Recomenda-se:

Netscope

Wednesday, December 9, 2015

Florbela: mulher, demasiado mulher.




"É pensando nos homens que eu perdoo
 aos tigres as garras que dilaceram".


Ontem foi dia de Florbela Espanca, que entrou e saiu deste mundo num 8 de Dezembro.

Embora com o passar dos anos o meu fascínio pela poesia declinasse bastante, foi uma das autoras que adorava na adolescência. Admirava-lhe o rasgo e o facto de, enquanto mulher sem grandes meios no início do sec. XX, ter procurado um percurso académico. Além disso, foi jornalista numa das melhores publicações portuguesas de sempre voltadas para o público feminino- a revista/suplemento Modas & Bordados, de que temos falado aqui.

Porém, à medida que fui crescendo, comecei a ver Florbela com olhos diferentes. Não necessariamente com desencanto - alguns dos seus sonetos são de facto sublimes, de grande intensidade, como soluços que rasgam a alma - mas sob um prisma um bocadinho mais analítico.

A meu ver, Florbela tinha o melhor da Mulher em muitas coisas....e o pior da Mulher em tantas outras. Era uma jovem talentosa, sensível, com uma intrincada vida familiar (para usar um eufemismo) vitimada por uma série de tragédias pessoais, desgostos amorosos e problemas de saúde, nomeadamente no que concernia à possibilidade de ser mãe - um sofrimento a que nenhuma mulher fica insensível- e com a cabeça cheia de romances de Balzac e Dumas. 


E o que faz uma mulher de alma artística, bafejada pelas musas, dotada de grande imaginação, face aos pequenos e grandes dramas da vida? Tende a romanceá-los, a exagerá-los, a ver-se como a trágica heroína de uma novela. Creio que todas as mulheres são um pouco romanescas de vez em quando. É um dom que nos assiste e que atire a primeira pedra a que nunca usou esta forma de escapismo para não acabar maluquinha nem se entediar de morte. 


"E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando atrás de mim, sem me largar!"


 Graças à exaltada sensibilidade feminina, o namorado parvalhão (a que qualquer pessoa isenta aplicaria um eficaz pontapé no traseiro sem pensar duas vezes... e problema resolvido) torna-se num anti-herói byroniano de uma saga que se arrasta anos a fio; o facto de não se ter encontrado o Mr. Right deixa de ser visto como uma pouca sorte, coisas da vida, mas uma maldição dos deuses de qualquer tragédia grega; as arrelias diárias ganham a dimensão do drama de Medeia...; a mais singela história de amor toma os ares dramáticos de uma produção de Romeu e Julieta....



"E este amor que assim me vai fugindo
É igual a outro amor que vai surgindo,
Que há-de partir também... nem eu sei quando..."


Nada disto é mau per se: mascarar a vulnerabilidade feminina, condená-la, fazer pouco da fragilidade que nos assiste, negar o desejo que todas as mulheres têm (de forma mais ou menos evidente) de serem amadas, conquistadas e protegidas, de ter a seu lado um homem forte o suficiente para as arrebatar e defender, de gerar vida, de cuidar e nutrir, é a causa de muitas neuroses e conflitos ainda hoje. Nunca poderemos sentir e agir exactamente como os homens, nem convém. Mas esse fogo interior, esse excesso das labaredas feminis, convém que seja, como o lume doméstico, mantido sob o nosso controlo, não vá cair-se num bovarismo que deita tudo a perder.

"O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada...".


A autora possuía o potencial das grandes mulheres: a capacidade de amar ardorosa e sinceramente, a inteligência, o génio, a graça, a ternura maternal...mas também era, como diria Eça de Queiroz "mulher! muito mulher!"...ou seja, em demasia. Ser "muito mulher" nem sempre quer dizer ser uma mulher a sério. Ou uma mulher forte no bom sentido da palavra. 

Florbela Espanca tinha alguns dos maiores dotes femininos, mas faltavam-lhe outros dos mais importantes: a temperança, a serenidade, o auto domínio, a coragem, o espírito de altruísmo que permite não pensar nos próprios problemas para tomar o fardo dos outros, a capacidade de lidar com o sacrifício e o sofrimento sem entrar em parafuso, o sangue frio. Tudo isto também são dons da mulher, sem os quais a sensibilidade só serve para incendiar descontroladamente tudo o resto. 


Faltou-lhe também, talvez (e isso já sou eu a especular, mas os anseios das mulheres, todos se parecem em muita coisa) encontrar o amor certo; a própria dizia que "um homem sem coragem, sem energia, sem vontade, nunca pode ser verdadeiramente amado". E os homens fracos, já se sabe, vingam-se sendo cruéis...a sua comparação aos tigres que dilaceram era bem acertada.

Florbela nunca terá encontrado o seu "Prince Charmant", um marialva no bom sentido, homem paciente mas firme que chegasse para lidar com tanto requinte de sensibilidade, com uma alma tão apaixonada e complexa.  E permitam-me voltar a Eça de Queiroz, "um ente meio príncipe meio facínora que possuísse, acima de tudo, a força". Talvez esse amor fosse a sua salvação, se tivesse existido.


                                   "E nunca O encontrei!... Prince Charmant
Como audaz cavaleiro em velhas lendas 
Virá, talvez, nas névoas da manhã!" 


Para uma poetisa (desculpem, mas não compro a ideia de Sophia de Mello Breyner de chamar "poeta" a uma mulher), para uma poetisa o destino de Florbela Espanca foi excelente. Para Florbela Espanca, a autora, veio a calhar ter uma vida trágica, uma alma em ferida e morrer cedo. É assim que os mitos são feitos e para uma grande artista não há final melhor. Mas para Florbela, a mulher...já não foi tão conveniente.

Miremo-nos no exemplo, que fala uma linguagem bem diferente dos poemas...

2 comments:

Ana Duarte said...

Li algumas coisas da Florbela mas nunca foi o meu registo. Tampouco Sophia de Mello Breyner, eximia na prosa mas que (na minha modesta opiniao) devia ter deixado a poesia para quem a sabe fazer.Ser um genio em tudo nao e para todos, quem mais perto la chegou la foi talvez o grande Miguel Torga (e sem opio a mistura).

Imperatriz Sissi said...

Tinha perdido o seu comentário, mas não posso concordar mais em relação a Sophia. Prosa boa de ler, mas em relação à poesia nunca percebi o apelo.

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...