser *mal* tratado com esse líquido esverdeado ou rosado, whatever, com cheiro a hospital e que parecia esfolar uma pessoa viva; mas que dava vontade de bater as botas ou desmaiar para acabar com a dor, isso dava.

Que me lembre, só tomei contacto umas duas vezes com tal poção mágica, e uma delas ficou-me gravada a ferros na memória. Era o Dia da Unidade, ou outro evento militar solene, e eu teria uns três anos. Os Oficiais tinham por hábito levar os filhos a essas festas e eu adorava assistir às paradas e observar os cavalheiros nas suas fardas de gala, acompanhados por elegantes senhoras (quem nasce torto, nunca se endireita). Nem protestava perante os longos discursos e refeições que pareciam durar hooooras. Foi uma boa escola.


 Depois deixavam a pequenada andar à solta por ali entre tanques e canhões e eu, sempre traquinas, decidi começar às corridas numa via enorme com casernas, ou garagens, não estou certa, de ambos os lados. Mas ai- os meus sapatinhos de cerimónia não combinavam com o pavimento e escorreguei de cara no chão por ali fora. E o vestidinho de mangas curtas não me protegeu os braços, que foram a primeira coisa a assentar - ou antes, a ir de rojo - no betão ou lá o que era. Zás, fiquei com um braço em carne viva e desatei a choramingar...só um pouco, nunca fui muito piegas.

Levaram-me para a enfermaria e um jovem soldado simpático, julgando decerto que a recruta quanto mais cedo melhor (ou confundindo o frasco de mertiolato com o de água oxigenada, que teria mais lógica usar) aproximou da minha pele um algodão bem embebido naquela porcaria.


Aí é que berrei e chorei a sério. A dor foi tão forte que parecia que me tinham atingido com um taco de baseball na cabeça. Julguei que o coração me ia parar e que ia ter uma coisinha má...sem exagero, foi esse tipo de dor. Não morri. Volto a dizer, acho que ninguém morreu do mertiolato: só se tornou mais forte graças a ele.

Mas embora leis que controlem casos mais graves de bullying possam fazer falta, é inegável que as crianças de hoje são muito fraquinhas...não aguenta mertiolato, não está preparado para enfrentar a selva da vida. Ponto.

4 comments:

barcelence said...

Bullying não é simplesmente andar ao murro, ao pontapé ou em outras travessuras e esfolar joelhos ( rachar cabeças, até! ). Bullying é uma espécie de tortura, praticada sobre alguém que não pode ou não consegue defender-se. Pode ser só psicológico. Reparei no último meme do post, tenho quase certeza que é do filme The Help. Nesse filme as pessoas de "raça negra" não eram autorizadas a fazer o mesmo que as pessoas #raça branca". Agora imagine-se numa qualquer escola inter racial permitida à altura: um estudante negro, único entre dezenas ou centenas como por vezes sucedia, a ser constantemente insultado, humilhado enfim, torturado e saber que não podia rebelar-se, pensando nas gravosas consequências ou simplesmente por não ter forças. É um caso de bullying, neste caso com base em racismo. O exemplo que dou é grave, como o são a esmagadora maioria dos casos.

Susana said...

Ah...subscrevo flores de estufa..
O pior é q isso deve ser uma condição contagiosa pq conheço mts na nossa geração q se tornaram verdadeiras flores

Imperatriz Sissi said...

@barcelence - o bullying verdadeiro, muito parecido com assédio ou perseguição, é terrível. O problema é que agora se chama bullying a qualquer calduço ou bolachada, daqueles contra os quis ou os pequenos se defendem ou vão crescer para ser adultos completamente passivos. Em todo o caso, foi só a deixa para falar de mertiolato.


@ é muito "floreado"...temo o futuro com tanta mariquice junta...

Carla Santos Alves said...

Nos dias que correm também há muitas crianças hiperactivas, ou serão apenas mal educadas?!

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