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Tuesday, December 29, 2015

Breaks my heart, or I think I´m just happy? (ontem, hoje e amanhã)

Kurt Cobain e Courtney Love; e actualmente, a filha deles com o marido

Eu era muito novinha quando Kurt Cobain deixou este mundo com o seu belo rosto e olhar triste que parecia uma pintura do Divino Redentor, mas o meu universo pré-adolescente ficou abalado pela tristeza que assolou o liceu- especialmente na figura do M., um rapaz simpático de cabelos compridos que era fã empedernido e desatou a chorar como uma rapariguinha quando a notícia da morte do seu ídolo se soube. 

Os Nirvana estavam por todo o lado e era impossível escapar aos seus poemas. Os rapazes com quem me dava (os que se atreviam a não ser betos e a fugir dos encerados, parafernália de rugby e sapatos de vela num liceu que dividia amigavelmente "betolas" das tribos mais "alternativas", mas igualmente betolas porque era quase tudo gente civilizada, embora houvesse problemas ao melhor estilo do que viria a ser Morangos com Açúcar) vestiam como Kurt Cobain e as meninas queriam namoriscar rapazes como Kurt Cobain. 



Eu cá era muito sossegada, mais tímida não podia... e continuava orgulhosamente a coleccionar Barbies e a jogar Streetfighter a par com os livros e a maquilhagem, mas houve o T., que me ofereceu o primeiro peluche com coraçõezinhos (primeiro e último, que nunca fui dada a lamechices) e o A., long story. Cabelos louros compridos, olhos azuis e camisas de flanela.

 Já o nosso amigo M., o que chorou como uma Madalena e tocava guitarra, usava as tais camisas sobre umas antepassadas das skinny jeans actuais  que eram uma seca para raparigas e rapazes, porque aquela ganga elástica extra espessa tinha artes de achatar o derrièrre mais imponente.  Tinham de ser City Jeans, senão não prestavam...mas em boa verdade, nem essas prestavam. Fiz birrinha para ter umas e usei-as um par de vezes antes de as despachar, um dos poucos caprichos de moda inúteis da minha existência. Mas no M. pior um pouco ficavam, pois ele, embora bonitinho com o seu cabelo escuro lustroso,  já era o Palito...eu e a minha melhor amiga até desenhámos um cartoon em que era levado pelo vento, possivelmente ao som dos Nirvana, com as Doc Martens no ar a fazer-lhe umas pernas ainda mais longas e magrinhas, se possível. 



Depois eram bâtons acastanhados ou bourdeaux e gargantilhas vitorianas, como se usam agora outra vez. E uma estética que andava entre o gótico, o punk, o grunge e o preppy (Burberry e tartan por todo o lado, uma festa). Não havia telemóveis (só apareceram um par de anos depois e nem era de bom tom ter um) nem selfies (mas divertíamo-nos com as polaroids e gastar rolos a preto e branco era moda) a internet estava nos primórdios e a inexistência de redes sociais complicava um pouco a interacção de adolescentes uns com os outros porque para falar com alguém era preciso passar pelos pais da pessoa primeiro, que podiam ou não estar de maré e ficavam inevitavelmente com um registo dos amigos ou admiradore (a)s que ligavam lá para casa. Foi uma época divertida.



 Voltando aos Nirvana, havia as matinés na Via Latina (quem é de Coimbra sabe), às Quartas-feiras à tarde. Saía-se das aulas para passar a tarde a dançar-  tocavam as cantiguinhas tipo Saturday Night e a seguir as músicas do Unplugged. I think I´m just happy...think I´m just happy...e éramos felizes, sem dúvida. Com todo um futuro à frente que se cumpriu para a maioria de nós, felizmente, mas a que quem dera tirar algumas complicações que apareceram pelo caminho.



 Este Natal a viúva de Kurt Cobain dedicou-lhe uma linda carta de amor. Na altura toda a gente se zangou muito com Courtney Love, que alegadamente tinha oferecido ao marido  a arma que o matou (a ser verdade, nunca percebi o que lhe terá passado pela cabeça tendo em conta os antecedentes dele) mas embora formassem uma equipa menos que sofrível e puxassem pelo piorzinho um do outro, lá que deviam amar-se, deviam.

A filha do casal até já casou com um mocinho de sobrenome luso que é a fotocópia do pai dela, nós todos crescemos para ser adultos responsáveis, o mundo deu reviravoltas e piparotes, mas a música dos Nirvana continua tão boa como ontem, muito do que veio dessa época permanece hoje e Courtney continua a amar Kurt. É uma sensação estranhamente melancólica e agridoce para fechar o ano, que não sei se me parte o coração, ou se I think I´m just happy.



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