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Wednesday, December 16, 2015

Papás: não é desta protecção que as vossas filhas precisam


O Expresso noticiou, com um grande artigo num dos seus blogs, um vídeo institucional criado por uma organização Norueguesa, visando alertar os homens para o respeito pelas mulheres. Até aí, fantástico. O vídeo é bem feito, bonito e comovente.

 Mas se olharmos para além do texto bonitinho e da musiquinha melancólica, percebem-se duas coisas: primeiro, o quanto a premissa é redutora (segundo os autores, todos os males das raparigas se resumem ao facto de os rapazes não acharem nada de grave dirigirem piadinhas sexistas, ou chamarem p*** e galdérias às meninas) e segundo, o tom vitimista da coisa, roubando às mulheres toda a responsabilidade pelos seus actos e pela sua segurança. Basta começar pelo título "Papá, protege-me porque nasci mulher". 



Calma aí.

Deixem-me começar pelo argumento com que concordo no anúncio, embora a meu ver tenha sido mal explicado porque isto da "igualdade" baralha sempre tudo: é obrigação de qualquer homem com H, de um Senhor que se preze, de um homem honrado, criar os seus filhos rapazes para essa velha instituição que se chama ser um CAVALHEIRO.

Há um dever moral de ensinar o seu filho a respeitar todas as meninas e senhoras como se fossem suas mães ou irmãs. A evitar certo palavreado dirigido a, ou na presença de, meninas ou senhoras. A não bater numa menina nem com uma flor (embora seja justo afastá-la com mais veemência se ela lhe bater primeiro).

A não invadir o espaço físico alheio sem ser convidado e - caso seja um rapaz muito popular - a jamais descer ao ponto de se aproveitar das fraquezas (e da falta de juízo) do sexo oposto. Mesmo que se trate de raparigas alteradas por uns copos a mais, logo fora da posse das suas faculdades; ou até "daquelas" jovens "oferecidas" com baixa auto estima iludidas e desmioladas, que oferecem este mundo e o outro não numa perspectiva modernaça e casual, sem compromisso, "get mine,  get yours e no fim cada um vai à sua vida" mas na tentativa patética de obter umas migalhas de amor e atenção. Um cavalheiro evita brincar com os sentimentos alheios, ainda que possa dizer, em sã consciência, "eu nunca a enganei, nunca lhe prometi nada". Não precisa disso.




Um homem ensinará os seus filhos que um homem, como mais forte, deve ter cuidado com o que é delicado e frágil - e isso pode incluir ser compassivo com a "galdéria da escola", protegendo-a de si própria. E por fim, a respeitar que um não é um não. Ainda que pareça quase um sim, a própria hesitação alheia é sagrada. Se vier a ser sim não faltará oportunidade de o confirmar, if you know what I mean.

 Tudo isto é muito simples: é dizer a um rapazinho "não cresças para ser um cobarde e um canalha". Depois o resto passa por dar o exemplo, pois os meninos tendem a tratar as futuras mulheres na sua vida conforme vêem o pai tratar a mãe e as irmãs. A fidelidade, o carinho, o cuidado, o respeito, a firmeza e a delicadeza de atitudes  são coisas hereditárias.

E por aqui me fico quanto à ala masculina; agora vamos ao lado feminino da questão. O vídeo é todo narrado com frases que fariam chorar as pedras da calçada...se não as ouvirmos realmente bem.

"Querido papá. um dia os meninos vão chamar-me vadia por causa do comprimento da minha saia";



"Querido papá. um dia eu vou estar perdida de bêbeda e um rapaz vai avançar demais embora eu diga que não, mas vou estar demasiado entornada para que ele acredite em mim";

Assim como cabe a um pai educar filhos respeitadores, cabe-lhe criar filhas prudentes, com noção do apropriado e conscientes de que este mundo está cheio de gente de má rês, e de que isso não muda por mais campanhas açucaradas que se façam.

Isto porque embora o comprimento da saia não dê a ninguém o direito de insultar ou atacar outrem, não seja um convite e até possa não ser estatisticamente proporcional às agressões (se assim fosse, as mulheres em certos países muçulmanos nunca tinham problemas) é sim, em certos sítios, horas e circunstâncias, um factor de risco. Em todo o caso, há locais e situações para tudo e uma rapariga bem formada, educada de forma direita pelos pais, sabe que não precisa de vestir como a Nicki Minaj para ser bonita. Ensinem as vossas filhas a procurar a elegância, e não tanto a sensualidade, e a zelar por uma boa reputação, incluindo nas redes sociais. Expliquem-lhes que se uma roupa parece duvidosa, se calhar vai levantar ideias duvidosas nos outros. E que não convém dar aos outros uma ideia errada e injusta de si mesma.



Mostrem-lhes que os homens apreciam as mulheres elegantes e modestas, que são essas que eles querem, mais tarde, apresentar aos pais; que a feminilidade, ao contrário da vulgaridade, nunca cai mal....e dificilmente elas serão insultadas injustamente por causa da roupa. Poderão arreliá-las com outras coisas (a miudagem arranja sempre por onde implicar) mas para isso, aposto que lhes faltarão argumentos. Vestir como uma stripper sem ser incomodada pode até ser um direito, mas não devia ver-se como uma "vitória feminina".

Igualmente, convém martelar, ad nauseam, indo buscar testemunhos de parentes ou amigas mais velhas se preciso for, que uma rapariga alterada por álcool ou drogas não pensa bem, não vê bem, não mede o que faz.  Assim como um rapaz alcoolizado pode perder a noção dos limites. Rapaz bêbedo, rapariga bêbeda, o resultado nunca é famoso. Isso é facto e depois do mal feito culpar o rapaz aproveitador e o machismo serve pouco de consolo.




E depois o vídeo continua visando casos mais dramáticos:

"Querido papá, um dia um rapaz aparentemente inofensivo não vai entender que não é não". 

Isto já é mais complicado. Pode acontecer à rapariga mais independente, mais forte - ou porque teve azar, ou porque é ingénua, está apaixonada, dali não espera violências e o imbecil não soube conter o seu "entusiasmo" (ou não lhe ensinaram isso de respeitar a tal hesitação sagrada, que pode surgir- com toda a legitimidade- mesmo que as reservas pareçam ter caído).  O remédio contra isto é preventivo, porque uma sova à moda antiga após o mal feito também não desfaz o mal nem cura o trauma. Ensiná-la a ser assertiva quando necessário, a não ter medo de verbalizar nem de ser desagradável com quem é desagradável. 


As mulheres são educadas para ser encantadoras, mas isso nem sempre funciona no mundo em que vivemos. E acima de tudo, convém dar-lhe uma forte noção de respeito próprio e mostrar-lhe como ler os sinais e saltar fora ao primeiro pisar de risco: um namorado que abusa não o faz de um momento para o outro. A falta de respeito, o descaso pelos sentimentos dela, o amesquinhar da auto estima, a pressão está lá sempre antes de o mais grave acontecer.

"Querido papá, um dia o homem perfeito vai deixar de ser perfeito e agredir-me".

Outra de que infelizmente nenhuma mulher está livre (nem homem, mas vamos aqui pela lei da força física). Também aqui nenhuma agressão surge do nada e só há uma vacina: treinar cada menina para nunca tolerar, desculpar ou relativizar a falta de respeito, o ciúme patológico, a crueldade psicológica, íntima ou física. O papel de um pai é avisar sobre os maus rapazes, sem estender essa ideia assustadora a todos os rapazes; dar a uma rapariga a consciência do seu real valor; frisar que nunca deve isolar-se nem guardar esses segredos, que pode contar com a família para ouvi-la sem julgamentos. 



Muitas mulheres têm medo de confidenciar com o pai - e/ou os irmãos rapazes- temendo reacções extremas. Podia estar o dia todo a relatar casos de mulheres maltratadas que recearam pedir ajuda à família por essa razão, agravando o problema quando podia ser remédio santo (pois infelizmente, os cobardes só respeitam a força bruta).

Mais do que tudo, para prevenir ambos os casos - estranhos ou namorados que abusam e agridem -   as artes marciais e as aulas de auto defesa fazem mais pela auto estima e segurança feminina do que todo o feminismo junto.

Reduzir tudo ao sexismo -até o que depende da auto-responsabilidade - é  míope, perigoso, cheio de wishful thinking e de um idealismo que só lembra aos nórdicos, obcecados pelas questões de género.

"Querido papá, ENSINA-ME A TOMAR BEM CONTA DE MIM PRÓPRIA...porque sou mulher" é uma mensagem bem mais sensata, porque é ilusão tentar educar toda uma sociedade de forma perfeita para a tornar livre de agressores. Afinal, ou somos fortes e independentes ou não somos. Decidam-se.

1 comment:

barcelence said...

Dado o forte contexto de imigração, com comunidades etnico religiosas por vezes muito diversas da cultura norueguesa ou mesmo ocidental, os media propõem estas campanhas supostamente endereçadas à generalidade do público, mas em que se acaba por perceber a quem são realmente endereçadas.

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