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Friday, December 11, 2015

In analgesicus veritas (porque já nada me admira)


Bem se diz que isto da saúde é de levantar as mãos para os céus e dar muitas graças todas as manhãs. Até no que se refere a achaques sem importância, mas capazes de deixar uma pessoa prostrada de todo por um dia ou dois. É que num momento está-se contente, feliz e saltitante, a transbordar de energia, sem sequer se lembrar que se tem costas, apenas para se baixar no seguinte a apanhar qualquer coisa e erguer-se...com uma pontada que mais parece uma espadeirada à traição. 

Ou que alguém arranjou uma boneca voodoo à imagem e semelhança do alvo, onde se diverte a espetar agulhas e alfinetes, lagarto-lagarto. E aí repara-se "ai, tenho costas". E dá-se o valor a andar sem dores, com uma postura impecável e desempenada, algo que se toma por garantido. 



Foi mau jeito a fazer ginástica, é do frio, é ar e vento que entrou no corpo (as velhinhas das aldeias tinham uma benzedura qualquer contra isso, "ar amaldiçoado, ar excomungado, qualquer coisa qualquer coisa sai deste corpo baptizado", etc, se não estou em erro)  é de velhas maleitas de coluna mercê de um aparatoso acidente há muitos anos (porque se é para uma pessoa ser atropelada, ao menos que seja em grande estilo e com pormenores cómicos, mas isso é assunto para outro post), o certo é que dói que se farta e fica-se ali a parecer o pobre Quasimodo. Com vontade de lamentar, como dizem as pessoas no campo "ai a minha espinha!" (há quem diga que é o termo técnico, mas a mim soa-me sempre a conversa de peixe, não de gente). 

 Endireitar-se, isso é que era bom. Subir escadas, não querias mais nada? Rodar a cintura quando alguém chama, que anedota. Pegar no gato ou nos sacos das compras? Nem pensar! E treinar, como previsto? Forget it!

De modo que, para evitar entupir o hospital, consultório ou centro de saúde, que já não têm mãos a medir com gente realmente aflita, fora os hipoconcríacos e as idosas que lá se juntam na emocionante competição "eu sou a mais doente da freguesia!", há que atacar com carvão vegetal, anti inflamatórios e analgésicos daqueles mais fortezinhos até perceber se é caso para chamar o tinoni



Mas embora por cá os nossos medicamentos não tenham o efeito dos americanos (não é só nos filmes; alguns nativos dos E.U.A. têm-me contado que tanto nas anestesias do dentista como nos pain killers, os marotos colocam substâncias que fazem rir e deixam quem os toma a flutuar, totalmente grogue - eta, povo divertido) algum side-effect hão-de ter. 

De forma que depois de uma dose de Brufens, outra de um daqueles comprimidos à Dr. House e outra de sono reparador, quando alguém diz "isto assim não pode continuar, amanhã vamos às urgências" é muito natural que se tente responder "está bem, se não passar liga-se de manhã para o centro de saúde". Mas com a cabeça a andar à roda e em modo trocado, o que sai é "se não passar, liga-se para o Correio da Manhã!".

And yet...se calhar, in analgesicus veritas. Como se não bastassem as pessoas que quando adoecem,  nem que seja com uma simples constipação, tratam de relatar o caso em pormenor nas redes sociais ("unha encravada outra vez...descanso forçado", ou "já gastei três caixas de lenços, sou o mais ranhoso da freguesia!" coisa sempre glamourosa de se ver, quando não é a falar de problemas mais repugnantes e mais íntimos; as velhinhas que adoram queixar-se ainda não descobriram o potencial do facebook, tremam se chegarem a descobrir) os jornais vão pelo mesmo caminho.


Doi-me tudo, agora quero likes de simpatia senão morro!

 O que não faltam são notícias perfeitamente insignificantes: que aquela sub-celebridade tem dor de dentes (o que os "jornalistas" traduzem por ter sido "hospitalizada de urgência") ou que, como vi há dias, dois irmãos andaram à facada na Brandoa. Palavra que fiquei parva como é que isso é notícia: se fosse noutro sítio, admirava-me. Se tivesse havido feridos ou mortos, vá. Se fosse "dois irmãos andaram à facada em pacífico templo budista", valia pelo invulgar. Agora, como os irmãos brigam sempre, é natural que numa zona toda radical o façam de forma um bocadinho mais extrema, isto sem defender cá violências. E porque não me ocorrem outras não notícias para exemplificar.

O que interessa é que não tarda, quem está adoentado sente-se no direito a ser notícia de primeira página, com centenas de likes e comentários no face do Correio da Manhã e do JN, do estilo "doente, tu, ó vigarista de...? Eu é que sei como estou e ninguém me dá protagonismo! Corja de ladrões".

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