Recomenda-se:

Netscope

Tuesday, December 8, 2015

O que tem a Imaculada Conceição a ver connosco (para além de ser feriado?)

Hoje, a Santa Madre Igreja celebra o dogma da Imaculada Conceição (proclamado a 8 de Dezembro de 1854 por Pio IX, na bula Ineffabilis Deus, pouco antes das aparições em Lourdes)- o que faz deste mais do que um "feriado qualquer", mas um dia de preceito ou de guarda, a ser observado por todos os Católicos (ou seja, nada de passeatas sem cumprir as obrigações primeiro!).

Porém, a festa da Imaculada Conceição (reconhecendo que a mãe de Jesus não era uma donzela qualquer, mas, conforme as profecias, seria uma jovem perfeita, escolhida desde o início dos tempos, preservada por privilégio especial da mancha do pecado original ainda no ventre da sua mãe, Santa Ana, e pela sua sensatez e obediência, a antítese de Eva) já fora incluída no Calendário Romano em 1476 e tornada obrigatória a toda a Cristandade pelo papa Clemente XI em 1708.

O lindíssimo verso "Tu és toda formosa, meu amor, não há mancha em ti" ( "Tota pulchra es, amica mea, et macula non est in te" ), do Cântico dos Cânticos (4,7) foi um dos argumentos bíblicos utilizados na defesa da Imaculada Conceição.


Os portugueses, em particular, devem-lhe especial devoção por ser Nossa Senhora da Imaculada Conceição a Padroeira de Portugal, uma vez que o Reino e todos os seus domínios de aquém e além mar lhe foi consagrado por El-Rei D.João IV em Março de 1646, com grande entusiasmo do povo. Em Junho desse ano, a Universidade de Coimbra fez o juramento da Imaculada Conceição, que obrigaria todos os admitidos a graus académicos a declarar "defender sempre e em toda a parte que a Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus, foi concebida sem a mancha do pecado original". Esse juramento só foi abolido por desnecessário depois de estabelecido o dogma, pois estava implícito a partir daí.

El-Rei D.João IV
Por ser Nossa Senhora "a verdadeira Rainha de Portugal", desde o senhor D.João IV que a Coroa deixou de ser usada na cabeça pelos nossos Reis, mas delicadamente pousada a seu lado na cerimónia de aclamação, uma particularidade única na Europa.

Pessoalmente, tenho particular carinho por esta devoção, já que do lado materno todas as mulheres recebiam "da Conceição" como segundo nome de baptismo - havia uma embirraçãozita com chamar Maria às filhas, vá-se lá saber porquê, e assim ficava a tradição salva.
Estas curiosidades para contextualizar, já que desde ontem à noite vi muita gente em modo "iupi, amanhã é feriado" sem a mínima referência ao motivo do dia santo...paradoxos de quem se diz "ateu, graças a Deus!" ou pelo menos de um país que procede como tal, que isto um dia santo muito grande em que não se pode trabalhar, como dizia o conto, dá sempre jeito.

 Mas pensemos fora do contexto puramente religioso para encarar a questão sob o ângulo cultural e sobretudo, numa perspectiva feminina.


A Virgem Maria, a rapariga bem comportada mais famosa de sempre, prova provada de que nem só as mulheres rebeldes fazem História, significa muito para as Católicas praticantes. É venerada como a mãe de Deus, Dei Genitrix, co-redentora da Humanidade, Rainha dos Anjos, inimiga - e terror- dos demónios, que fogem dela a bom fugir (arquétipo da mulher poderosa por excelência!) entre muitos outros títulos. Tem a posição mas elevada, abaixo só de Deus e acima dos próprios anjos. 


Provavelmente, significará bastante também para outras mulheres cristãs e mesmo para as devotas de demais religiões que respeitam Cristo como profeta, bem como para as adeptas de uma espiritualidade mais universalista centrada nas figuras femininas.

 Mas culturalmente, por herança, como modelo de comportamento feminino, a sua influência é imensa, especialmente num país como o nosso. Até para as mulheres que não querem nada com a espiritualidade ou que se afastaram da fé dos seus antepassados.

 O modelo mariano de comportamento - pureza, modéstia, temperança, prudência, sobriedade, obediência, graciosidade, feminilidade, doçura, força discreta- pode parecer desactualizado ou contra a norma nos dias de hoje, em que as mulheres têm um protagonismo cada vez maior na vida pública, logo espera-se (de uma forma algo equivocada) que sejam muito assertivas, ruidosas e declaradamente "poderosas".

Mas esse tipo de "poder" não nos convém necessariamente, nem é forçosamente mais eficaz para a "causa" feminina. Há poder no silêncio, na cooperação, na aceitação, na maternidade. 

Senão, pensemos: Maria podia ter dito "não, obrigada!" ao Arcanjo Gabriel. Se calhar de uma forma mais cerimoniosa, mas um "não" mesmo assim. A honra de ser a mãe do filho de Deus era imensa, mas os perigos e inconvenientes de ser mãe solteira em tal época eram suficientes para aterrorizar qualquer uma, quanto mais uma jovem sem experiência da vida e com um noivo a quem dar explicações. 


S.José era um homem verdadeiro em todos os sentidos, um perfeito cavalheiro, mas gostemos ou não, nessa altura Nossa Senhora não podia ter a certeza absoluta de que ele era santo. No entanto, a donzela foi sábia o suficiente para se deixar guiar por um poder maior, para não achar que ela é que sabia tudo.

 Às vezes, em diferentes aspectos da existência, temos de saber dizer "sim", ser receptivas. E a natureza feminina é em si mesma receptiva e cooperante, mas aceitar e deixar-se ir requer coragem. Maria foi corajosa não só nesse momento, mas ao longo de toda a sua vida: um parto arriscadíssimo, a fuga para o Egipto, a vida de um filho que para todos os efeitos era diferente dos outros jovens da sua idade (que mãe não teria um colapso se o filho andasse sumido três dias para conversar com os doutores do Templo?) e finalmente, o pavoroso suplício de Jesus, nada disto podia ser enfrentado com serenidade por uma mulher que não tivesse um coração de leão. Perante aquela tortura atroz ela não fugiu, não desmaiou, não soltou brados: sofreu com dignidade, dando aos seus inimigos a imagem da força magnânima e ao filho, um apoio inestimável. 


Depois, Maria era doce e subtil, conseguindo tudo do filho não com ordens, mas com meiguice. Não é por acaso que lhe chamam "medianeira" e "intercessora". Nas bodas de Canaã, Maria sabia que o filho lhe era obediente. Tendo ficado com pena dos noivos e sabendo aquilo de que Jesus era capaz, bastaria dizer "filho, resolva o problema do vinho por favor" que ordens de mãe não se discutem. 

Qualquer alma que soubesse fazer habilidades em pequeno sabe que muito provavelmente, a mãe insistia para as demonstrar quando havia visitas no melhor modo macaquinho do circo, certo? 

Mas Maria disse só algo do tipo "eles não têm vinho, coitados, que embaraçoso" e Jesus, apesar de responder "que tenho eu com isso?" lá transformou a água em vinho para salvar a festa. Uma mulher sensata não precisa de ser mandona, basta-lhe usar discretamente a sua influência para conseguir o mesmo resultado ou melhor.

E de resto, toda a sua passagem por este mundo foi cheia de paciência, cheia de classe na adversidade, cheia de serenidade...cheia de Graça e dessa graça feminil que todas, cristãs ou não, podem empregar porque é inata na mulher. Hoje é o dia perfeito para recordar e invocar esse dom tão feminino, tão desprezado...mas surpreendentemente actual e útil,se pensarmos bem.




2 comments:

C.N. Gil said...

Excelente texto!

:)

Carla Santos Alves said...

Excelente post.

Obrigada pela partilha.

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...